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	<title>Arquivo de Psicanálise | Instituto La Lettre | Psicanálise</title>
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	<description>Espaço multidisciplinar dedicado à transmissão de conhecimento, atendimento, pesquisa e interlocução nos campos da psicanálise, cultura e linguagem</description>
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	<title>Arquivo de Psicanálise | Instituto La Lettre | Psicanálise</title>
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		<title>O Gozo Masoquista em Justine de Sade e Severin de Masoch</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 21:15:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise e Arte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Quem se deixa açoitar merece os açoites.”Leopold von Sacher-Masoch em A Vênus das Peles Daia Florios Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre em 2025, estudante de Ciências e Técnicas Psicológicas na Sapienza Università di Roma. Resumo: O conceito de gozo, na psicanálise, tem a ver com masoquismo porque, em poucas palavras, refere-se a uma espécie [&#8230;]</p>
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<p class="has-text-align-right">“Quem se deixa açoitar merece os açoites.”<br>Leopold von Sacher-Masoch em <em>A Vênus das Peles</em></p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="750" height="750" src="https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a.jpg" alt="Daia Florios" class="wp-image-11895" style="width:79px;height:auto" srcset="https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a.jpg 750w, https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a-300x300.jpg 300w, https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></figure>



<p>Daia Florios</p>



<p>Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre em 2025, estudante de Ciências e Técnicas Psicológicas na Sapienza Università di Roma.</p>



<p><strong>Resumo: </strong>O conceito de gozo, na psicanálise, tem a ver com masoquismo porque, em poucas palavras, refere-se a uma espécie de prazer no desprazer. Sendo assim, “gozo masoquista” poderia se configurar um pleonasmo, pois ambas as palavras sugerem prazeres que vão além do princípio do prazer, e têm relação com a pulsão de morte. Neste trabalho seremos específicos, analisaremos qual prazer desprazeroso se esconde atrás da autodepreciação que um masoquista procura ter, tomando como caso dois personagens de duas obras literárias: Justine do Marquês de Sade e Severin do Sacher-Masoch.</p>



<p><strong>Palavras-chave:</strong> Sacher-Masoch; Marquês de Sade; Freud; Lacan; Deleuze; Masoquismo; Sadismo</p>



<p><strong>1. A perversão como estilo de vida</strong></p>



<ol class="wp-block-list">
<li></li>
</ol>



<p>Masoquismo e sadismo são termos criados pelo psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, Viena &#8211; 1886, em seu <em>Psychopathia Sexualis</em>: um tratado de psiquiatria onde o célebre médico listou uma série de práticas sexuais que não se encaixavam em uma suposta “normalidade” comportamental humana.</p>



<p>Para cunhar tais termos, Krafft-Ebing se inspirou em dois grandes autores: o francês Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade (1740-1814), e o austríaco Leopold Von Sacher-Masoch (1836-1895), os quais iremos tratar nesse estudo.</p>



<p>A literatura sadiana é toda pautada no libertarianismo, na ideologia do libertino, ou seja, no vale tudo próprio da perversão, uma espécie de naturalismo, um pensamento muito bem exposto e sustentando na obra “A Filosofia na Alcova”, fundamental para entender o pensamento sádico; enquanto Masoch sustenta um ideal que ele mesmo chamou de ultra-sensualismo.</p>



<p>Popularmente, considera-se que o masoquista é aquele que gosta de sofrer e de ser dominado; enquanto o sádico gosta de dominar e causar sofrimento. Mas essas definições, como veremos, não têm a ver com perversão no sentido original do termo, pois ultrapassam as práticas sexuais de onde esses nomes vieram, uma vez que tanto o sadismo quanto o masoquismo podem ser lidos como condições que desbordam para a vida.</p>



<p><em>Pervĕrsus</em> é o particípio passado de <em>pervertĕre</em>, verbo formado pelo prefixo per- (que indica desvio) e pelo radical <em>vertĕre</em> (‘voltar’, ‘girar’). Desse modo, perverso é aquele que pode seguir qualquer via ou direção.</p>



<p><strong>2. A importância clínica do “sadomasoquismo”</strong></p>



<p>Se visto como estilo de vida, e não como perversão, o “sadomasoquismo” pode ser verificado em todas as relações sociais onde existam forças de oposição entre dominadores e dominados. Ou seja, praticamente em toda relação social. A questão fundamental que se coloca é a do prazer em ocupar essas posições desagradáveis.</p>



<p>Pode parecer óbvio que todos gostem de ocupar a posição de dominação. Mas o óbvio não existe, sobretudo para a psicanálise, que trabalha a subjetividade, o inconsciente, o desconhecido, e onde obviedades não existem.</p>



<p>Assim, tem-se o gozo da vítima em sofrer nas relações ditas “tóxicas”, nas posições de submissão, nas de injustiça provocadas pelo racismo, pela pobreza e pelas faltas de todo tipo. São temas muito difíceis de serem tratados porque a posição masoquista não é simples nem fácil de ser assumida. A vítima, ao racionalizar e recalcar seu gozo, acaba indo para um lugar onde sente que nada tem a ver com o seu sofrimento, ou seja, entra numa espécie de “neurose de destino” e dá a culpa ao outro, grande (<em>A</em>) ou pequeno (<em>a</em>) outro que seja, livrando-se de qualquer culpa e ao mesmo tempo, reforçando sua moral ilibada e boa conduta.</p>



<p>Como veremos, Justine é um personagem masoquista de Sade. A novela (<em>Justine e as Desgraças da Virtude</em>) conta a história de uma mulher vítima das piores atrocidades sádicas, mas que o tempo todo da narrativa parece buscar deliberadamente por situações de sofrimento.</p>



<p>É muito importante ler Justine para entender relações tóxicas, inclusive relações tóxicas consigo mesmo. O prazer no desprazer (o gozo) é algo típico masoquista que merece ser analisado, inclusive para ser “curado”. E a palavra “cura” não vem à toa, vem de Severin, o personagem de Sacher-Masoch em “A Vênus das Peles”. Depois de tanto apanhar, Severin se diz “curado”. Em suas palavras: “ou tu és o martelo ou a bigorna”, como se as opções fossem apenas estas: dar ou receber porrada e, depois de tanto receber, inverter e passar a dar, ou seja, curar-se.</p>



<p>Da mesma maneira, Juliette, a irmã perversa de Justine, ao final da novela entra para um convento de freiras na tentativa senão de curar-se da perversão, de limpar-se dos pecados cometidos.</p>



<p>Neste trabalho iremos falar sobre Justine de Sade e Severin de Masoch, junto com Freud, Lacan e Deleuze na tentativa de entender de onde vem o gozo masoquista, pelo menos nesses personagens, e como podemos trazê-los para a clínica, lembrando que a arte sempre imita a vida. No caso do “A Vênus das Peles”, o romance é praticamente autobiográfico, assim como as obras de Sade trazem histórias de sua vida real, do libertino que ele foi, ou melhor, do masoquista que ele também foi, tendo passado a maior parte da sua vida no sofrimento de um cárcere.</p>



<p><strong>3. Sadomasoquista: junto ou separado?</strong></p>



<p>Em “O Frio e o Cruel”, o filósofo francês Gilles Deleuze argumenta que não existe uma dinâmica sadomasoquista, ou seja, um comportamento que deslize de uma posição para a outra. Sado e maso são, segundo Deleuze, perversões completamente distintas e separadas.</p>



<p>Analisando as obras de Sade e Masoch, inclusive as que trazemos aqui, Deleuze opta por uma distinção radical de um e de outro comportamento. Sua argumentação é baseada na estética literária dos autores, bem como na própria composição dos personagens.</p>



