<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Daia Florios, Autor em Instituto La Lettre | Psicanálise</title>
	<atom:link href="https://lalettre.com.br/author/daia-florios/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://lalettre.com.br/author/daia-florios/</link>
	<description>Espaço multidisciplinar dedicado à transmissão de conhecimento, atendimento, pesquisa e interlocução nos campos da psicanálise, cultura e linguagem</description>
	<lastBuildDate>Sat, 23 May 2026 15:05:21 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.4</generator>

<image>
	<url>https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2024/08/logo-512-x-512-1-150x150.png</url>
	<title>Daia Florios, Autor em Instituto La Lettre | Psicanálise</title>
	<link>https://lalettre.com.br/author/daia-florios/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>O Gozo Masoquista em Justine de Sade e Severin de Masoch</title>
		<link>https://lalettre.com.br/o-gozo-masoquista-em-justine-de-sade-e-severin-de-masoch/</link>
					<comments>https://lalettre.com.br/o-gozo-masoquista-em-justine-de-sade-e-severin-de-masoch/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 21:15:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise e Arte]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://lalettre.com.br/?p=11894</guid>

					<description><![CDATA[<p>“Quem se deixa açoitar merece os açoites.”Leopold von Sacher-Masoch em A Vênus das Peles Daia Florios Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre em 2025, estudante de Ciências e Técnicas Psicológicas na Sapienza Università di Roma. Resumo: O conceito de gozo, na psicanálise, tem a ver com masoquismo porque, em poucas palavras, refere-se a uma espécie [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/o-gozo-masoquista-em-justine-de-sade-e-severin-de-masoch/">O Gozo Masoquista em Justine de Sade e Severin de Masoch</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right">“Quem se deixa açoitar merece os açoites.”<br>Leopold von Sacher-Masoch em <em>A Vênus das Peles</em></p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="750" height="750" src="https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a.jpg" alt="Daia Florios" class="wp-image-11895" style="width:79px;height:auto" srcset="https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a.jpg 750w, https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a-300x300.jpg 300w, https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></figure>



<p>Daia Florios</p>



<p>Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre em 2025, estudante de Ciências e Técnicas Psicológicas na Sapienza Università di Roma.</p>



<p><strong>Resumo: </strong>O conceito de gozo, na psicanálise, tem a ver com masoquismo porque, em poucas palavras, refere-se a uma espécie de prazer no desprazer. Sendo assim, “gozo masoquista” poderia se configurar um pleonasmo, pois ambas as palavras sugerem prazeres que vão além do princípio do prazer, e têm relação com a pulsão de morte. Neste trabalho seremos específicos, analisaremos qual prazer desprazeroso se esconde atrás da autodepreciação que um masoquista procura ter, tomando como caso dois personagens de duas obras literárias: Justine do Marquês de Sade e Severin do Sacher-Masoch.</p>



<p><strong>Palavras-chave:</strong> Sacher-Masoch; Marquês de Sade; Freud; Lacan; Deleuze; Masoquismo; Sadismo</p>



<p><strong>1. A perversão como estilo de vida</strong></p>



<ol class="wp-block-list">
<li></li>
</ol>



<p>Masoquismo e sadismo são termos criados pelo psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, Viena &#8211; 1886, em seu <em>Psychopathia Sexualis</em>: um tratado de psiquiatria onde o célebre médico listou uma série de práticas sexuais que não se encaixavam em uma suposta “normalidade” comportamental humana.</p>



<p>Para cunhar tais termos, Krafft-Ebing se inspirou em dois grandes autores: o francês Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade (1740-1814), e o austríaco Leopold Von Sacher-Masoch (1836-1895), os quais iremos tratar nesse estudo.</p>



<p>A literatura sadiana é toda pautada no libertarianismo, na ideologia do libertino, ou seja, no vale tudo próprio da perversão, uma espécie de naturalismo, um pensamento muito bem exposto e sustentando na obra “A Filosofia na Alcova”, fundamental para entender o pensamento sádico; enquanto Masoch sustenta um ideal que ele mesmo chamou de ultra-sensualismo.</p>



<p>Popularmente, considera-se que o masoquista é aquele que gosta de sofrer e de ser dominado; enquanto o sádico gosta de dominar e causar sofrimento. Mas essas definições, como veremos, não têm a ver com perversão no sentido original do termo, pois ultrapassam as práticas sexuais de onde esses nomes vieram, uma vez que tanto o sadismo quanto o masoquismo podem ser lidos como condições que desbordam para a vida.</p>



<p><em>Pervĕrsus</em> é o particípio passado de <em>pervertĕre</em>, verbo formado pelo prefixo per- (que indica desvio) e pelo radical <em>vertĕre</em> (‘voltar’, ‘girar’). Desse modo, perverso é aquele que pode seguir qualquer via ou direção.</p>



<p><strong>2. A importância clínica do “sadomasoquismo”</strong></p>



<p>Se visto como estilo de vida, e não como perversão, o “sadomasoquismo” pode ser verificado em todas as relações sociais onde existam forças de oposição entre dominadores e dominados. Ou seja, praticamente em toda relação social. A questão fundamental que se coloca é a do prazer em ocupar essas posições desagradáveis.</p>



<p>Pode parecer óbvio que todos gostem de ocupar a posição de dominação. Mas o óbvio não existe, sobretudo para a psicanálise, que trabalha a subjetividade, o inconsciente, o desconhecido, e onde obviedades não existem.</p>



<p>Assim, tem-se o gozo da vítima em sofrer nas relações ditas “tóxicas”, nas posições de submissão, nas de injustiça provocadas pelo racismo, pela pobreza e pelas faltas de todo tipo. São temas muito difíceis de serem tratados porque a posição masoquista não é simples nem fácil de ser assumida. A vítima, ao racionalizar e recalcar seu gozo, acaba indo para um lugar onde sente que nada tem a ver com o seu sofrimento, ou seja, entra numa espécie de “neurose de destino” e dá a culpa ao outro, grande (<em>A</em>) ou pequeno (<em>a</em>) outro que seja, livrando-se de qualquer culpa e ao mesmo tempo, reforçando sua moral ilibada e boa conduta.</p>



<p>Como veremos, Justine é um personagem masoquista de Sade. A novela (<em>Justine e as Desgraças da Virtude</em>) conta a história de uma mulher vítima das piores atrocidades sádicas, mas que o tempo todo da narrativa parece buscar deliberadamente por situações de sofrimento.</p>



<p>É muito importante ler Justine para entender relações tóxicas, inclusive relações tóxicas consigo mesmo. O prazer no desprazer (o gozo) é algo típico masoquista que merece ser analisado, inclusive para ser “curado”. E a palavra “cura” não vem à toa, vem de Severin, o personagem de Sacher-Masoch em “A Vênus das Peles”. Depois de tanto apanhar, Severin se diz “curado”. Em suas palavras: “ou tu és o martelo ou a bigorna”, como se as opções fossem apenas estas: dar ou receber porrada e, depois de tanto receber, inverter e passar a dar, ou seja, curar-se.</p>



<p>Da mesma maneira, Juliette, a irmã perversa de Justine, ao final da novela entra para um convento de freiras na tentativa senão de curar-se da perversão, de limpar-se dos pecados cometidos.</p>



