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	<title>Arquivo de Saúde Mental | Instituto La Lettre | Psicanálise</title>
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	<description>Espaço multidisciplinar dedicado à transmissão de conhecimento, atendimento, pesquisa e interlocução nos campos da psicanálise, cultura e linguagem</description>
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	<title>Arquivo de Saúde Mental | Instituto La Lettre | Psicanálise</title>
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		<title>A Compulsão dos Dias. Um Caso Quase Clínico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jan 2025 13:11:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Eu era estudante de psicanálise e trabalhava em uma xexelenta loja de artigos infantis, imaginando que dias melhores viriam. A loja não era de todo ruim, mas a dona do negócio era uma acumuladora compulsiva. Até os sacos plásticos que embalavam as roupas e as caixas de sapatos que ninguém queria, ela pedia para eu [&#8230;]</p>
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<p>Eu era estudante de psicanálise e trabalhava em uma xexelenta loja de artigos infantis, imaginando que dias melhores viriam. A loja não era de todo ruim, mas a dona do negócio era uma acumuladora compulsiva. Até os sacos plásticos que embalavam as roupas e as caixas de sapatos que ninguém queria, ela pedia para eu guardar e acumular em um pequeno espaço onde as traças faziam festa.</p>



<p>Clientes entravam clientes saíam, alguns trocavam ideias sobre banalidades, mas a maioria se abria para um papo mais profundo: &#8220;eu me separei quando meus filhos tinham 7 e 10 anos&#8221;; &#8220;meu marido morreu depois de muito sofrer com afasia&#8221; e por aí ia. Claro que, sendo uma loja de artigos infantis, a maioria das clientes era mulher.</p>



<p>Como psicanalista em formação (eterna, diga-se), eu me sentia a última bolacha do pacote com tantos corações aflitos em busca de um ouvido. Mas minha amiga varejista de décadas logo puxou meu tapete quando lhe contei sobre o dia a dia na loja: &#8220;amiga, as pessoas são carentes e o blá blá blá é típico do comércio.&#8221; Ok! Um banho de água fria nos meus devaneios, mas os dias iam me mostrando que a vida é uma clínica aberta.</p>



<p>Crianças rabujentas, imperadoras de mães e pais submissos era o que mais tinha, além de notícias do tipo: &#8220;vim comprar um presente para uma criança especial&#8230; que tem autismo&#8230;&#8221;</p>



<p>Mas um dia, um&nbsp;<em>causo</em>&nbsp;(causo mesmo, pois parece de mentira) surgiu à minha frente. Um menino de uns 8, 9 ou 10 anos de idade apareceu com sua mãe e seu pai. Procuravam sapatos para o moleque. De cara, o menino disse que queria uma galocha. A mãe: mas galocha você já tem. Eu quero uma galocha, eu quero uma galocha, bradava o pequeno príncipe. Ok! Te compro uma galocha, mas temos que ver um tênis para você ir à escola. Tenho sede, quero beber água, quero beber água, tenho sede, quero beber água. O menino deve ter vindo do Saara. O pai corre comprar água. Tem um supermercado aqui ao lado, recomendei.</p>



<p>Papo vai papo vem, ainda bem que nenhum outro chato apareceu no meio-tempo, e comecei a mostrar as opções de calçados à pequena majestade, o menino grande.</p>



<p>Quero beber quero beber. Enquanto eu não beber, eu não vou experimentar nenhum sapato. A essa altura, compreendi que o buraco era mais embaixo. E dá-lhe paciência. Bebi um gole d&#8217;água: você me causou sede, disse eu ao menino em uma intimidade não permitida se eu trabalhasse em uma loja uau!, mas como eu trabalhava em uma xexelenta, eu podia.</p>



<p>O pai chega com uma garrafinha d&#8217;água e qual a minha surpresa ao ver que a sede do menino não era de boca, era de mãos. Ele queria lavar as mãos. Ofereci o banheiro e nada. Ofereci esses lencinhos umedecidos e nada. Eu estava ali para vender o sapato e liguei o F. Oda-se. Mas o <em>causo</em> começou a ficar sério. O menino não apenas queria lavar as mãos, ele queria ver a água escorrer entra elas.</p>