<p>Uma piada usada no livro conta sobre o encontro entre um sádico e um masoquista: o masoquista diz: “Me machuque” e o sádico responde: “Não.” (Deleuze, 1991, pp 40). O que a anedota quer dizer é que, para um sádico, não há a menor graça bater em quem quer apanhar, por isso, sadismo e masoquismo não existem como comportamentos complementares nem ambivalentes.</p>



<p>Além disso, analisa Deleuze, Sade é explícito nas cenas de sexo e horror, enquanto Masoch trabalha mais com a fantasia. O sadismo é institucional, enquanto o masoquismo é contratual. O sadismo opera por meio de repetição quantitativa; o masoquismo por meio de suspensão qualitativa. Entre essas e outras análises da narrativa, Deleuze resume argumentando que há um masoquismo específico no sádico, assim como um sadismo típico do masoquista e enfim, somando todas essas diferenças, ele acentua as discrepâncias entre a apatia sadista e a frieza masoquista (Deleuze, 1991, pp 134).</p>



<p>Agora vejamos como Sigmund Freud vê o conceito sadomasoquista, e se este deve ser escrito junto ou separado.</p>



<p><strong>4. As vicissitudes e o problema econômico</strong></p>



<p>O tema do masoquismo esteve presente praticamente em toda a obra freudiana, desde 1905 nos <em>Três ensaios sobre a teoria da sexualidade</em>, onde o masoquismo é considerado secundário em relação ao sadismo. Depois, em <em>Aqueles que fracassam no sucesso</em> (1916) o tema é retomado e seguido de <em>Uma criança é espancada</em> (1919) até chegar em duas obras mais específicas, como veremos.</p>



<p>Freud, que tem toda a sua teoria baseada na ambivalência &#8211; que é a coexistência de forças contrárias regidas por certos princípios do psiquismo (o do prazer: buscar prazer e evitar o desprazer); o da realidade (em que o ego adia a gratificação imediata dos desejos para atender às exigências do mundo externo); o da constância, de Fechner (o aparelho psíquico tende a reduzir as tensões em uma “tendência à estabilidade”) &#8211; irá dizer que sadismo e masoquismo não são opostos porque esses “princípios” não são excludentes, ao contrário, podem coexistir entre eles.</p>



<p>No texto curto e denso <em>O instinto e suas vicissitudes</em>, famoso pela questão da tradução de “triebe und triebschicksale”, instinto e seus destinos ou pulsão e seus destinos, Freud diferencia a pulsão do instinto, sugerindo que há algo entre o somático (corpo) e o mental (psiquismo) que é constante e interno, que independe de estímulos externos, ou seja, que não é instintual e que sofre uma pressão (<em>drang</em>) por satisfação, com uma finalidade (<em>ziel</em>), através de um <em>objekt</em> (objeto).</p>



<p>Nesse sentido, a pulsão é um conceito fronteiriço entre o corpo e a mente. Muito resumidamente, é uma força constante que nasce no corpo e pressiona a mente a buscar por uma satisfação, independentemente de estímulos externos.  </p>



<p>O desprazer aumenta esse estímulo interno, e o prazer o diminui. A finalidade então é eliminar o estado de estimulação na fonte, podendo haver caminhos intermediários constituindo satisfações parciais ou inibições. As mudanças pelas quais as pulsões passam ao longo da vida seriam as vicissitudes, e explicariam um masoquismo principal do qual derivaria o sadismo, onde a finalidade, a intenção da pulsão, era a de dominar (sadismo), mas que não podendo ser direcionada ao externo se internaliza e se transforma em dominação e dor autoinfligida.</p>



<p>Pode parecer complicado, mas estamos falando de um texto de 1915 que, de qualquer forma, busca ser científico do primeiro ao último parágrafo para entender, substancialmente, os porquês do gozo masoquista, ou melhor, por que há prazer no desprazer? E conclui de maneira labiríntica que as pulsões podem se modificar e interagir entre elas de maneira complexa. Nesse sentido, sadismo e masoquismo seriam um do outro, o reverso da mesma moeda.</p>



<p>Mais adiante, em <em>O Problema Econômico do Masoquismo</em> (1924), Freud empresta de Barbara Low a ideia do “Princípio de Nirvana”, segundo o qual todo desprazer deveria coincidir com um aumento, e todo prazer com uma diminuição da&nbsp;tensão mental devida a um estímulo. No texto referido, para entender o masoquismo, Freud está considerando o princípio do prazer como um vigia da nossa vida, pois o aparelho psíquico tende a reduzir a zero, ou ao mínimo possível, sua tensão interna. Sob essa ótica, a mente operaria em busca de uma economia psíquica voltada à estabilização absoluta de estímulos. O masoquismo surge, então, como um enigma, pois não haveria lógica na busca pela dor para a manutenção da vida. Percebe-se aqui o seu problema econômico: a existência de tensões que, em vez de evitadas, são buscadas por se tornarem fontes de prazer. Por qual razão o sujeito extrairia satisfação do infortúnio? Por que existem tensões prazerosas (como a excitação sexual) e, inversamente, sensações de alívio que só se alcançam através de estados profundamente desprazerosos (como a autoflagelação)?</p>



<p>Para resolver esse problema econômico, Freud então divide e analisa o masoquismo em três tipos: erógeno, feminino e moral.</p>



<p>O primeiro, o masoquismo erógeno (prazer na dor) está na base das outras duas formas, sendo de origem biológica e constitucional.</p>



<p>O segundo, o masoquismo feminino (que alguns traduziram como femíneo porque não tem relação com o gênero), tem a ver com a castração e a posição de passividade em relação ao outro.</p>



<p>O terceiro, o masoquismo moral, é inconsciente (ou seja, desconhecido) e tem a ver com o sentimento de culpa, com o supereu.</p>



<p>O que Freud conclui nesse texto é que existe um masoquismo primário (erógeno) onde a libido captura uma tendência autodestrutiva e erotiza a dor, o que permitiria que uma tendência autodestrutiva não fosse mortífera e se tornasse parte do funcionamento erótico.</p>



<p>Embora Freud não tenha sido explícito, ou melhor, tenha sido muito sucinto nesse outro texto curto e denso, ele traz a noção do princípio do Nirvana (ou da pulsão de morte) para a origem do problema da dor como guardiã da vida. Podemos ler hoje, que experiências de violência precoce ou desamparo podem se inscrever nesse terreno estrutural do masoquismo primário.   Mas não precisamos ir longe, sobretudo se não tivermos experiência clínica onde recorrentemente aparece, infelizmente, o abuso na mais tenra idade. Basta pensar que uma displicência ordinária, uma resposta não dada subitamente ao choro de um bebê, poderia ser percebida como violência ou desamparo. E então, transformar a dor em prazer tornar-se-ia um mecanismo de defesa e, mais que isso, de sobrevivência.</p>



<p>Em outras palavras, tem-se que o masoquismo sugere uma agressividade inicial que, não podendo ser expressa para fora, retornaria contra o próprio sujeito, dando a este a ideia de estar sob o controle da situação. É como dizer: “enquanto eu dependo do outro e o outro não vem ao meu socorro quando eu preciso, é melhor eu transformar essa dor, esse desamparo, em prazer.”</p>



<p>O ego, inconscientemente, precisa desse subterfúgio para sobreviver se as condições dadas colocarem em risco a própria vida. É a pulsão de morte como guardiã da vida.</p>



<p>Ao final deste texto freudiano, o masoquismo fica evidenciado como uma ambivalência de instintos que se origina na pulsão de morte e que, possuindo um significado erótico, até mesmo de destruição por si mesmo, aparece com vestes de satisfação libidinal.</p>



<p>Em ambos os textos analisados, temos que, no sentido freudiano, a expressão sadomasoquismo revela uma relação dialética em que uma perversão pode se transmutar na outra (vicissitude).</p>



<p>Freud observa que tendências sádicas e masoquistas podem coexistir no mesmo sujeito, com o sádico sendo também capaz de experimentar prazer na dor que inflige a si mesmo, e o masoquista podendo sentir prazer ao causar dor ao outro.</p>