<p>Neste trabalho iremos falar sobre Justine de Sade e Severin de Masoch, junto com Freud, Lacan e Deleuze na tentativa de entender de onde vem o gozo masoquista, pelo menos nesses personagens, e como podemos trazê-los para a clínica, lembrando que a arte sempre imita a vida. No caso do “A Vênus das Peles”, o romance é praticamente autobiográfico, assim como as obras de Sade trazem histórias de sua vida real, do libertino que ele foi, ou melhor, do masoquista que ele também foi, tendo passado a maior parte da sua vida no sofrimento de um cárcere.</p>



<p><strong>3. Sadomasoquista: junto ou separado?</strong></p>



<p>Em “O Frio e o Cruel”, o filósofo francês Gilles Deleuze argumenta que não existe uma dinâmica sadomasoquista, ou seja, um comportamento que deslize de uma posição para a outra. Sado e maso são, segundo Deleuze, perversões completamente distintas e separadas.</p>



<p>Analisando as obras de Sade e Masoch, inclusive as que trazemos aqui, Deleuze opta por uma distinção radical de um e de outro comportamento. Sua argumentação é baseada na estética literária dos autores, bem como na própria composição dos personagens.</p>



<p>Uma piada usada no livro conta sobre o encontro entre um sádico e um masoquista: o masoquista diz: “Me machuque” e o sádico responde: “Não.” (Deleuze, 1991, pp 40). O que a anedota quer dizer é que, para um sádico, não há a menor graça bater em quem quer apanhar, por isso, sadismo e masoquismo não existem como comportamentos complementares nem ambivalentes.</p>



<p>Além disso, analisa Deleuze, Sade é explícito nas cenas de sexo e horror, enquanto Masoch trabalha mais com a fantasia. O sadismo é institucional, enquanto o masoquismo é contratual. O sadismo opera por meio de repetição quantitativa; o masoquismo por meio de suspensão qualitativa. Entre essas e outras análises da narrativa, Deleuze resume argumentando que há um masoquismo específico no sádico, assim como um sadismo típico do masoquista e enfim, somando todas essas diferenças, ele acentua as discrepâncias entre a apatia sadista e a frieza masoquista (Deleuze, 1991, pp 134).</p>



<p>Agora vejamos como Sigmund Freud vê o conceito sadomasoquista, e se este deve ser escrito junto ou separado.</p>



<p><strong>4. As vicissitudes e o problema econômico</strong></p>



<p>O tema do masoquismo esteve presente praticamente em toda a obra freudiana, desde 1905 nos <em>Três ensaios sobre a teoria da sexualidade</em>, onde o masoquismo é considerado secundário em relação ao sadismo. Depois, em <em>Aqueles que fracassam no sucesso</em> (1916) o tema é retomado e seguido de <em>Uma criança é espancada</em> (1919) até chegar em duas obras mais específicas, como veremos.</p>



<p>Freud, que tem toda a sua teoria baseada na ambivalência &#8211; que é a coexistência de forças contrárias regidas por certos princípios do psiquismo (o do prazer: buscar prazer e evitar o desprazer); o da realidade (em que o ego adia a gratificação imediata dos desejos para atender às exigências do mundo externo); o da constância, de Fechner (o aparelho psíquico tende a reduzir as tensões em uma “tendência à estabilidade”) &#8211; irá dizer que sadismo e masoquismo não são opostos porque esses “princípios” não são excludentes, ao contrário, podem coexistir entre eles.</p>



<p>No texto curto e denso <em>O instinto e suas vicissitudes</em>, famoso pela questão da tradução de “triebe und triebschicksale”, instinto e seus destinos ou pulsão e seus destinos, Freud diferencia a pulsão do instinto, sugerindo que há algo entre o somático (corpo) e o mental (psiquismo) que é constante e interno, que independe de estímulos externos, ou seja, que não é instintual e que sofre uma pressão (<em>drang</em>) por satisfação, com uma finalidade (<em>ziel</em>), através de um <em>objekt</em> (objeto).</p>



<p>Nesse sentido, a pulsão é um conceito fronteiriço entre o corpo e a mente. Muito resumidamente, é uma força constante que nasce no corpo e pressiona a mente a buscar por uma satisfação, independentemente de estímulos externos.  </p>



<p>O desprazer aumenta esse estímulo interno, e o prazer o diminui. A finalidade então é eliminar o estado de estimulação na fonte, podendo haver caminhos intermediários constituindo satisfações parciais ou inibições. As mudanças pelas quais as pulsões passam ao longo da vida seriam as vicissitudes, e explicariam um masoquismo principal do qual derivaria o sadismo, onde a finalidade, a intenção da pulsão, era a de dominar (sadismo), mas que não podendo ser direcionada ao externo se internaliza e se transforma em dominação e dor autoinfligida.</p>



<p>Pode parecer complicado, mas estamos falando de um texto de 1915 que, de qualquer forma, busca ser científico do primeiro ao último parágrafo para entender, substancialmente, os porquês do gozo masoquista, ou melhor, por que há prazer no desprazer? E conclui de maneira labiríntica que as pulsões podem se modificar e interagir entre elas de maneira complexa. Nesse sentido, sadismo e masoquismo seriam um do outro, o reverso da mesma moeda.</p>



<p>Mais adiante, em <em>O Problema Econômico do Masoquismo</em> (1924), Freud empresta de Barbara Low a ideia do “Princípio de Nirvana”, segundo o qual todo desprazer deveria coincidir com um aumento, e todo prazer com uma diminuição da&nbsp;tensão mental devida a um estímulo. No texto referido, para entender o masoquismo, Freud está considerando o princípio do prazer como um vigia da nossa vida, pois o aparelho psíquico tende a reduzir a zero, ou ao mínimo possível, sua tensão interna. Sob essa ótica, a mente operaria em busca de uma economia psíquica voltada à estabilização absoluta de estímulos. O masoquismo surge, então, como um enigma, pois não haveria lógica na busca pela dor para a manutenção da vida. Percebe-se aqui o seu problema econômico: a existência de tensões que, em vez de evitadas, são buscadas por se tornarem fontes de prazer. Por qual razão o sujeito extrairia satisfação do infortúnio? Por que existem tensões prazerosas (como a excitação sexual) e, inversamente, sensações de alívio que só se alcançam através de estados profundamente desprazerosos (como a autoflagelação)?</p>



<p>Para resolver esse problema econômico, Freud então divide e analisa o masoquismo em três tipos: erógeno, feminino e moral.</p>



<p>O primeiro, o masoquismo erógeno (prazer na dor) está na base das outras duas formas, sendo de origem biológica e constitucional.</p>



<p>O segundo, o masoquismo feminino (que alguns traduziram como femíneo porque não tem relação com o gênero), tem a ver com a castração e a posição de passividade em relação ao outro.</p>



<p>O terceiro, o masoquismo moral, é inconsciente (ou seja, desconhecido) e tem a ver com o sentimento de culpa, com o supereu.</p>



<p>O que Freud conclui nesse texto é que existe um masoquismo primário (erógeno) onde a libido captura uma tendência autodestrutiva e erotiza a dor, o que permitiria que uma tendência autodestrutiva não fosse mortífera e se tornasse parte do funcionamento erótico.</p>



<p>Embora Freud não tenha sido explícito, ou melhor, tenha sido muito sucinto nesse outro texto curto e denso, ele traz a noção do princípio do Nirvana (ou da pulsão de morte) para a origem do problema da dor como guardiã da vida. Podemos ler hoje, que experiências de violência precoce ou desamparo podem se inscrever nesse terreno estrutural do masoquismo primário.   Mas não precisamos ir longe, sobretudo se não tivermos experiência clínica onde recorrentemente aparece, infelizmente, o abuso na mais tenra idade. Basta pensar que uma displicência ordinária, uma resposta não dada subitamente ao choro de um bebê, poderia ser percebida como violência ou desamparo. E então, transformar a dor em prazer tornar-se-ia um mecanismo de defesa e, mais que isso, de sobrevivência.</p>