<p>Que <em>causo</em> estranho, pensei. Deve ser o destino me perguntando se eu dou conta&#8230;</p>



<p>Sapato vai sapato vem e o menino, de uma lavada de mão passou a duas, três, quatro, uma a cada minuto. Mais, mais! Deixa escorrer! O menino queria ver a água pingada por sua mãe escorrer por suas mãos, e ela que enxugasse o chão com um lencinho de papel.</p>



<p>Eu não sabia como agir e muito menos o que dizer. Eu só queria vender logo e que esse povo saísse do meu horizonte antes que chegassem outros clientes que enrolassem menos e comprassem mais.</p>



<p>324 mais 451 quanto é? Oi? Nem me lembro da primeira cifra disse eu à mãe do menino: Nem eu, ela respondeu. O pai já tinha pulado fora sem que eu tivesse sacado sua ausência mais que esperada. A culpa dos problemas, em geral, é sempre da mãe. E ela que se vire nos 30, 40, 50&#8230;</p>



<p>775! Uau, você é mesmo muito bom em matemática (na verdade a conta era bem fácil, mas vamos fingir, pois tenho que vender). E aí foi, número vai número vem e o menino entre o fazer uma conta e outra, pergunta: mãe quanto dinheiro você já ganhou na vida? Tanto. Tannnnnto! E eu ali, tendo que aturar esse papo para ganhar um reles troco.</p>



<p>A obsessão do menino em lavar as mãos só aumentava, e no meio, ele colocava números, somas, cifras&#8230;. As coisas aqui são empoeiradas, disse eu sem mentir, pois falei desde o início que a loja era xexelenta e as traças faziam festa, mas eu tinha entendido o grau da situação e só quis aliviar para a rica-pobre mãe.</p>



<p>Você conhece o Cascão? Não? É um personagem das histórias em quadrinhos que, ao contrário de você, odeia água e a evita a todo custo. Bem que vocês dois fariam uma bela duplinha, e quem sabe equilibrariam as coisas&#8230; o aquecimento global, as enchentes contra as secas&#8230;.</p>



<p>Ninguém me ouviu (ainda bem, pois a ironia não é, de fato, um artifício que todos entendem).</p>



<p>Água vai água vem, o menino abraça a mãe e os dois olham para mim, tipo, faz uma foto! E eu fiz! A mãe com um olhar confidencial me disse: você vê por que eu não resisto?</p>



<p>Puta que te pariu e você que pariu essa majestade. Eu entendi muito, mas também entendi nada. Teria tanto a dizer e queria o mesmo tanto ajudar, mas não posso. Só posso levantar teorias:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>essa mãe roubou, foi processada enquanto estava grávida? Molhar as mãos é pagar propina no Brasil, e até onde eu sei, em outros países também é costume usar o mesmo ditado&#8230;</li>



<li>&#8220;Mãe, quanto dinheiro você ganhou? &#8220;Tanto!,&#8221; esse diálogo confirmava a minha teoria-mãe&#8230;</li>
</ul>



<p>Mas o fato é que eu tinha apenas suposições. Eu era pura psicanálise selvagem. Selvagem no sentido forte do termo, selvagem no desejo de investigar, de analisar a compulsão neurótica obsessiva no dia a dia naquele dia. Eu também obsessiva. Mas até lá eu era vendedora que no final, segurando a boca cheia de perguntas, consegui vender.</p>



<p>Mas as perguntas ficaram compulsando em mim: o que você tanto quer lavar? O que você tanto quer fazer escorrer nesse gotejar de água pura, que nem sede mata, mas te coloca na posição de dominar números na compulsão dos dias que escorrem feito matemática, como quem busca soluções para um problema difícil, digno de uma medalha Fields: contar as gotículas das gotículas da gota, até que as águas se rompam feito um parto de emergência&#8230;</p>