<p>Em suma, Freud, em um texto e no outro nos dá a entender que causar e sofrer dor (assim como olhar e ser olhado no <em>voyeurismo</em>) são posições intercambiáveis, ao contrário de Deleuze que as vê completamente separadas por questões de lógica e de estética.</p>



<p><strong>5. Kant con Sade, Masoch e Lacan  </strong></p>



<p>Se fosse uma ópera: “Cante com Sade, Masoch e Lacan”, bem que poderíamos cantar os personagens, onde Kant diria:<br></p>



<p>&#8211; Faça com que seu desejo coincida com a moral da lei e dos bons costumes.<br>Sade, o libertino:<br>&#8211; Pelo contrário, ilustre Kant, faça de modos que o seu desejo possa romper com todas as leis.<br>Lacan, o analista, diria:<br>&#8211; Os senhores estão falando do mesmo, mas em sentido contrário: nem o eu, libertino, egoísta e sem lei; nem a lei, fria e impessoal. Tomem consciência de que o desejo vos atravessa e vos coloca frente ao risco e à finitude. É nele, nesse atravessamento, que reside a vossa liberdade.</p>



<p>É a ética psicanalítica, a ética do desejo, nem kantiana nem sadiana, mas a das pulsões, sejam estas de vida ou de morte que, juntando tudo, agora no resumo da ópera, significa a ética de fazer o que de melhor possível perante o real: a mortalidade da vida.</p>



<p>Talvez tenhamos complicado, mas o possível é o singular: cada caso é um caso. Então, vamos aos casos: Justine e Severin.</p>



<p><strong>6. Justine, a virtude em pessoa</strong></p>



<p><em>Justine, ou As Desgraças da Virtude</em>, de Marquês de Sade, é um romance de 1791 que conta a história de duas irmãs, Justine e Juliette, que, uma vez órfãs, seguem caminhos diferentes na vida. Justine, a virtuosa, mantém Deus no coração, enquanto Juliette entrega-se às mundanidades da vida.</p>



<p>O romance narra as provações de Justine, jovem inocente e piedosa que, mesmo na pior das situações que a vida lhe coloca, decide permanecer fiel aos princípios da virtude e da religião. Ao longo da história, porém, cada ato de bondade ou pureza a leva a novas tragédias: é explorada, enganada, abusada e injustiçada repetidamente. E o pior: seus algozes se dão muito bem, ficam cada vez mais ricos e sempre são premiados pela vida, em dinheiro e honrarias.</p>



<p>Em contraste, sua irmã Juliette, que escolhe uma vida de vícios, prazeres e corrupção, enriquece, conquista poder e alcança uma existência confortável.</p>



<p>Sade utiliza a oposição entre as duas irmãs para expor uma visão crítica, irônica e provocadora sobre a moralidade, a religião e a sociedade de sua época: no mundo real, o vício é recompensado e a virtude é castigada. Como quem diz: se o mundo é corrupto, o melhor a fazer é corromper-se.</p>



<p>Enquanto Juliette goza da <em>bella vita</em>, Justine goza das desgraças da virtude. No decorrer da trama, cada desgraça vivida sugere uma outra ainda pior, num jogo infantil que só a vítima não quer enxergar. Por que? Porque há um gozo masoquista aí.</p>



<p>O leitor antevê todos os males que Justine sofrerá, mas a jovem virtuosa segue seu gozo martírico, uma espécie de fé na humanidade. E quanto mais ela sofre, mais sua fé se fortalece. “Ou se é o martelo, ou se é a bigorna”, diz Severin de Masoch, e Justine decidiu ser a bigorna até as últimas consequências e diante de todas as evidências de suas escolhas erradas.</p>



<p>Justine encarnou a ética kantiana de cumprir um dever universal além dos interesses pessoais, e levou esse imperativo às últimas consequências, morrendo de maneira inesperada. Sade é extremamente irônico ao final da novela colocando a irmã, Juliette, em uma posição semelhante à de Severin de Masoch, que transitando de um lugar a outro, decide bater em vez de apanhar, enquanto Juliette, ao contrário mas igualmente, decide apanhar em vez de bater. Além dessa ambivalente vicissitude de sado a maso e de maso a sado, Justine e Severin têm algo muito em comum: a ideia do martírio, do gozo masoquista, do prazer no desprazer, do parecer passivo, mas ser ativo.</p>



<p><strong>7. Severin, macho nada <em>alpha</em></strong></p>



<p>Severin é um ultra-sensual (palavras dele em suas “confissões” &#8211; Sacher-Masoch, 1870, pp. 12), alguém que sonha as matriarcas de uma época, as deusas e líderes como Madame de Pompadour, Catarina II, Lucrécia Bórgia, Rainha Margot, Dalila e tantas outras citadas como musas inspiradoras, mulheres que “botavam o falo na mesa”. Severin, aparentemente, é o macho submisso, que se coloca voluntariamente aos desmandos da deusa matriarca.</p>



<p><em>A Vênus das Peles </em>foi escrito em 1870, época já patriarcal onde muitos homens, e desde aquela época até hoje, tiveram que tomar as rédeas da situação quando “bom mesmo” era obedecer. Parece estranho dizer isso, principalmente porque muito se critica o patriarcado hoje, mas existem homens (como Severin) que prefeririam o lugar da submissão. É compreensível se fizermos uma rápida análise de <em>Totem e Tabu</em>, (Freud, 1913). Segundo Freud, nossa sociedade é fundada na angustiante ambivalência entre matar o pai (ganhar liberdade e tomar o poder) mas perder a sua proteção. É como dizer: se quiser causar mal ao homem dê-lhe a liberdade. Nada mais angustiante que a liberdade. O homem não sabe o que fazer dela.</p>



<p>Muito resumidamente, o enredo de <em>A Vênus das Peles</em> (1870) gira em torno de Severin von Kusiemski, um homem que sente prazer em ser subjugado. Ele conhece Wanda von Dunajew, por quem se apaixona e com quem firma um contrato de servidão: aceita ser tratado como escravo, desde que ela use peles ao exercer o poder. As peles remetem às deusas e guerreiras que ele idolatra, e à surra que um dia levou de uma sua tia. Com o tempo, Wanda assume de fato esse papel dominador e capricha nos castigos ao ponto de exceder, permitindo que um de seus amantes açoite Severin. No final, Wanda se retira com esse amante e Severin chega ao seu limite. Anos depois, recebe uma carta de Wanda onde ela diz ter aceitado participar do “jogo” na intenção de curá-lo cruel e radicalmente do seu gozo masoquista (Sacher-Masoch, 1870 pp 79-80).</p>



<p>Ser curado do seu gozo masoquista são palavras nossas, não de Wanda, mas o essencial é isso, pois Severin se diz curado e resume sua história assim:</p>



<p>“A moral é que eu fui um burro (…) Se ao menos eu a tivesse açoitado! (…) Daí a moral da história: Quem se deixa açoitar merece os açoites.”</p>



<p>Justine e Severin têm algum muito em comum. Ambos são…</p>



<p><strong>8. Mártires (e levam tudo às últimas consequências)</strong></p>



<p>Justine, provavelmente, morre acreditando que vai para o céu (e de fato vai: deus a leva consigo num raio de luz), afinal, o mundo cruel não é para ela, tão casta, tão virtuosa. E Severin foi, em suas palavras, um mártir do amor. (Sacher-Masoch, 1870, pp 26).</p>