<p>Em outras palavras, tem-se que o masoquismo sugere uma agressividade inicial que, não podendo ser expressa para fora, retornaria contra o próprio sujeito, dando a este a ideia de estar sob o controle da situação. É como dizer: “enquanto eu dependo do outro e o outro não vem ao meu socorro quando eu preciso, é melhor eu transformar essa dor, esse desamparo, em prazer.”</p>



<p>O ego, inconscientemente, precisa desse subterfúgio para sobreviver se as condições dadas colocarem em risco a própria vida. É a pulsão de morte como guardiã da vida.</p>



<p>Ao final deste texto freudiano, o masoquismo fica evidenciado como uma ambivalência de instintos que se origina na pulsão de morte e que, possuindo um significado erótico, até mesmo de destruição por si mesmo, aparece com vestes de satisfação libidinal.</p>



<p>Em ambos os textos analisados, temos que, no sentido freudiano, a expressão sadomasoquismo revela uma relação dialética em que uma perversão pode se transmutar na outra (vicissitude).</p>



<p>Freud observa que tendências sádicas e masoquistas podem coexistir no mesmo sujeito, com o sádico sendo também capaz de experimentar prazer na dor que inflige a si mesmo, e o masoquista podendo sentir prazer ao causar dor ao outro.</p>



<p>Em suma, Freud, em um texto e no outro nos dá a entender que causar e sofrer dor (assim como olhar e ser olhado no <em>voyeurismo</em>) são posições intercambiáveis, ao contrário de Deleuze que as vê completamente separadas por questões de lógica e de estética.</p>



<p><strong>5. Kant con Sade, Masoch e Lacan  </strong></p>



<p>Se fosse uma ópera: “Cante com Sade, Masoch e Lacan”, bem que poderíamos cantar os personagens, onde Kant diria:<br></p>



<p>&#8211; Faça com que seu desejo coincida com a moral da lei e dos bons costumes.<br>Sade, o libertino:<br>&#8211; Pelo contrário, ilustre Kant, faça de modos que o seu desejo possa romper com todas as leis.<br>Lacan, o analista, diria:<br>&#8211; Os senhores estão falando do mesmo, mas em sentido contrário: nem o eu, libertino, egoísta e sem lei; nem a lei, fria e impessoal. Tomem consciência de que o desejo vos atravessa e vos coloca frente ao risco e à finitude. É nele, nesse atravessamento, que reside a vossa liberdade.</p>



<p>É a ética psicanalítica, a ética do desejo, nem kantiana nem sadiana, mas a das pulsões, sejam estas de vida ou de morte que, juntando tudo, agora no resumo da ópera, significa a ética de fazer o que de melhor possível perante o real: a mortalidade da vida.</p>



<p>Talvez tenhamos complicado, mas o possível é o singular: cada caso é um caso. Então, vamos aos casos: Justine e Severin.</p>



<p><strong>6. Justine, a virtude em pessoa</strong></p>



<p><em>Justine, ou As Desgraças da Virtude</em>, de Marquês de Sade, é um romance de 1791 que conta a história de duas irmãs, Justine e Juliette, que, uma vez órfãs, seguem caminhos diferentes na vida. Justine, a virtuosa, mantém Deus no coração, enquanto Juliette entrega-se às mundanidades da vida.</p>



<p>O romance narra as provações de Justine, jovem inocente e piedosa que, mesmo na pior das situações que a vida lhe coloca, decide permanecer fiel aos princípios da virtude e da religião. Ao longo da história, porém, cada ato de bondade ou pureza a leva a novas tragédias: é explorada, enganada, abusada e injustiçada repetidamente. E o pior: seus algozes se dão muito bem, ficam cada vez mais ricos e sempre são premiados pela vida, em dinheiro e honrarias.</p>



<p>Em contraste, sua irmã Juliette, que escolhe uma vida de vícios, prazeres e corrupção, enriquece, conquista poder e alcança uma existência confortável.</p>



<p>Sade utiliza a oposição entre as duas irmãs para expor uma visão crítica, irônica e provocadora sobre a moralidade, a religião e a sociedade de sua época: no mundo real, o vício é recompensado e a virtude é castigada. Como quem diz: se o mundo é corrupto, o melhor a fazer é corromper-se.</p>



<p>Enquanto Juliette goza da <em>bella vita</em>, Justine goza das desgraças da virtude. No decorrer da trama, cada desgraça vivida sugere uma outra ainda pior, num jogo infantil que só a vítima não quer enxergar. Por que? Porque há um gozo masoquista aí.</p>



<p>O leitor antevê todos os males que Justine sofrerá, mas a jovem virtuosa segue seu gozo martírico, uma espécie de fé na humanidade. E quanto mais ela sofre, mais sua fé se fortalece. “Ou se é o martelo, ou se é a bigorna”, diz Severin de Masoch, e Justine decidiu ser a bigorna até as últimas consequências e diante de todas as evidências de suas escolhas erradas.</p>



<p>Justine encarnou a ética kantiana de cumprir um dever universal além dos interesses pessoais, e levou esse imperativo às últimas consequências, morrendo de maneira inesperada. Sade é extremamente irônico ao final da novela colocando a irmã, Juliette, em uma posição semelhante à de Severin de Masoch, que transitando de um lugar a outro, decide bater em vez de apanhar, enquanto Juliette, ao contrário mas igualmente, decide apanhar em vez de bater. Além dessa ambivalente vicissitude de sado a maso e de maso a sado, Justine e Severin têm algo muito em comum: a ideia do martírio, do gozo masoquista, do prazer no desprazer, do parecer passivo, mas ser ativo.</p>



<p><strong>7. Severin, macho nada <em>alpha</em></strong></p>



<p>Severin é um ultra-sensual (palavras dele em suas “confissões” &#8211; Sacher-Masoch, 1870, pp. 12), alguém que sonha as matriarcas de uma época, as deusas e líderes como Madame de Pompadour, Catarina II, Lucrécia Bórgia, Rainha Margot, Dalila e tantas outras citadas como musas inspiradoras, mulheres que “botavam o falo na mesa”. Severin, aparentemente, é o macho submisso, que se coloca voluntariamente aos desmandos da deusa matriarca.</p>



<p><em>A Vênus das Peles </em>foi escrito em 1870, época já patriarcal onde muitos homens, e desde aquela época até hoje, tiveram que tomar as rédeas da situação quando “bom mesmo” era obedecer. Parece estranho dizer isso, principalmente porque muito se critica o patriarcado hoje, mas existem homens (como Severin) que prefeririam o lugar da submissão. É compreensível se fizermos uma rápida análise de <em>Totem e Tabu</em>, (Freud, 1913). Segundo Freud, nossa sociedade é fundada na angustiante ambivalência entre matar o pai (ganhar liberdade e tomar o poder) mas perder a sua proteção. É como dizer: se quiser causar mal ao homem dê-lhe a liberdade. Nada mais angustiante que a liberdade. O homem não sabe o que fazer dela.</p>