<p>A verdade é que os dias seguem na compulsão natural de seguirem. E outras compulsões virão. Como o dois vem depois do um. Como pessoas de corações aflitos&#8230; buscam orelhas de ouvidos abertos. A vida é clínica.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>
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		<title>Depressão é Neurose Narcísica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jan 2025 13:02:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Depressão, uma das palavras mais usadas quando o assunto é saúde mental, tem muito a ver com narcisismo. Quer dizer que uma pessoa deprimida é ao mesmo tempo narcisista? Calma que o buraco da depressão é mais embaixo, ou mais em cima, dependendo do teu ponto de vista. Sigmund Freud não usou a palavra depressão [&#8230;]</p>
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<p>Depressão, uma das palavras mais usadas quando o assunto é saúde mental, tem muito a ver com narcisismo. Quer dizer que uma pessoa deprimida é ao mesmo tempo narcisista? Calma que o buraco da depressão é mais embaixo, ou mais em cima, dependendo do teu ponto de vista. Sigmund Freud não usou a palavra depressão em seus textos, e sim, melancolia. No livro &#8220;Luto e Melancolia&#8221;, Freud distingue um termo do outro a partir do objeto perdido na situação em questão. Muito resumidamente, no luto perde-se alguém ou alguma coisa, um sonho ou um ideal e tem-se a consciência da perda. Na melancolia perde-se o Eu, o narciso-narcisístico Eu, onde o sujeito se esfumaça junto ao seu objeto perdido.</p>



<p>Para as pessoas pouco habituadas com os termos psicanalíticos, parece que estamos falando grego, mas as ideias freudianas são muito mais simples do que parecem, ou fazem muito mais sentido do que se possa supor.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O que é Objeto para a Psicanálise?</h2>



<p>Para a psicanálise, um objeto é um qualquer coisa em que o sujeito investe sua energia libidinal, digamos, sua energia de vida. Uma caneca pode ganhar o <em>status</em> de Objeto a partir do momento que alguém lhe denomina: &#8220;minha caneca&#8221;, &#8220;a caneca especial&#8221;, &#8220;a caneca que herdei da minha avó&#8221;. Como exemplificou nosso professor Lívio Marques Serra em sua aula &#8220;Das neuroses de transferência às neuroses narcísicas&#8221;, um objeto é qualquer coisa que tenha recebido esse tratamento especial que podemos chamar de afeto porque, de fato, afeta uma pessoa em suas memórias, em suas ideias mas, sobretudo em sua energia. Um objeto psicanalítico é, portanto,&nbsp; algo que recebeu um investimento pessoal.</p>



<p>Alguém que perde um objeto de grandeza afetiva corre o risco de perder-se a si mesmo, de desaparecer junto ao objeto perdido. Tal perda não é consciente como a que ocorre no luto, onde sabe-se qual é o motivo da tristeza. Ao perder um objeto psicanalítico, o Eu se perde na fumaça que se dissipa da perda e já não se sabe o que, ou quais partes de si, foram perdidas.</p>



<p>Todo investimento de objeto é um investimento narcísico porque investe-se o próprio Eu. Por isso, não é de se estranhar que quando um objeto assim investido de Eu se evapora, o sujeito cai em um estado que Freud chamou de melancolia (não de depressão), mas&nbsp; a ideia é a mesma, e então fala-se de neurose narcísica.</p>



<p>Nota-se com isso o grande desafio que é tratar depressão (ou melancolia). Tem-se algo que se perde, mas que não se sabe bem o quê. Enquanto o luto faz parte da vida, faz-se um ritual, simboliza-se a morte, o fim ou a perda e a vida segue, na melancolia simbolizar uma perda esfumaçada na névoa do inconsciente fica mais difícil. E assim é que o sujeito melancólico perde totalmente o desejo de viver porque não vê sentido nas coisas. A vida não segue e se segue é um martírio. O sujeito melancólico:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>insulta a si mesmo;</li>



<li>espera sua rejeição;</li>



<li>e aguarda um castigo.</li>
</ul>



<p>O sujeito melancólico &#8211; depressivo se acha indigno, incapaz, desprezível. É o cocô do cavalo do bandido&#8230;</p>