<p>O martírio está em polvorosa em ambas as obras porque a arte imita a vida. Vejamos bem: Hércules cumpre 12 trabalhos (castigos) para atingir um estado de redenção pelos males que cometeu (matou a família), para restaurar sua honra e sua moral. Muitos terapeutas usam no trabalho com tóxico-dependentes a jornada do herói, composta de 12 passos. O sacrifício está na ideia de redenção humana. Jesus se sacrificou por nós. A cultura masoquista está entranhada em nossas veias desde os primórdios, desde os gregos e romanos antigos, a história é sempre civilizatória no sentido kantiano: abdicar do desejo para um bem maior. Sade inverte, <em>a priori</em>, essa ordem, mas Lacan enxerga um fantasma em sua ópera Kant com Sade, ou ironizando: “Cante com Sade o Fantasma da Ópera”.</p>



<p>Quem é o fantasma da ópera? É a fantasia da imortalidade. Quando lemos a ética da psicanálise, lemos a ética do desejo, a ética de Eros, ou seja, a ética da pulsão de vida.</p>



<p>O masoquismo está muito ligado à pulsão de morte. Se em Freud, como mecanismo de defesa, como guardião da vida, uma espécie de narcisismo inclusive; em Lacan o masoquismo ocupa a posição de verdadeiro dominador, lobo em pele de cordeiro, que se faz se objeto de rejeito para ser comprado.</p>



<p>O masoquista é uma pessoa que sabe usar o poder do outro em seu próprio favor, para gozar da imagem martírica de si mesmo. Se o culpado é sempre o outro, o mundo cruel, o masoquista, mais do que limpo, sai mártir na história, sendo ainda capaz de encontrar um sádico que assume deliberadamente o papel de mau, de perverso, de fora da lei.</p>



<p>Para Lacan, a verdade sádica se revela somente no masoquista porque é na dor, e não no prazer, que as práticas sadomasoquistas permitem o êxtase para além do princípio do prazer.</p>



<p><strong>Conclusão</strong></p>



<p>O martírio é o gozo masoquista. É o fantasma da redenção, do sacrifício, da imortalidade da alma que esconde a mortalidade do corpo que, provavelmente, faz com que exista prazer no desprazer.</p>



<p>A mulher que apanha até morrer (enquanto não morre, resiste);<br>O dependente químico (só mais uma dose antes da derradeira);<br>O desgraçado, injustiçado, escravizado, a vítima mais vítima de todas que, como Justine, é incapaz de ver que está deliberadamente procurando por seus algozes, tampando o sol com a peneira, armando-se de todos os mecanismos de defesa do ego para manter sua imagem imaculada de mártir;<br>Os mártires da religião, aqueles que se sacrificam em nome de deus, buda, alá, que pulam fogueiras, que dormem em camas de espinhos…</p>



<p>É provável que todos esses masoquistas acreditem na redenção de suas almas. Gozam do olhar angustiado do outro, da pena do outro que lhes revela uma maldade genuína e comum em todos nós.</p>



<p>Esses jogos de poderes, que sobretudo nas relações de amor podem ser muito excitantes, são perigosos e, de fato, matam.</p>



<p>Há salvação. Há cura, pelo menos nas histórias que aqui analisamos. Justine morre porque levou seu gozo às últimas consequências, mas Severin se “cura”.</p>



<p>Ao final de ambas as histórias o que permanece é a ironia e a honestidade sádica: o mundo é sim injusto e perverso, mas ser masoquista não faz de ninguém um santo.</p>



<p>Freud explica que enquanto o masoquista se esforça para esconder os aspectos inquietantes e cruéis de sua personalidade, o sádico torturador esconde de si uma terrível falta, uma desmesurada fraqueza.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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</blockquote>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>DELEUZE, Gilles. O frio e o cruel. Disponível em: [http://pdf-objects.com/files/gilles-deleuze-masochism-coldness-and-cruelty-venus-in-furs.pdf](http://pdf objects.com/files/gilles-deleuze-masochism-coldness-and-cruelty-venus-in-<br>furs.pdf). Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>ESSE Psicologia. Perversione: i crociati dell’Altro \[vídeo]. Disponível em: [https://www.youtube.com/watch?v=-5HZfTnYHuY](https://www.youtube.com/watch?v=-5HZfTnYHuY). Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Al di là del principio di piacere. Torino: Bollati Boringhieri,<br>2023.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Totem e tabù. Torino: Bollati Boringhieri, 2023.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Os instintos e suas vicissitudes. Disponível em: https://<br>dravni.co.il/wp-content/uploads/2014/05/Freud-S.-1915.-Instincts-and-their-<br>Vicissitudes.pdf. Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>FREUD, Sigmund. O problema econômico do masoquismo. Disponível em:<br>https://iepp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Freud-S-Problema-Economico-<br>do-Masoquismo-7.pdf. Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>LACAN, Jacques. Kant com Sade. Disponível em: https://londonsociety-<br>nls.org.uk/wp-content/uploads/kant-with-sade2.pdf. Acesso em: 26 set. 2025</p>



<p>MASOCH, Leopold von. A Vênus das Peles. Disponível em: [https:// www.supremaciafeminina.com.br/VENUSDASPELES.pdf](https://www.supremaciafeminina.com.br/VENUSDASPELES.pdf). Acesso em: 26 set.<br>2025.</p>



<p>SADE, Donatien Alphonse François de. Justine, ou os infortúnios da virtude. Disponível em:https:www.academia.edu/5565148/12Marques\_de\_Sade\_Justine](https://www.academia.edu/5565148/Marques_de_Sade_Justine). Acesso em: 26 set. 2025.</p>
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		<title>A Compulsão dos Dias. Um Caso Quase Clínico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jan 2025 13:11:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise com Crianças]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise e Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu era estudante de psicanálise e trabalhava em uma xexelenta loja de artigos infantis, imaginando que dias melhores viriam. A loja não era de todo ruim, mas a dona do negócio era uma acumuladora compulsiva. Até os sacos plásticos que embalavam as roupas e as caixas de sapatos que ninguém queria, ela pedia para eu [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Eu era estudante de psicanálise e trabalhava em uma xexelenta loja de artigos infantis, imaginando que dias melhores viriam. A loja não era de todo ruim, mas a dona do negócio era uma acumuladora compulsiva. Até os sacos plásticos que embalavam as roupas e as caixas de sapatos que ninguém queria, ela pedia para eu guardar e acumular em um pequeno espaço onde as traças faziam festa.</p>



<p>Clientes entravam clientes saíam, alguns trocavam ideias sobre banalidades, mas a maioria se abria para um papo mais profundo: &#8220;eu me separei quando meus filhos tinham 7 e 10 anos&#8221;; &#8220;meu marido morreu depois de muito sofrer com afasia&#8221; e por aí ia. Claro que, sendo uma loja de artigos infantis, a maioria das clientes era mulher.</p>



<p>Como psicanalista em formação (eterna, diga-se), eu me sentia a última bolacha do pacote com tantos corações aflitos em busca de um ouvido. Mas minha amiga varejista de décadas logo puxou meu tapete quando lhe contei sobre o dia a dia na loja: &#8220;amiga, as pessoas são carentes e o blá blá blá é típico do comércio.&#8221; Ok! Um banho de água fria nos meus devaneios, mas os dias iam me mostrando que a vida é uma clínica aberta.</p>



<p>Crianças rabujentas, imperadoras de mães e pais submissos era o que mais tinha, além de notícias do tipo: &#8220;vim comprar um presente para uma criança especial&#8230; que tem autismo&#8230;&#8221;</p>



<p>Mas um dia, um&nbsp;<em>causo</em>&nbsp;(causo mesmo, pois parece de mentira) surgiu à minha frente. Um menino de uns 8, 9 ou 10 anos de idade apareceu com sua mãe e seu pai. Procuravam sapatos para o moleque. De cara, o menino disse que queria uma galocha. A mãe: mas galocha você já tem. Eu quero uma galocha, eu quero uma galocha, bradava o pequeno príncipe. Ok! Te compro uma galocha, mas temos que ver um tênis para você ir à escola. Tenho sede, quero beber água, quero beber água, tenho sede, quero beber água. O menino deve ter vindo do Saara. O pai corre comprar água. Tem um supermercado aqui ao lado, recomendei.</p>