<p>Muito resumidamente, o enredo de <em>A Vênus das Peles</em> (1870) gira em torno de Severin von Kusiemski, um homem que sente prazer em ser subjugado. Ele conhece Wanda von Dunajew, por quem se apaixona e com quem firma um contrato de servidão: aceita ser tratado como escravo, desde que ela use peles ao exercer o poder. As peles remetem às deusas e guerreiras que ele idolatra, e à surra que um dia levou de uma sua tia. Com o tempo, Wanda assume de fato esse papel dominador e capricha nos castigos ao ponto de exceder, permitindo que um de seus amantes açoite Severin. No final, Wanda se retira com esse amante e Severin chega ao seu limite. Anos depois, recebe uma carta de Wanda onde ela diz ter aceitado participar do “jogo” na intenção de curá-lo cruel e radicalmente do seu gozo masoquista (Sacher-Masoch, 1870 pp 79-80).</p>



<p>Ser curado do seu gozo masoquista são palavras nossas, não de Wanda, mas o essencial é isso, pois Severin se diz curado e resume sua história assim:</p>



<p>“A moral é que eu fui um burro (…) Se ao menos eu a tivesse açoitado! (…) Daí a moral da história: Quem se deixa açoitar merece os açoites.”</p>



<p>Justine e Severin têm algum muito em comum. Ambos são…</p>



<p><strong>8. Mártires (e levam tudo às últimas consequências)</strong></p>



<p>Justine, provavelmente, morre acreditando que vai para o céu (e de fato vai: deus a leva consigo num raio de luz), afinal, o mundo cruel não é para ela, tão casta, tão virtuosa. E Severin foi, em suas palavras, um mártir do amor. (Sacher-Masoch, 1870, pp 26).</p>



<p>O martírio está em polvorosa em ambas as obras porque a arte imita a vida. Vejamos bem: Hércules cumpre 12 trabalhos (castigos) para atingir um estado de redenção pelos males que cometeu (matou a família), para restaurar sua honra e sua moral. Muitos terapeutas usam no trabalho com tóxico-dependentes a jornada do herói, composta de 12 passos. O sacrifício está na ideia de redenção humana. Jesus se sacrificou por nós. A cultura masoquista está entranhada em nossas veias desde os primórdios, desde os gregos e romanos antigos, a história é sempre civilizatória no sentido kantiano: abdicar do desejo para um bem maior. Sade inverte, <em>a priori</em>, essa ordem, mas Lacan enxerga um fantasma em sua ópera Kant com Sade, ou ironizando: “Cante com Sade o Fantasma da Ópera”.</p>



<p>Quem é o fantasma da ópera? É a fantasia da imortalidade. Quando lemos a ética da psicanálise, lemos a ética do desejo, a ética de Eros, ou seja, a ética da pulsão de vida.</p>



<p>O masoquismo está muito ligado à pulsão de morte. Se em Freud, como mecanismo de defesa, como guardião da vida, uma espécie de narcisismo inclusive; em Lacan o masoquismo ocupa a posição de verdadeiro dominador, lobo em pele de cordeiro, que se faz se objeto de rejeito para ser comprado.</p>



<p>O masoquista é uma pessoa que sabe usar o poder do outro em seu próprio favor, para gozar da imagem martírica de si mesmo. Se o culpado é sempre o outro, o mundo cruel, o masoquista, mais do que limpo, sai mártir na história, sendo ainda capaz de encontrar um sádico que assume deliberadamente o papel de mau, de perverso, de fora da lei.</p>



<p>Para Lacan, a verdade sádica se revela somente no masoquista porque é na dor, e não no prazer, que as práticas sadomasoquistas permitem o êxtase para além do princípio do prazer.</p>



<p><strong>Conclusão</strong></p>



<p>O martírio é o gozo masoquista. É o fantasma da redenção, do sacrifício, da imortalidade da alma que esconde a mortalidade do corpo que, provavelmente, faz com que exista prazer no desprazer.</p>



<p>A mulher que apanha até morrer (enquanto não morre, resiste);<br>O dependente químico (só mais uma dose antes da derradeira);<br>O desgraçado, injustiçado, escravizado, a vítima mais vítima de todas que, como Justine, é incapaz de ver que está deliberadamente procurando por seus algozes, tampando o sol com a peneira, armando-se de todos os mecanismos de defesa do ego para manter sua imagem imaculada de mártir;<br>Os mártires da religião, aqueles que se sacrificam em nome de deus, buda, alá, que pulam fogueiras, que dormem em camas de espinhos…</p>



<p>É provável que todos esses masoquistas acreditem na redenção de suas almas. Gozam do olhar angustiado do outro, da pena do outro que lhes revela uma maldade genuína e comum em todos nós.</p>



<p>Esses jogos de poderes, que sobretudo nas relações de amor podem ser muito excitantes, são perigosos e, de fato, matam.</p>



<p>Há salvação. Há cura, pelo menos nas histórias que aqui analisamos. Justine morre porque levou seu gozo às últimas consequências, mas Severin se “cura”.</p>



<p>Ao final de ambas as histórias o que permanece é a ironia e a honestidade sádica: o mundo é sim injusto e perverso, mas ser masoquista não faz de ninguém um santo.</p>



<p>Freud explica que enquanto o masoquista se esforça para esconder os aspectos inquietantes e cruéis de sua personalidade, o sádico torturador esconde de si uma terrível falta, uma desmesurada fraqueza.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>DELEUZE, Gilles. O frio e o cruel. Disponível em: [http://pdf-objects.com/files/gilles-deleuze-masochism-coldness-and-cruelty-venus-in-furs.pdf](http://pdf objects.com/files/gilles-deleuze-masochism-coldness-and-cruelty-venus-in-<br>furs.pdf). Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>ESSE Psicologia. Perversione: i crociati dell’Altro \[vídeo]. Disponível em: [https://www.youtube.com/watch?v=-5HZfTnYHuY](https://www.youtube.com/watch?v=-5HZfTnYHuY). Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Al di là del principio di piacere. Torino: Bollati Boringhieri,<br>2023.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Totem e tabù. Torino: Bollati Boringhieri, 2023.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Os instintos e suas vicissitudes. Disponível em: https://<br>dravni.co.il/wp-content/uploads/2014/05/Freud-S.-1915.-Instincts-and-their-<br>Vicissitudes.pdf. Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>FREUD, Sigmund. O problema econômico do masoquismo. Disponível em:<br>https://iepp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Freud-S-Problema-Economico-<br>do-Masoquismo-7.pdf. Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>LACAN, Jacques. Kant com Sade. Disponível em: https://londonsociety-<br>nls.org.uk/wp-content/uploads/kant-with-sade2.pdf. Acesso em: 26 set. 2025</p>



<p>MASOCH, Leopold von. A Vênus das Peles. Disponível em: [https:// www.supremaciafeminina.com.br/VENUSDASPELES.pdf](https://www.supremaciafeminina.com.br/VENUSDASPELES.pdf). Acesso em: 26 set.<br>2025.</p>



<p>SADE, Donatien Alphonse François de. Justine, ou os infortúnios da virtude. Disponível em:https:www.academia.edu/5565148/12Marques\_de\_Sade\_Justine](https://www.academia.edu/5565148/Marques_de_Sade_Justine). Acesso em: 26 set. 2025.</p>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/o-gozo-masoquista-em-justine-de-sade-e-severin-de-masoch/">O Gozo Masoquista em Justine de Sade e Severin de Masoch</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://lalettre.com.br/o-gozo-masoquista-em-justine-de-sade-e-severin-de-masoch/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A IA pode substituir um terapeuta?</title>
		<link>https://lalettre.com.br/a-ia-pode-substituir-um-terapeuta/</link>
					<comments>https://lalettre.com.br/a-ia-pode-substituir-um-terapeuta/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Sep 2025 13:37:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[inteligência artificial]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://lalettre.com.br/?p=11577</guid>