<h2 class="wp-block-heading">Depressão é Neurose Narcísica</h2>



<p>A depressão é uma neurose narcísica porque fala de um Eu fragmentado em pedaços tão pequenos, difíceis de juntar e se reconstituir. Não se trata de alguém que narcísicamente (no sentido popular do termo) se finge de triste para ganhar holofote. Ao contrário, a neurose narcísica pressupõe uma ferida aberta em alguém sempre pronto a sangrar, que não para de escorrer e de empobrecer o seu estado de espírito. É alguém que perdeu o amor próprio, se é que algum dia o teve.</p>



<p>Mas então, como resolver um luto que implica que na perda de si mesmo?</p>



<h2 class="wp-block-heading">Apostar e ganhar</h2>



<p>O caminho inverso da melancolia pode ser longo, mas é cheio de possibilidades. É como olhar para um céu nublado e cinza e começar, do nada, a enxergar figuras nas nuvens. Figuras monstruosas que de repente passam a representar figuras menos horríveis, até que se possa ver algo de interessante, de estimulante e se passe a acreditar em outras realidades possíveis.</p>



<p>Quando a vida é uma perda certa, viver pode ser simplesmente uma aposta com pelo menos uma possibilidade de ganho (ou &#8211; por que não? &#8211; muitas possibilidades de ganho).</p>



<p>Se você se identificou nesse texto ou conhece alguém que parece viver um luto sem fim, procure ajuda! <a href="https://lalettre.com.br/contato/">Entre em contato conosco</a>. Precisamos falar sobre isso!</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p></p>
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		<title>Covardia moral: inibição, sintoma ou angústia?</title>
		<link>https://lalettre.com.br/covardia-moral-inibicao-sintoma-ou-angustia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Aug 2024 12:53:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Mental]]></category>
		<category><![CDATA[freud]]></category>
		<category><![CDATA[Jacques Lacan]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em uma de nossas aulas no Instituto&#160;La Lettre, o professor Fábio Teixeira, filósofo, psicanalista, doutor em Psicologia Social e Ética, trouxe para o debate o tema&#160;Inibição, Sintoma e Angústia, livro de 1926 de Sigmund Freud. Escondidos por trás das máscaras dos perfis falsos nas redes sociais, no mundo contemporâneo, a impressão que temos,&#160;a priori, é [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em uma de nossas aulas no Instituto&nbsp;<em>La Lettre</em>, o professor Fábio Teixeira, filósofo, psicanalista, doutor em Psicologia Social e Ética, trouxe para o debate o tema&nbsp;<em>Inibição, Sintoma e Angústia</em>, livro de 1926 de Sigmund Freud.</p>



<p>Escondidos por trás das máscaras dos perfis falsos nas redes sociais, no mundo contemporâneo, a impressão que temos,&nbsp;<em>a priori</em>, é que estamos todos desinibidos. Discursos de ódio, ghosting e cancelamento estão na ordem do dia com grandes repercussões na clínica psicanalítica. Todo mundo se sente potente no direito de dar &#8220;sua velha opinião formada sobre tudo&#8221; e de subir no palco virtual para fazer o tal do&nbsp;<em>acting out</em>,&nbsp;ao mesmo tempo que, no fundo, sabemos se tratar de um recurso pobre de significados e de consequências práticas, afinal, rede social é a nova &#8220;terra de Marlboro&#8221;.</p>



<p>Exceto se o vexame da cena for denunciado por um outro perfil (provavelmente também falso), a falta de inibição que as redes sociais proporcionam poderia reverberar em processos jurídicos. Ou seja, onde tudo é falso, é fácil ser verdadeiro. São esses alguns dos paradoxos dos dias de hoje que acabam se transformando em sintomas e ou angústias.</p>



<p>Na aula proposta, onde o tema seria um sem-fim de insights, discussões e debates, um conceito específico ressoou muito eternamente contemporâneo: um tema proposto por Jacques Lacan denominado Covardia Moral. Do que se trata?</p>



<h2 class="wp-block-heading">O que significa Covardia Moral para Lacan?</h2>



<p>Direto ao ponto, significa covardia de bancar o próprio desejo. Qual desejo? O desejo de cada um. Único e exclusivo de cada um. Mas existe desejo de cada um neste mundo de receitas de bolo politicamente corretas com fórmulas light, zero calorias, sem gordura, sem açúcar e sem pecado?</p>