<p>Papo vai papo vem, ainda bem que nenhum outro chato apareceu no meio-tempo, e comecei a mostrar as opções de calçados à pequena majestade, o menino grande.</p>



<p>Quero beber quero beber. Enquanto eu não beber, eu não vou experimentar nenhum sapato. A essa altura, compreendi que o buraco era mais embaixo. E dá-lhe paciência. Bebi um gole d&#8217;água: você me causou sede, disse eu ao menino em uma intimidade não permitida se eu trabalhasse em uma loja uau!, mas como eu trabalhava em uma xexelenta, eu podia.</p>



<p>O pai chega com uma garrafinha d&#8217;água e qual a minha surpresa ao ver que a sede do menino não era de boca, era de mãos. Ele queria lavar as mãos. Ofereci o banheiro e nada. Ofereci esses lencinhos umedecidos e nada. Eu estava ali para vender o sapato e liguei o F. Oda-se. Mas o <em>causo</em> começou a ficar sério. O menino não apenas queria lavar as mãos, ele queria ver a água escorrer entra elas.</p>



<p>Que <em>causo</em> estranho, pensei. Deve ser o destino me perguntando se eu dou conta&#8230;</p>



<p>Sapato vai sapato vem e o menino, de uma lavada de mão passou a duas, três, quatro, uma a cada minuto. Mais, mais! Deixa escorrer! O menino queria ver a água pingada por sua mãe escorrer por suas mãos, e ela que enxugasse o chão com um lencinho de papel.</p>



<p>Eu não sabia como agir e muito menos o que dizer. Eu só queria vender logo e que esse povo saísse do meu horizonte antes que chegassem outros clientes que enrolassem menos e comprassem mais.</p>



<p>324 mais 451 quanto é? Oi? Nem me lembro da primeira cifra disse eu à mãe do menino: Nem eu, ela respondeu. O pai já tinha pulado fora sem que eu tivesse sacado sua ausência mais que esperada. A culpa dos problemas, em geral, é sempre da mãe. E ela que se vire nos 30, 40, 50&#8230;</p>



<p>775! Uau, você é mesmo muito bom em matemática (na verdade a conta era bem fácil, mas vamos fingir, pois tenho que vender). E aí foi, número vai número vem e o menino entre o fazer uma conta e outra, pergunta: mãe quanto dinheiro você já ganhou na vida? Tanto. Tannnnnto! E eu ali, tendo que aturar esse papo para ganhar um reles troco.</p>



<p>A obsessão do menino em lavar as mãos só aumentava, e no meio, ele colocava números, somas, cifras&#8230;. As coisas aqui são empoeiradas, disse eu sem mentir, pois falei desde o início que a loja era xexelenta e as traças faziam festa, mas eu tinha entendido o grau da situação e só quis aliviar para a rica-pobre mãe.</p>



<p>Você conhece o Cascão? Não? É um personagem das histórias em quadrinhos que, ao contrário de você, odeia água e a evita a todo custo. Bem que vocês dois fariam uma bela duplinha, e quem sabe equilibrariam as coisas&#8230; o aquecimento global, as enchentes contra as secas&#8230;.</p>



<p>Ninguém me ouviu (ainda bem, pois a ironia não é, de fato, um artifício que todos entendem).</p>



<p>Água vai água vem, o menino abraça a mãe e os dois olham para mim, tipo, faz uma foto! E eu fiz! A mãe com um olhar confidencial me disse: você vê por que eu não resisto?</p>



<p>Puta que te pariu e você que pariu essa majestade. Eu entendi muito, mas também entendi nada. Teria tanto a dizer e queria o mesmo tanto ajudar, mas não posso. Só posso levantar teorias:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>essa mãe roubou, foi processada enquanto estava grávida? Molhar as mãos é pagar propina no Brasil, e até onde eu sei, em outros países também é costume usar o mesmo ditado&#8230;</li>



<li>&#8220;Mãe, quanto dinheiro você ganhou? &#8220;Tanto!,&#8221; esse diálogo confirmava a minha teoria-mãe&#8230;</li>
</ul>



<p>Mas o fato é que eu tinha apenas suposições. Eu era pura psicanálise selvagem. Selvagem no sentido forte do termo, selvagem no desejo de investigar, de analisar a compulsão neurótica obsessiva no dia a dia naquele dia. Eu também obsessiva. Mas até lá eu era vendedora que no final, segurando a boca cheia de perguntas, consegui vender.</p>



<p>Mas as perguntas ficaram compulsando em mim: o que você tanto quer lavar? O que você tanto quer fazer escorrer nesse gotejar de água pura, que nem sede mata, mas te coloca na posição de dominar números na compulsão dos dias que escorrem feito matemática, como quem busca soluções para um problema difícil, digno de uma medalha Fields: contar as gotículas das gotículas da gota, até que as águas se rompam feito um parto de emergência&#8230;</p>



<p>A verdade é que os dias seguem na compulsão natural de seguirem. E outras compulsões virão. Como o dois vem depois do um. Como pessoas de corações aflitos&#8230; buscam orelhas de ouvidos abertos. A vida é clínica.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>
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		<title>Depressão é Neurose Narcísica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jan 2025 13:02:23 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Mental]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Depressão, uma das palavras mais usadas quando o assunto é saúde mental, tem muito a ver com narcisismo. Quer dizer que uma pessoa deprimida é ao mesmo tempo narcisista? Calma que o buraco da depressão é mais embaixo, ou mais em cima, dependendo do teu ponto de vista. Sigmund Freud não usou a palavra depressão [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Depressão, uma das palavras mais usadas quando o assunto é saúde mental, tem muito a ver com narcisismo. Quer dizer que uma pessoa deprimida é ao mesmo tempo narcisista? Calma que o buraco da depressão é mais embaixo, ou mais em cima, dependendo do teu ponto de vista. Sigmund Freud não usou a palavra depressão em seus textos, e sim, melancolia. No livro &#8220;Luto e Melancolia&#8221;, Freud distingue um termo do outro a partir do objeto perdido na situação em questão. Muito resumidamente, no luto perde-se alguém ou alguma coisa, um sonho ou um ideal e tem-se a consciência da perda. Na melancolia perde-se o Eu, o narciso-narcisístico Eu, onde o sujeito se esfumaça junto ao seu objeto perdido.</p>



<p>Para as pessoas pouco habituadas com os termos psicanalíticos, parece que estamos falando grego, mas as ideias freudianas são muito mais simples do que parecem, ou fazem muito mais sentido do que se possa supor.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O que é Objeto para a Psicanálise?</h2>



<p>Para a psicanálise, um objeto é um qualquer coisa em que o sujeito investe sua energia libidinal, digamos, sua energia de vida. Uma caneca pode ganhar o <em>status</em> de Objeto a partir do momento que alguém lhe denomina: &#8220;minha caneca&#8221;, &#8220;a caneca especial&#8221;, &#8220;a caneca que herdei da minha avó&#8221;. Como exemplificou nosso professor Lívio Marques Serra em sua aula &#8220;Das neuroses de transferência às neuroses narcísicas&#8221;, um objeto é qualquer coisa que tenha recebido esse tratamento especial que podemos chamar de afeto porque, de fato, afeta uma pessoa em suas memórias, em suas ideias mas, sobretudo em sua energia. Um objeto psicanalítico é, portanto,&nbsp; algo que recebeu um investimento pessoal.</p>



<p>Alguém que perde um objeto de grandeza afetiva corre o risco de perder-se a si mesmo, de desaparecer junto ao objeto perdido. Tal perda não é consciente como a que ocorre no luto, onde sabe-se qual é o motivo da tristeza. Ao perder um objeto psicanalítico, o Eu se perde na fumaça que se dissipa da perda e já não se sabe o que, ou quais partes de si, foram perdidas.</p>