					<description><![CDATA[<p>Segundo um estudo publicado na Harvard Business Review, em 2025, terapia com chatbots foi o principal uso que as pessoas fizeram da inteligência artificial (IA). Isso significa que as pessoas estão usando chatGPT, Gemini, Copilot e outras ferramentas do tipo principalmente para &#8220;conversarem&#8221;. Será que a IA poderá um dia substituir os terapeutas? Essa é [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/a-ia-pode-substituir-um-terapeuta/">A IA pode substituir um terapeuta?</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Segundo um estudo publicado na <a href="https://hbr.org/2025/04/how-people-are-really-using-gen-ai-in-2025">Harvard Business Review</a>, em 2025, terapia com chatbots foi o principal uso que as pessoas fizeram da inteligência artificial (IA). Isso significa que as pessoas estão usando chatGPT, Gemini, Copilot e outras ferramentas do tipo principalmente para &#8220;conversarem&#8221;. Será que a IA poderá um dia substituir os terapeutas?</p>



<p>Essa é uma pergunta que não apenas os profissionais de saúde mental estão se fazendo (psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, etc), mas também os jovens. O número de pessoas interessadas em estudar psicologia no Brasil cresceu de forma expressiva, mais do que duplicando entre 2010 e 2021, com um aumento de 112,4% nas matrículas, <a href="https://sites.usp.br/psicousp/procura-por-curso-de-psicologia-nas-faculdades-explode-no-brasil/">de acordo com dados do Instituto de Psicologia da USP</a> &#8211; Universidade de São Paulo.</p>



<p>Esse fenômeno é certamente mundial. É como dizem por aí: metade da população está louca, a outra metade está fazendo terapia. O aumento da demanda pelo curso de psicologia e da percepção da importância da saúde mental é revelada nos números, e o uso da IA como terapeuta é só mais um dado na planilha da análise sociológica contemporânea.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Concorrência desleal</h2>



<p>A demanda por terapia é grande, o estigma de que os profissionais &#8220;psi&#8221; tratam de loucos ainda existe, mas diminuiu bastante. E por mais que tenhamos um aumento nos números de profissionais, restam ainda muitos entraves para uma significativa popularização das psicoterapias.</p>



<p>O fator financeiro, sobretudo em países como o Brasil, provavelmente é o maior entrave. As terapias custam caro, às vezes muito caro, mas os profissionais precisam cobrar, afinal estudaram, investiram em suas formações e, embora as psicoterapias tratem da ‘alma’ da pessoa (lembrando que ‘psi’ significa alma), elas não são igreja nem caridade. O campo é diverso: algumas vertentes se reivindicam como ciência, outras flertam com a metafísica, mas todas têm um método e uma epistemologia que as sustentam.</p>



<p>Somando o fator financeiro à disponibilidade total das IAs em termos de tempo e de um suposto sigilo (sabe-se lá para onde vão as informações reveladas a ela), tem-se que, a princípio, as IAs têm tudo para substituir os terapeutas humanos. A concorrência é desleal: gratuita e operando 24 horas por dia.</p>



<p>Mas os problemas com as IAs já começam a aparecer. Recentemente tivemos a primeira denúncia jurídica contra uma empresa que opera IA, no caso, a OpenAi, que faz a chatGPT. O processo apenas começou, não sabemos o resultado, mas a empresa foi acusada de assistir ao suicídio de um adolescente de 16 anos.</p>



<p>Além disso, <a href="https://lalettre.com.br/psicose-do-chatgpt-inteligencia-artificial-enlouquece/">casos de psicose foram relatados</a> causados por uso extenso da ferramenta. É o &#8220;no limits&#8221; de tempo de uso e o exagero dos elogios, a falta de alteridade e a ausência de castração que, em sujeitos mais frágeis, e justamente os que mais precisam de terapia, que a IA é perigosa.</p>



<p>Outros casos menos graves, pequenos impasses da vida cotidiana também viraram notícia. Por exemplo, perder um voo por ter acreditado nas informações fornecidas pela IA. São casos bobos, mas que já começam a mostrar os efeitos da IA em nossa sociedade e, mais que isso, o início da descrença nesse superpoder, nessa inteligência, que por artificial que seja, nos reporta sempre a uma inteligência.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O começo da virada</h2>



<p>Talvez a IA venha a ser o grande tiro fálico que saiu pela culatra no sentido de ter suas fragilidades cada vez mais expostas.</p>



<p>Se assim acontecer, além de as IAs num futuro próximo não poderem substituir os terapeutas, ela poderá fazer justamente o contrário: fomentar as psicoterapias dado que estão causando mais danos que trazendo soluções.</p>



<p>Talvez a nossa opinião, como instituto que somos, seja um pouco suspeita: Freud explica! Mas percepções viram números quando exacerbam as opiniões pessoais e viram dados na planilha social que estamos construindo, quer a Inteligência Artificial queira, quer não queira.</p>



<p>E você? Como vê essa questão? A IA pode substituir um terapeuta?</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p></p>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/a-ia-pode-substituir-um-terapeuta/">A IA pode substituir um terapeuta?</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://lalettre.com.br/a-ia-pode-substituir-um-terapeuta/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Terapia com IA: conforto demais pode te prejudicar</title>
		<link>https://lalettre.com.br/terapia-com-ia-conforto-demais-pode-te-prejudicar/</link>
					<comments>https://lalettre.com.br/terapia-com-ia-conforto-demais-pode-te-prejudicar/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Aug 2025 14:23:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[clínica psicanalítica]]></category>
		<category><![CDATA[inteligência artificial]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://lalettre.com.br/?p=11466</guid>

					<description><![CDATA[<p>Em 2025, o maior uso da IA no mundo foi como terapeuta. Só no Brasil, estima-se que 12 milhões de pessoas estejam fazendo terapia com chatbots como o ChatGPT — um número que revela tanto a demanda por escuta quanto a carência de acolhimento humano real. O que explica esse fenômeno? A falta de recursos [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/terapia-com-ia-conforto-demais-pode-te-prejudicar/">Terapia com IA: conforto demais pode te prejudicar</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 2025, o maior uso da IA no mundo foi como terapeuta. Só no Brasil, estima-se que 12 milhões de pessoas estejam fazendo terapia com chatbots como o ChatGPT — um número que revela tanto a demanda por escuta quanto a carência de acolhimento humano real.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O que explica esse fenômeno?</h2>



<p>A falta de recursos financeiros, de tempo e até mesmo de conhecimento pode explicar, em parte, como ferramentas como a ChatGPT começaram a ser usadas como conselheiras, confidentes e “terapeutas” pessoais.</p>



<p>Mas por trás dos números sempre existe algo mais complexo a ser analisado.</p>



<p>Milhões de pessoas relatam buscar esses sistemas para organizar emoções, acalmar crises, lidar com questões existenciais e até refletir sobre a vida. E, num primeiro olhar, isso soa promissor: acesso imediato, gratuito, sem julgamento, sempre disponível.</p>



<p>Mas esse cenário carrega um risco grave e pouco comentado: a formação de bolhas emocionais narcisistas, mantidas por algoritmos que só sabem concordar.</p>



<p>A IA responde com fluidez, parece empática, acolhe tudo. Mas ela não sente, não pensa, não interpreta. Ela simula uma escuta. E mais do que isso: ela valida tudo.</p>



<p>O conforto oferecido pela IA — o acolhimento em forma de concordância e elogios desmedidos — pode ser muito prejudicial. Já o desconforto de um convite à crítica, a repensar sob uma nova perspectiva, pode ser profundamente fecundo. É o desconforto que move — porque é o que incomoda que produz verdade e transforma caminhos.</p>



<p>O tipo de &#8220;escuta&#8221; que a IA oferece cria uma zona de conforto artificial, onde o sujeito é mantido no centro, sem nunca ser contrariado. Tudo é compreensível. Tudo é aceitável. Tudo é devolvido com um “entendo como você se sente”.</p>



<h2 class="wp-block-heading">As bolhas emocionais e narcisistas</h2>



<p>A verdadeira empatia não é um “sim” constante. Ela inclui o limite, o confronto, o impasse, o silêncio — aquilo que atravessa e transforma. E é justamente isso que a IA não pode oferecer.</p>



<p>Estamos cada vez mais cercados por bolhas afetivas, programadas para não nos confrontar. Bolhas que reforçam o que sentimos, acreditamos, pensamos.</p>



<p>E é aqui que mora o risco maior: o crescimento de uma sociedade de nichos emocionais fechados em concordâncias, onde não há crítica, reflexão ou convite à reavaliação dos próprios afetos.</p>



<p>Qual é o resultado disso?</p>



<p>Uma sociedade de pessoas cada vez mais sozinhas, que não conseguem se relacionar, pois perderam a capacidade do confronto. Querem apenas olhar para si mesmas e ver o quão belas e certas estão. Muito narcisismo como coisa!</p>



<p>Não se constrói subjetividade apenas no espelho do “sim”.</p>



<p>A construção do sujeito se dá também nos opostos, nos ambivalentes, nos atritos, nos cortes, nas faltas, naquilo que não se acomoda — ao contrário: incomoda e faz analisar.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Vamos conversar</h2>



<p>É compreensível a atração pela facilidade em usar chatbots — seja por questão financeira, de tempo, ou até pela timidez de se abrir para um humano.</p>



<p>Mas é preciso deixar as coisas claras:</p>



<p>Se a ideia de “fazer terapia” se resumir a conselhos, acolhimento genérico e frases motivacionais, a IA pode até ser eficaz. Talvez até melhor que um profissional mal preparado.</p>



<p>Mas o que a IA nunca poderá ser é psicanalista. Porque:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>A IA opera por padrões. A psicanálise, pelo furo no discurso.</li>



<li>A IA responde rápido. O analista sustenta o silêncio.</li>



<li>A IA concorda. O analista ouve o que o sujeito não quer dizer.</li>
</ul>



<p>Ou seja, em alguns casos, a IA pode até ajudar, mas em muitos outros ela pode prejudicar. Simplesmente porque ela não atravessa o sujeito e, paradoxalmente, o mantém confortável em sua bolha de desconforto.</p>



<p>Quem estiver disposto a ser transformado, vai precisar de algo mais que um algoritmo gentil.</p>



<p>Se o problema for financeiro, timidez, falta de tempo ou qualquer outro motivo, <a href="https://lalettre.com.br/contato/">entre AQUI em contato conosco</a>.</p>



<p>Te acolheremos humanamente — e encontraremos uma solução.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p><strong>Leia também:</strong></p>



<p><a href="http://“Psicose do ChatGPT”: IA e o Colapso da Escuta">“Psicose do ChatGPT”: IA e o Colapso da Escuta</a></p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/terapia-com-ia-conforto-demais-pode-te-prejudicar/">Terapia com IA: conforto demais pode te prejudicar</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://lalettre.com.br/terapia-com-ia-conforto-demais-pode-te-prejudicar/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Mas afinal, o que é racismo estrutural?</title>
		<link>https://lalettre.com.br/mas-afinal-o-que-e-racismo-estrutural/</link>
					<comments>https://lalettre.com.br/mas-afinal-o-que-e-racismo-estrutural/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Aug 2025 12:24:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[clínica psicanalítica]]></category>
		<category><![CDATA[curso de psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://lalettre.com.br/?p=11454</guid>

					<description><![CDATA[<p>Vamos direto ao ponto: racismo estrutural é um sistema de desigualdades raciais tão profundas que, enraizado nas instituições, acaba se tornando parte do próprio funcionamento da sociedade. Ele molda jeitos de pensar, de viver e até de sentir, tudo isso de forma tão naturalizada que, muitas vezes, nem se percebe. Parece exagerado? Vejamos! O conceito [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/mas-afinal-o-que-e-racismo-estrutural/">Mas afinal, o que é racismo estrutural?</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Vamos direto ao ponto: racismo estrutural é um sistema de desigualdades raciais tão profundas que, enraizado nas instituições, acaba se tornando parte do próprio funcionamento da sociedade. Ele molda jeitos de pensar, de viver e até de sentir, tudo isso de forma tão naturalizada que, muitas vezes, nem se percebe. Parece exagerado? Vejamos!</p>



<p>O conceito “racismo estrutural” foi popularizado por Silvio Almeida, professor, filósofo e advogado brasileiro. Ele explicou esse conceito em seu <a href="https://www.amazon.com.br/Racismo-Estrutural-Silvio-Almeida/dp/8598349747">livro homônimo</a>, mostrando como o racismo está presente nas estruturas sociais e nas práticas do dia a dia, muitas vezes de forma invisível, normalizada, banal.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Desigualdade profunda</h2>



<p>E o que, afinal, é desigualdade?</p>



<p>Desigualdades podem marcar a pele feito ferro quente, e a alma feito karma, levando o sujeito a um ciclo de repetição que não se apaga, ao contrário, se propaga.</p>



<p>Desigualdades não se referem às diferenças naturais, substanciais da vida na Terra. Desigualdade nos remete à falta de igualdade, ou seja, à ausência de condições iguais de partida, de um possível jogo limpo, de poder ter regras iguais para todos. É sobre <a href="https://journals.openedition.org/ras/170">igualdade de oportunidades</a>, enquanto as diferenças são respeitadas.</p>



<p>Não é fácil falar de igualdades, desigualdades, racismos e racionalismos. As palavras se intercalam, as ideias se misturam, e o que sobra, além de ruído e confusão, é apenas angústia. Angústia por tentar explicar algo que machuca, que confunde, que atravessa a vida de quem sofre o racismo todos os dias.</p>



<p>Fala-se em privilégio branco, em desigualdades enraizadas, em discriminação sistêmica, em racismo estrutural&#8230; Esses termos podem ser estudados na filosofia, no direito, na sociologia. Mas, na psicanálise, o olhar é outro: os significantes são extremamente pessoais, do sujeito: aquele que se sujeita e é sujeitado pela ação dos outros.</p>



<p>Em linha com a clínica contemporânea, onde essas questões chegam envoltas por dúvidas e angústias de todas as cores e formas, o Instituto La Lettre apresenta o curso &#8220;Escutas em Ruído: Psicanálise Frente à Crise da Palavra e do Laço Social&#8221;. </p>