<p>Todo investimento de objeto é um investimento narcísico porque investe-se o próprio Eu. Por isso, não é de se estranhar que quando um objeto assim investido de Eu se evapora, o sujeito cai em um estado que Freud chamou de melancolia (não de depressão), mas&nbsp; a ideia é a mesma, e então fala-se de neurose narcísica.</p>



<p>Nota-se com isso o grande desafio que é tratar depressão (ou melancolia). Tem-se algo que se perde, mas que não se sabe bem o quê. Enquanto o luto faz parte da vida, faz-se um ritual, simboliza-se a morte, o fim ou a perda e a vida segue, na melancolia simbolizar uma perda esfumaçada na névoa do inconsciente fica mais difícil. E assim é que o sujeito melancólico perde totalmente o desejo de viver porque não vê sentido nas coisas. A vida não segue e se segue é um martírio. O sujeito melancólico:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>insulta a si mesmo;</li>



<li>espera sua rejeição;</li>



<li>e aguarda um castigo.</li>
</ul>



<p>O sujeito melancólico &#8211; depressivo se acha indigno, incapaz, desprezível. É o cocô do cavalo do bandido&#8230;</p>



<h2 class="wp-block-heading">Depressão é Neurose Narcísica</h2>



<p>A depressão é uma neurose narcísica porque fala de um Eu fragmentado em pedaços tão pequenos, difíceis de juntar e se reconstituir. Não se trata de alguém que narcísicamente (no sentido popular do termo) se finge de triste para ganhar holofote. Ao contrário, a neurose narcísica pressupõe uma ferida aberta em alguém sempre pronto a sangrar, que não para de escorrer e de empobrecer o seu estado de espírito. É alguém que perdeu o amor próprio, se é que algum dia o teve.</p>



<p>Mas então, como resolver um luto que implica que na perda de si mesmo?</p>



<h2 class="wp-block-heading">Apostar e ganhar</h2>



<p>O caminho inverso da melancolia pode ser longo, mas é cheio de possibilidades. É como olhar para um céu nublado e cinza e começar, do nada, a enxergar figuras nas nuvens. Figuras monstruosas que de repente passam a representar figuras menos horríveis, até que se possa ver algo de interessante, de estimulante e se passe a acreditar em outras realidades possíveis.</p>



<p>Quando a vida é uma perda certa, viver pode ser simplesmente uma aposta com pelo menos uma possibilidade de ganho (ou &#8211; por que não? &#8211; muitas possibilidades de ganho).</p>



<p>Se você se identificou nesse texto ou conhece alguém que parece viver um luto sem fim, procure ajuda! <a href="https://lalettre.com.br/contato/">Entre em contato conosco</a>. Precisamos falar sobre isso!</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p></p>
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		<title>Desejo bom e desejo ruim. Ética e Moral num caso clínico hipotético</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jan 2025 12:57:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[freud]]></category>
		<category><![CDATA[Jacques Lacan]]></category>
		<category><![CDATA[teoria psicanalítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um dos assuntos mais importantes no estudo da Psicanálise é o tema do desejo. O desejo poderia ser definido como pulsão de vida segundo a teoria freudiana, na qual o homem busca prazer na satisfação de desejos, ao mesmo tempo que evita o desprazer. Já para Lacan, o desejo é a falta que nos leva [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Um dos assuntos mais importantes no estudo da Psicanálise é o tema do desejo. O desejo poderia ser definido como pulsão de vida segundo a teoria freudiana, na qual o homem busca prazer na satisfação de desejos, ao mesmo tempo que evita o desprazer. Já para Lacan, o desejo é a falta que nos leva a preencher vazios, materiais ou imaginários que sejam, em uma luta incessante porque, sendo falta, nunca se realiza. O desejo é a condição humana que de certa forma dá função à vida, tal qual um objeto, como um vaso, pode ser preenchido sem nunca deixar de ser vaso, de natureza vazia e com função de ser preenchido.</p>



<p>Em palavras simples, para Lacan, somos movidos por um desejo que não para de cessar e que, se cessar, complica. A pior situação em que um ser humano pode se encontrar é na falta da falta que é a depressão, a melancolia, a falta de desejo de desejar. Por isso, a psicanálise lacaniana trabalha tanto com o desejo. Por mais que ele seja um objeto perdido, impossível de ser capturado, é a sua busca que dá pulsão&#8230; de vida? Mas também de morte!</p>



<p>Sigmund Freud em &#8220;Muito Além do Princípio do Prazer&#8221; revê sua teoria e admite que o que move a vida não é somente a busca pelo prazer, mas também pelo desprazer, por mais estranho que isso nos pareça.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Desejo bom e desejo ruim</h2>



<p>Vamos tentar misturar Freud e Lacan rapidamente para fazer uma distinção entre desejo bom e desejo ruim, para depois apresentar um caso hipotético.</p>



<p>Desejo ruim é um desejo que pode ser &#8220;realizado&#8221; rapidamente. Por exemplo, um vício. A busca pelo desejo que poderia ser uma pulsão de vida, vira pulsão de morte nesse caso. O desejo se realiza e tão logo se restabelece, em um ciclo vicioso, digamos de escravidão<em>,&nbsp;</em>pois&nbsp;<em>adictos</em>&nbsp;eram escravos na Roma Antiga. Um vício é um desejo ruim não porque seu objeto é danoso (drogas, jogos, etc), mas porque o sujeito se vê escravo de um desejo do qual não consegue se libertar.</p>



<p>Um desejo bom, continuando com a analogia da escravidão, é o desejo que nos liberta. Liberta do que? Do Outro! Do algoz, do senhor dos escravos que é nós mesmos, nossa sociedade, nossa civilização, as regrinhas que estabelecemos para por ordem no galinheiro.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Ética e Moral num caso clínico hipotético</h2>



<p>Até aqui fizemos um resumo muito resumido de um assunto tão extenso, que seria até incorreto fazê-lo, mas fizemos apenas para introduzir um caso hipotético porque na clínica lacaniana o desejo é literalmente o x da questão, a incógnita que não se resolve e, por não se resolver, não cessa de nos pulsionar para o bem e ou para o mal.</p>



<p>Nosso psicanalisando hipotético é Alberto, filho único de uma mãe que o criou sozinha, pois o pai os abandonou. Alberto tem problemas alimentares, é demasiadamente magro e se sente mal com tudo o que come, embora consiga trabalhar e se sustentar financeiramente. Seu desejo era ter um amor e uma família feliz como a que ele nunca teve.</p>



<p>Um dia Alberto engravida Beatriz, com a qual teve um relacionamento de anos, mas ao mesmo tempo se apaixona por Claudia, que tem dois filhos, um de cada relação diferente e cujos pais também abandonaram seus filhos.</p>



<p>Beatriz está deprimida, pois não esperava que Alberto a abandonasse grávida. Claudia, ciumenta e ferida pelo abandono dos pais de seus filhos, pede a Alberto que não tenha contato com o bebê recém-nascido, com medo de que ele volte a se relacionar com Beatriz.</p>



<p>Alberto está angustiado, pois se sente um pouco culpado pela depressão de Beatriz, mas segue seu desejo<strong>,</strong> resolve as questões da paternidade com um advogado e finalmente se sente realizado com Claudia: viaja, compra presentes, paga a pensão alimentícia ao filho e mantém distância de Beatriz e do bebê para não perder Claudia.</p>



<p>Qual era o desejo de Alberto? O de ter uma família que agora tem: com Claudia e os dois filhos que não são seus, mas é como se fossem. Alberto diz se sentir finalmente feliz e realizado, mas seu sintoma continua, tudo o que ele come lhe faz mal.</p>