<p>No Módulo 3, vamos discutir “O Racismo Estrutural e a Subjetividade”.</p>



<p>Esse encontro é um convite à escuta dos efeitos psíquicos do racismo estrutural. Vamos refletir, com base em casos clínicos e textos teóricos, como a violência simbólica e institucional atravessa o sujeito. E como o analista precisa estar atento, ético e politicamente implicado para poder escutar isso.</p>



<p>Participe.</p>



<p>Clique <a href="https://lalettre.com.br/escutas-em-ruido/">AQUI</a> para saber mais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/mas-afinal-o-que-e-racismo-estrutural/">Mas afinal, o que é racismo estrutural?</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://lalettre.com.br/mas-afinal-o-que-e-racismo-estrutural/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>&#8220;Psicose do ChatGPT&#8221;: IA e o Colapso da Escuta</title>
		<link>https://lalettre.com.br/psicose-do-chatgpt-inteligencia-artificial-enlouquece/</link>
					<comments>https://lalettre.com.br/psicose-do-chatgpt-inteligencia-artificial-enlouquece/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Jul 2025 12:50:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[curso de psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[inteligência artificial]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://lalettre.com.br/?p=11433</guid>

					<description><![CDATA[<p>Parece que os filmes de ficção científica estão se tornando documentários. A era digitalizada e hiperconectada em que vivemos intensifica um fenômeno inquietante: a dissolução dos laços sociais e o enfraquecimento da palavra como mediadora da experiência humana. Em termos mais diretos: estamos vendo um aumento de subjetividades fragmentadas, ansiosas e, em alguns casos, delírios [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/psicose-do-chatgpt-inteligencia-artificial-enlouquece/">&#8220;Psicose do ChatGPT&#8221;: IA e o Colapso da Escuta</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Parece que os filmes de ficção científica estão se tornando documentários. A era digitalizada e hiperconectada em que vivemos intensifica um fenômeno inquietante: a dissolução dos laços sociais e o enfraquecimento da palavra como mediadora da experiência humana. Em termos mais diretos: estamos vendo um aumento de subjetividades fragmentadas, ansiosas e, em alguns casos, delírios nascidos da solidão algoritmicamente cultivada.</p>



<p>Casos para ilustrar não faltam. <a href="https://futurism.com/commitment-jail-chatgpt-psychosis">Segundo o site <em>Futurism</em></a>, um número crescente de pessoas tem desenvolvido delírios e colapsos nervosos após interações intensas com chatbots como o ChatGPT e o Copilot. Em um dos casos relatados, um homem que buscava ajuda para um projeto passou a acreditar que havia criado uma IA consciente e quebrado as leis da física.</p>



<p>Outros casos reportados incluem uma mulher que se declarou profetisa e um homem que iniciou um relacionamento afetivo com um chatbot. Um outro exemplo vem da <a href="https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2025/06/conversas-com-chatbot-de-ia-levam-usuarios-a-crises-existenciais-delirios-e-psicose.shtml">Folha de S.Paulo</a>, e conta o caso de um americano de 42 anos que sofreu um colapso mental após longas conversas com o ChatGPT, nas quais ele discutia teorias da simulação e realidades alternativas. A conversa perigosa, que o teria levado a &#8220;voar&#8221; de um prédio, começou depois de o homem ter passado por um longo período de vulnerabilidade emocional.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O Tiro que Saiu pela Culatra</h2>



<p>Inicialmente usado como uma ferramenta de produtividade, o chatbot passou a servir mais como psicoterapia. Em 2025, o uso da inteligência artificial como suporte emocional explodiu, tornando-se uma das aplicações mais populares da IA generativa, segundo um estudo da <em>Filtered</em> publicado na <em><a href="https://hbr.org/2025/04/how-people-are-really-using-gen-ai-in-2025">Harvard Business Review</a></em>. Ferramentas como o ChatGPT são cada vez mais utilizadas como substitutos de psicoterapeutas, especialmente por serem gratuitas, disponíveis 24 horas, sem julgamentos, com muita validação e elogios.</p>



<p>Eis aí o perigo. Ao tentar agradar os usuários, esses sistemas podem alimentar ideias perigosas, especialmente em pessoas sozinhas ou emocionalmente frágeis.</p>



<p>A internet, as redes sociais e todas as ferramentas digitais das quais dispomos hoje, e que um dia foram promessas de uma vida melhor, com menos trabalho e mais interação social, acabaram por se revelar o grande tiro que saiu pela culatra. O que mais se vê por aí são pessoas cada vez mais sozinhas e com mais dificuldade de interagir. As redes sociais e as chatbots acabaram por fomentar as famosas bolhas, com cada um no seu quadrado, segmentado, ou com seu espelho narcísico que responde sempre no nível do: você é a pica das galáxias!</p>



<p>Quem já usou chatbots sabe como é: não faltam bajulação e elogios em cada frase trocada. Imaginem o dano que isso já está fazendo numa população ansiosa, deprimida e amedrontada&#8230; e no que ainda fará&#8230;</p>



<h2 class="wp-block-heading">IA, Algoritmos e a Nova Constituição do Sujeito</h2>



<p>Como isso pode chegar na clínica psicanalítica? Como alguém teria coragem de dizer que teria fórmulas mágicas que mudariam as leis da física, sem correr o risco de ser interrogado sobre seu estado de saúde mental? Melhor falar com os robôs que, sendo mais inteligentes que nós, seriam os únicos a nos compreender.&nbsp; Infelizmente, muita gente pode pensar assim, sobretudo quando a própria sociedade fomenta o narcisismo, o egoísmo e o não compartilhar das ideias, para que ninguém as roube&#8230;</p>



<p>Isso, e tantas outras questões, explicam o sucesso das chatbots como psicoterapeutas. E histórias como estas estão apenas começando. Esses sistemas, ao concordarem com tudo o que o usuário diz, podem aprofundar estados mentais instáveis, incentivar delírios e alimentar uma confiança excessiva na IA — o que pode ser muito perigoso tanto para o sujeito, quanto para a sociedade.</p>



<p>Pensando nesse sintoma contemporâneo, o Instituto La Lettre propõe um novo curso: Escutas em Ruído: Psicanálise Frente à Crise da Palavra e do Laço Social. </p>



<p>No módulo 2 &#8220;IA, Algoritmos e a Nova Constituição do Sujeito: como a tecnologia e a lógica algorítmica reconfiguram os modos de existir?&#8221;, o curso abordará as transformações da subjetividade na era digital e suas implicações na clínica. Serão discutidos os efeitos da hiperconectividade, da lógica da repetição e do consumo sobre o desejo e o laço social.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p>Clique <a href="https://lalettre.com.br/escutas-em-ruido/">AQUI</a> para saber mais.</p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/psicose-do-chatgpt-inteligencia-artificial-enlouquece/">&#8220;Psicose do ChatGPT&#8221;: IA e o Colapso da Escuta</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://lalettre.com.br/psicose-do-chatgpt-inteligencia-artificial-enlouquece/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O que é Sublimação para a Psicanálise? Exemplos práticos e atuais</title>
		<link>https://lalettre.com.br/o-que-e-sublimacao-para-a-psicanalise-exemplos-praticos-e-atuais/</link>
					<comments>https://lalettre.com.br/o-que-e-sublimacao-para-a-psicanalise-exemplos-praticos-e-atuais/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Jul 2025 15:33:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[freud]]></category>
		<category><![CDATA[Jacques Lacan]]></category>
		<category><![CDATA[teoria psicanalítica]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://lalettre.com.br/?p=11384</guid>