<p>Qual é a questão moral da história? Independente do que pensa Beatriz ou a sociedade, Alberto, apaixonado, seguiu seu desejo de ficar com Claudia, embora pagando o preço de se manter longe do próprio filho. Qual é a questão ética? No bebê ninguém pensou.</p>



<p>Até que ponto um desejo pessoal deve se sobrepor ao desejo social? Para a psicanálise, sempre! Bancar o próprio desejo independente do outro, das regras sociais, etc, para ser o que você quer e pode ser. Mas não é simples, porque vivemos em uma sociedade e respondemos pelos nossos atos, seja na relação com os outros, seja na relação com nós mesmos. Por isso, a culpa é tão mais eficaz que as leis. Muitos de nossos desejos não os seguimos não porque são ilegais, mas porque são imorais.</p>



<p>No caso em questão, seria melhor que Alberto abdicasse um pouco de seu desejo de estar com Claudia? Rompesse com a regra imposta por esta e assumisse a real paternidade do filho, para não pagar eventuais consequências de tê-lo abandonado? Afinal, seu sintoma continua e poderia vir exatamente do fato de ele também ter sido abandonado por seu pai.</p>



<p>Seguir o próprio desejo parece fácil, difícil é desvendar o x da questão, ou seja, qual é o desejo real. O de Alberto pode ser compreender o pai, pode ser se vingar do pai, assim como o de Claudia se vingar do abandono dos pais de seus filhos.</p>



<p>Como desenrolar os nós dos desejos que amarramos em nossas vidas e que raramente têm a ver somente conosco? Que não são apenas de ordem moral, mas também de natureza ética, pois envolvem outras pessoas e outros desejos implicados entre si?</p>



<p>Por isso, o desejo é um dos temas mais interessantes da Psicanálise e que dificilmente pode ser discutido de maneira apenas subjetiva, pois a palavra indivíduo não existe. Para a Psicanálise, o ser humano é dividido por natureza. É eu, super eu e isso. É objeto, desejo e falta. É teoria, prática e criação.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p><strong>Fontes: </strong></p>



<p>FREUD, S. (1920) “Além do princípio do prazer”. In:&nbsp;<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud</em>. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.</p>



<p>LACAN, J. (1959-60).&nbsp;<em>O seminário, livro 7</em>: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.&nbsp;</p>



<p>OLIVEIRA, Beto.&nbsp;Vídeo-aula &#8211; Módulo 3 (Criação e Sublimação: a pulsão sob o crivo da ética). Canal&nbsp;<a href="http://www.youtube.com/@betoli7296">www.youtube.com/@betoli7296</a>, 5 maio 2020. Disponível em: <a href="https://youtu.be/oycamNgmEFY?si=nIgq1pdznqftvt6C">https://youtu.be/oycamNgmEFY?si=nIgq1pdznqftvt6C</a>. Acesso em: 20 ago. 2024.</p>
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		<title>Covardia moral: inibição, sintoma ou angústia?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Aug 2024 12:53:16 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em uma de nossas aulas no Instituto&#160;La Lettre, o professor Fábio Teixeira, filósofo, psicanalista, doutor em Psicologia Social e Ética, trouxe para o debate o tema&#160;Inibição, Sintoma e Angústia, livro de 1926 de Sigmund Freud. Escondidos por trás das máscaras dos perfis falsos nas redes sociais, no mundo contemporâneo, a impressão que temos,&#160;a priori, é [&#8230;]</p>
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<p>Em uma de nossas aulas no Instituto&nbsp;<em>La Lettre</em>, o professor Fábio Teixeira, filósofo, psicanalista, doutor em Psicologia Social e Ética, trouxe para o debate o tema&nbsp;<em>Inibição, Sintoma e Angústia</em>, livro de 1926 de Sigmund Freud.</p>



<p>Escondidos por trás das máscaras dos perfis falsos nas redes sociais, no mundo contemporâneo, a impressão que temos,&nbsp;<em>a priori</em>, é que estamos todos desinibidos. Discursos de ódio, ghosting e cancelamento estão na ordem do dia com grandes repercussões na clínica psicanalítica. Todo mundo se sente potente no direito de dar &#8220;sua velha opinião formada sobre tudo&#8221; e de subir no palco virtual para fazer o tal do&nbsp;<em>acting out</em>,&nbsp;ao mesmo tempo que, no fundo, sabemos se tratar de um recurso pobre de significados e de consequências práticas, afinal, rede social é a nova &#8220;terra de Marlboro&#8221;.</p>



<p>Exceto se o vexame da cena for denunciado por um outro perfil (provavelmente também falso), a falta de inibição que as redes sociais proporcionam poderia reverberar em processos jurídicos. Ou seja, onde tudo é falso, é fácil ser verdadeiro. São esses alguns dos paradoxos dos dias de hoje que acabam se transformando em sintomas e ou angústias.</p>



<p>Na aula proposta, onde o tema seria um sem-fim de insights, discussões e debates, um conceito específico ressoou muito eternamente contemporâneo: um tema proposto por Jacques Lacan denominado Covardia Moral. Do que se trata?</p>



<h2 class="wp-block-heading">O que significa Covardia Moral para Lacan?</h2>



<p>Direto ao ponto, significa covardia de bancar o próprio desejo. Qual desejo? O desejo de cada um. Único e exclusivo de cada um. Mas existe desejo de cada um neste mundo de receitas de bolo politicamente corretas com fórmulas light, zero calorias, sem gordura, sem açúcar e sem pecado?</p>



<p>Interessante! Antes precisaríamos distinguir o que é moral do que é ético. Moral, segundo o professor Clóvis de Barros Filho (tem muitos vídeos no YouTube onde o professor da USP discorre sobre esse tema que é sua especialidade), moral é o que você não faz nem escondido no banheiro escuro, afinal, &#8220;Deus está te vendo&#8221;. Moral tem a ver com a sua crença de valores. Ético, ao contrário, é que você faz de correto e educado para inglês ver. Nossa sociedade é baseada em normas de ética, regras sociais gerais, enquanto a moral é subjetiva: cada um tem a sua.</p>



<p>Voltando a Lacan, Covardia Moral é a covardia de bancar o próprio desejo. E claro, se o desejo não for ético, é difícil mesmo bancá-lo. Certas coisas são proibidas desde que a civilização é civilização para colocar ordem na casa. Por exemplo: incesto, traição, assassinato, etc.</p>



<p>Mas nem tudo que é imoral, é ilegal ou engorda. A constituição da nossa moral, segundo a psicanálise, vem de casa e da cultura, do espírito do tempo em que nascemos e vivemos. Ou seja, a moral pode ser comparada ao superego, às regrinhas que criamos a nós mesmos baseados em nossa própria história de vida. E muito dessa história é a pedra no nosso caminho que impede o nosso desejo, não porque é fora de ética, mas porque é fora da nossa moral. Pode ser legal e permitida, mas, se nossos pais e nossa cultura proíbe, é mesmo muito difícil remar contra certas marés para bancar o nosso desejo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Depressão e Covardia Moral</h2>



<p>Aí vem o maior mal-estar da nossa civilização atual: a depressão. Depressão significa botar pra baixo, deprimir, esconder, cavar um buraco (depressão topográfica). E inibição tem a ver com depressão no sentido de inibir os desejos, escondê-los. Por isso, para Lacan, depressão é covardia moral!</p>



<p>Enquanto é certo que a lei se baseia na ética e no direito consuetudinário (dos bons costumes), também é certo que a moral é o julgamento que fazemos de nós mesmos, utilizando mecanismos de culpa que criamos para nos julgar e nos culpar sem dó nem piedade, e de maneira muitas vezes mais eficaz que as leis e os processos jurídicos. Freud explica isso muito bem em &#8220;<a href="https://lalettre.com.br/culpa-castigo-e-des-controle-o-fim-do-mal-estar-na-civilizacao/" data-type="post" data-id="6253">O Mal-estar na Civilização</a>.&#8221;</p>