					<description><![CDATA[<p>A sublimação é um conceito fundamental na teoria psicanalítica, particularmente no pensamento de Sigmund Freud, que a definiu como um mecanismo pelo qual um impulso — geralmente de natureza sexual ou agressiva — é desviado de seus objetivos originais e redirecionado para finalidades socialmente aceitáveis e até mesmo valorizadas. Para facilitar a compreensão, podemos pensar [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/o-que-e-sublimacao-para-a-psicanalise-exemplos-praticos-e-atuais/">O que é Sublimação para a Psicanálise? Exemplos práticos e atuais</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A sublimação é um conceito fundamental na teoria psicanalítica, particularmente no pensamento de Sigmund Freud, que a definiu como um mecanismo pelo qual um impulso — geralmente de natureza sexual ou agressiva — é desviado de seus objetivos originais e redirecionado para finalidades socialmente aceitáveis e até mesmo valorizadas.</p>



<p>Para facilitar a compreensão, podemos pensar em impulso como um instinto primitivo. Contudo, a psicanálise prefere o termo pulsão, que representa uma força mais complexa e especificamente humana. A pulsão ultrapassa a animalidade, pois envolve desejos que nem sempre obedecem à razão, e se articula com escolhas, símbolos e linguagem — ou seja, com o inconsciente, que é o campo fundamental da psicanálise.</p>



<p>Para Freud, a sublimação é um processo psíquico em que uma energia pulsional de base &#8220;ruim&#8221; — um sintoma, como a ansiedade, a violência, o desejo de vingança ou mesmo a tendência à autodestruição — pode ser canalizada para fins que ultrapassam o plano &#8220;instintivo&#8221;. Essa transformação abre caminho para manifestações culturais, artísticas, científicas ou espirituais. O impulso original não é apagado ou reprimido: ele é redirecionado e transformado, ganhando um novo valor simbólico e socialmente aceito.</p>



<p>Freud via na sublimação uma das formas mais saudáveis de lidar com os conflitos internos. Indivíduos que conseguem sublimar seus impulsos contribuem para a cultura, a vida coletiva e a própria saúde psíquica, já que produzem algo a partir de uma força que, de outro modo, poderia ser destrutiva.</p>



<p>Jacques Lacan, ao reler Freud, aprofundou esse raciocínio ao dizer que “a sublimação eleva um objeto à dignidade da Coisa”. Em termos mais simples: ao sublimar, o sujeito transforma o que o angustia ou o fascina em algo com valor simbólico — um objeto artístico, uma ideia, uma obra — que ultrapassa a busca de satisfação imediata. A Coisa, no sentido lacaniano, é aquilo que falta, que causa o desejo, mas que também pode se tornar uma fonte de criação.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Sublimação na prática</h2>



<p>Um exemplo contemporâneo e concreto da sublimação pode ser observado na trajetória de Ozzy Osbourne e da banda Black Sabbath. Reconhecido como um dos criadores do heavy metal, Ozzy relatou em diversas entrevistas que a música foi essencial para canalizar seus impulsos — alguns autodestrutivos, outros violentos — e evitar um possível destino criminal.</p>



<p>Em uma entrevista recente à BBC, Ozzy relembrou um episódio marcante:</p>



<p>“Eu tinha duas escolhas: ser um criminoso ruim ou um criminoso estúpido, ou ser um artista. Quando não paguei várias multas, meu pai me deixou passar alguns dias em Winston Green, um centro correcional, e isso funcionou, porque eu não queria voltar para lá. E agora, aqui estamos: no último show do Black Sabbath. Muito emocionante.”</p>



<p>O show de despedida da banda, realizado em julho de 2025 em Birmingham, cidade natal do grupo, foi mais do que um espetáculo musical: tornou-se um símbolo da transformação de energia pulsional em potência criativa. Durante a apresentação, diversos músicos prestaram homenagem ao legado do Sabbath. Phil Anselmo, do Pantera, declarou:</p>



<p>“Sem o Black Sabbath, todos seríamos pessoas diferentes, essa é a verdade. Eu sei que não estaria aqui com um microfone na mão sem o Black Sabbath… quem é maior?”</p>



<p>James Hetfield, do Metallica, acrescentou:</p>



<p>“Sem o Sabbath, não haveria Metallica. Obrigado, rapazes, por nos darem um propósito na vida.”</p>



<p>Essas declarações revelam que o processo de sublimação pode ir além do individual: torna-se cultural. O heavy metal, embora marcado por sonoridade agressiva, funciona como espaço de criação, de organização simbólica de angústias e conflitos, de construção de identidade e laço social. Ele dá forma a algo que, se permanecesse solto por aí, poderia se manifestar de forma destrutiva.</p>



<p>Essa dinâmica pode ser observada também em outros estilos. No samba, por exemplo, Bezerra da Silva canta:</p>



<p>&#8220;E se não fosse o samba quem sabe hoje em dia eu seria do bicho?&#8221;</p>



<p>E Jovelina Pérola Negra que, pensando numa solução para a depressão foi ao violão: </p>



<p>&#8220;Tristeza foi assim se aproveitando<br>Pra tentar se aproximar<br>Ai de mim<br>Se não fosse o pandeiro, o ganzá e o tamborim&#8230;&#8221;</p>



<p>Outro exemplo revelador pode ser visto no documentário &#8220;A Arquitetura da Destruição&#8221;, que mostra como a estética nazista foi estruturada a partir de um ideal artístico frustrado — o de Adolf Hitler, que tentou ser pintor e foi rejeitado. O filme sugere que, talvez, a história da Alemanha (e do mundo) teria sido diferente se aquela energia pulsional tivesse encontrado um caminho criativo — uma via de sublimação.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A Arte de Sublimar</h2>



<p>Como vimos, a sublimação é um conceito central não só para entender a dinâmica psíquica individual, mas também para refletir sobre fenômenos sociais e culturais. Ela nos mostra que é possível transformar um impulso destrutivo em um ato criativo, fortalecendo a pulsão de vida em detrimento da pulsão de morte.</p>



<p>Ao reconhecer que sintomas e conflitos podem ser convertidos em potência criadora — e que há valor e dignidade nesse movimento — a psicanálise oferece uma forma ética de lidar com o sofrimento humano. Não se trata de apagar o que há de sombrio ou excessivo no sujeito, mas de dar forma a isso. De criar algo melhor com isso.</p>



<p><strong>Fontes:</strong></p>



<p><a href="https://www.scielo.br/j/agora/a/TBHzkKkz3B9hHxpDdWDwFfd/">SCIELO</a>&nbsp;– Do vazio ao objeto: das ding e a sublimação em Jacques Lacan.</p>



<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0IM5b6rvfpU">BBC News</a>&nbsp;– Entrevista com Ozzy Osbourne</p>



<p><a href="https://tangerina.uol.com.br/musica/como-foi-o-show-de-despedida-de-ozzy-osbourne-com-black-sabbath/">Tangerina (UOL)</a>&nbsp;– Como foi o show de despedida de Ozzy Osbourne com o Black Sabbath&nbsp;</p>



<p><a href="https://en.wikipedia.org/wiki/The_Architecture_of_Doom">Wikipedia</a>&nbsp;– The Architecture of Doom (documentário)</p>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/o-que-e-sublimacao-para-a-psicanalise-exemplos-praticos-e-atuais/">O que é Sublimação para a Psicanálise? Exemplos práticos e atuais</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://lalettre.com.br/o-que-e-sublimacao-para-a-psicanalise-exemplos-praticos-e-atuais/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