<p>Olhar para a depressão é olhar para a inibição do desejo que, embora muitas vezes calado, grita em forma de sintoma, angústia, <em>acting out</em> e, nas piores das hipóteses, em passagem ao ato, onde faltariam recursos ao ponto de encontrar solução no suicídio e na vontade de sair de cena (morrer), uma vez que faltaram palavras para expressar a desesperança de viver o próprio desejo.</p>



<p>Esse é o tipo de debate que trazemos em nosso curso para uma clínica contemporânea que vê o sujeito em toda sua complexidade social, ao mesmo tempo que não tira os olhos da subjetividade constitucional que define cada um de nós.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p><strong>Fonte: Freud</strong>, S. (2014). <strong>Inibição, sintoma e angústia</strong>. In P. C. Souza (Coord.), Obras completas (Vol. 17, pp. 13-123). São Paulo: Companhia das Letras. (Original publicado em 1926).</p>
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		<title>Dissecando a Personalidade Psíquica para Entender Quem é Você na Fila do Pão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Jul 2024 15:39:50 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>No texto &#8220;A Dissecção da Personalidade Psíquica&#8221;, Freud descreve a complexa estrutura da mente humana, dividindo o pobre EU de modos que precisaríamos de três pronomes para nos referirmos a nós mesmos: o Eu, o Isso e o Aquilo. O isso é o Id, o inconsciente, alguma coisa tão estranha que seria impessoal se não fosse EU também. Aliás, o Id é talvez o mais EU de todos. E tem ainda o Super-eu no papel de &#8220;Aquilo&#8221; que eu queria ser: o eu idealizador. Poxa vida, que complicação que é ser EU para Freud. Mas vamos por partes, literalmente por partes.</p>



<p>&#8220;Dissecção&#8221; é uma palavra bem conhecida para o pessoal das ciências biológicas. O termo se refere ao ato de dissecar, ou seja, de cortar e separar as partes de um corpo ou de uma estrutura para examinar seus detalhes internos e compreender sua organização e funcionamento. No contexto freudiano, &#8220;a dissecção da personalidade psíquica&#8221;, sugere uma análise detalhada e profunda das componentes e estruturas que formam a nossa personalidade.&nbsp;</p>



<p>Em poucas palavras, o EU é um sujeito dividido, mas tão dividido que se ele estivesse na fila do pão, não saberia dizer quem ele era: se o pão, o padeiro ou a padaria.&nbsp;</p>



<p>Mas voltando ao texto em questão, Freud então divide a psique humana nestas três instâncias, onde o Id representa os impulsos instintivos e as necessidades primárias, operando de forma inconsciente; o Super-eu, formado das internalizações dos valores sociais, exerce uma função crítica e punitiva, influenciando o EU não apenas com julgamentos, mas também com ideais, pois o Super-eu é estrutural, não é um sinônimo de consciência moral, e também opera em nosso inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading">E o EU é quem?</h2>



<p>O EU é uma entidade mediadora que tenta cumprir suas tarefas sob a constante pressão dos desejos instintivos do Id, e as expectativas do Super-eu, em meio às realidades do mundo externo. Então o EU vive contra MIM em uma negociação perene entre&nbsp;<em>quero, não posso, devo, não quero</em>,&nbsp;o que pode levar o sujeito a conflitos, angústias e, em alguns casos, patologias.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O EU é um Outro</h2>



<p>Nessa confusão de pronomes que o EU se apresenta para Freud como sendo ISSO&nbsp;<strong>e</strong>&nbsp;AQUILO, um processo interessante chamado identificação explica que &#8220;o eu é um outro&#8221;, como dizia Lacan que disse Rimbaud.</p>



<p>Isso porque, uma das instâncias do Eu, o Super-eu, inicialmente é representado pelos pais, ou cuidadores, porque estes desempenham o papel da autoridade, ou do modelo, para o sujeito que está se formando. A autoridade se manifesta tanto pelo amor quanto pelo castigo, estabelecendo as bases da moralidade na criança.</p>



<p>Com o tempo, essa influência parental é internalizada, formando o Super-eu que assume a função de observar e regular o EU com a mesma severidade que os pais usavam, independentemente de a educação parental ter sido rígida ou permissiva.</p>



<p>A formação do Super-eu é complexa e baseada no processo de identificação, onde o Eu adota características de outra pessoa, inicialmente os pais ou cuidadores, transformando-se à semelhança deste modelo. Esse processo é primordial na nossa ligação com os outros,&nbsp;não sem razão, a identificação já foi comparada à incorporação oral, canibalesca, do outro.&nbsp;</p>



<p>Mas o Super-eu, além de ser partes do outro incorporadas em nós, é também o portador do <a href="https://lalettre.com.br/eu-ideal-ideal-de-eu-e-burnout/">ideal do Eu</a>. É por ele que nos medimos e nos julgamos, nos aprovamos e nos reprovamos com a régua da velha ideia que tínhamos dos primeiros cuidadores, pois fora com eles&nbsp;que nos identificamos pela primeira vez, e com os quais, provavelmente tivemos sentimentos de admiração ou respeito por necessidade. Se o outro não olhasse para nós, morreríamos. A identificação foi, ao seu tempo primário, questão de vida ou morte. </p>



<h2 class="wp-block-heading">O EU é o Inacessível&nbsp;</h2>



<p>Agora que a fila do pão vai encurtando, tendo &#8220;resolvido&#8221; o problema do Super-eu, nos resta definir o Id para tentar descobrir quem é, afinal, o EU nessa história. O Id (ou o Isso) é a parte obscura e inacessível de nossa personalidade que pode ser descrita somente em contraposição ao Eu. É o cavalo selvagem desgovernado por seu instinto, é &#8220;o caos, um caldeirão cheio de excitações fervilhantes.&#8221;</p>



<p>Não precisamos prosseguir com essa definição porque o texto do Freud é bem curtinho e didático. Mas para trazer uma metáfora mais atual, digamos que o EU na fila do pão é o neurótico que está pensando: <em>compro ou não compro, se compro, como, se como engordo, se não como fico com fome, se fico com com fome me sinto fraco, mas se como só um pouquinho quero o filão inteiro</em>, enfim&#8230; O EU tá na briga entre o desejo e o dever, identificado com valores, pessoas e normas que ele não escolheu de livre e espontânea vontade e nem sabe porque está nesse lugar de tamanha dúvida sobre ele próprio, porque ele, de próprio, não tem nada.</p>



<p>E aí entra a psicanálise, cuja &#8220;intenção é, realmente, fortalecer o EU, torná-lo mais independente do Super-eu, ampliar seu âmbito de percepção e melhorar sua organização, de maneira que possa apropriar-se de novas parcelas do Id. Onde era Id, há de ser Eu&#8221;, diz Freud.</p>



<p>Em outras palavras, eu diria que o EU busca um pronome para chamar de seu. Só seu. Mas não vai conseguir pois sua estrutura é essa: dividida. Então, separar-se do outro representado pelo Super-eu e ter consciência de que existe um cavalo selvagem no comando, pode ajudar o sujeito a se libertar talvez um pouquinho da sua ânsia de saber, de se conhecer para aplacar suas dores e angústias. Mas se tem uma coisa que a psicanálise não faz, é dar receita de bolo. E é justamente essa a sua beleza. Pois então, na fila do pão, seja quem você puder.</p>



<p><strong>Fonte:</strong>&nbsp;<strong>Freud</strong>, S. (2010).&nbsp;<strong>&#8220;A Dissecção da Personalidade Psíquica&#8221;</strong>&nbsp;In S.&nbsp;<strong>Freud, Obras completas</strong>&nbsp;(P. C. de Souza, Trad.,&nbsp;<strong>Vol. 18</strong>, pp. 139-160). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1930)</p>
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