<p>Interessante! Antes precisaríamos distinguir o que é moral do que é ético. Moral, segundo o professor Clóvis de Barros Filho (tem muitos vídeos no YouTube onde o professor da USP discorre sobre esse tema que é sua especialidade), moral é o que você não faz nem escondido no banheiro escuro, afinal, &#8220;Deus está te vendo&#8221;. Moral tem a ver com a sua crença de valores. Ético, ao contrário, é que você faz de correto e educado para inglês ver. Nossa sociedade é baseada em normas de ética, regras sociais gerais, enquanto a moral é subjetiva: cada um tem a sua.</p>



<p>Voltando a Lacan, Covardia Moral é a covardia de bancar o próprio desejo. E claro, se o desejo não for ético, é difícil mesmo bancá-lo. Certas coisas são proibidas desde que a civilização é civilização para colocar ordem na casa. Por exemplo: incesto, traição, assassinato, etc.</p>



<p>Mas nem tudo que é imoral, é ilegal ou engorda. A constituição da nossa moral, segundo a psicanálise, vem de casa e da cultura, do espírito do tempo em que nascemos e vivemos. Ou seja, a moral pode ser comparada ao superego, às regrinhas que criamos a nós mesmos baseados em nossa própria história de vida. E muito dessa história é a pedra no nosso caminho que impede o nosso desejo, não porque é fora de ética, mas porque é fora da nossa moral. Pode ser legal e permitida, mas, se nossos pais e nossa cultura proíbe, é mesmo muito difícil remar contra certas marés para bancar o nosso desejo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Depressão e Covardia Moral</h2>



<p>Aí vem o maior mal-estar da nossa civilização atual: a depressão. Depressão significa botar pra baixo, deprimir, esconder, cavar um buraco (depressão topográfica). E inibição tem a ver com depressão no sentido de inibir os desejos, escondê-los. Por isso, para Lacan, depressão é covardia moral!</p>



<p>Enquanto é certo que a lei se baseia na ética e no direito consuetudinário (dos bons costumes), também é certo que a moral é o julgamento que fazemos de nós mesmos, utilizando mecanismos de culpa que criamos para nos julgar e nos culpar sem dó nem piedade, e de maneira muitas vezes mais eficaz que as leis e os processos jurídicos. Freud explica isso muito bem em &#8220;<a href="https://lalettre.com.br/culpa-castigo-e-des-controle-o-fim-do-mal-estar-na-civilizacao/" data-type="post" data-id="6253">O Mal-estar na Civilização</a>.&#8221;</p>



<p>Olhar para a depressão é olhar para a inibição do desejo que, embora muitas vezes calado, grita em forma de sintoma, angústia, <em>acting out</em> e, nas piores das hipóteses, em passagem ao ato, onde faltariam recursos ao ponto de encontrar solução no suicídio e na vontade de sair de cena (morrer), uma vez que faltaram palavras para expressar a desesperança de viver o próprio desejo.</p>



<p>Esse é o tipo de debate que trazemos em nosso curso para uma clínica contemporânea que vê o sujeito em toda sua complexidade social, ao mesmo tempo que não tira os olhos da subjetividade constitucional que define cada um de nós.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p><strong>Fonte: Freud</strong>, S. (2014). <strong>Inibição, sintoma e angústia</strong>. In P. C. Souza (Coord.), Obras completas (Vol. 17, pp. 13-123). São Paulo: Companhia das Letras. (Original publicado em 1926).</p>
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		<title>Stalking é transtorno mental?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 May 2024 15:45:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um caso recente chamou a atenção nas mídias e redes sociais no Brasil. Uma moça jovem e bonita foi presa por&#160;stalking. Abismado com a notícia, o público se pergunta: como é possível alguém chegar ao ponto de &#8220;enlouquecer&#8221; por amor? Somado a esse caso, tem-se o sucesso de uma série na Netflix (Bebê Rena) que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Um caso recente chamou a atenção nas mídias e redes sociais no Brasil. Uma moça jovem e bonita foi presa por&nbsp;<em>stalking</em>. Abismado com a notícia, o público se pergunta: como é possível alguém chegar ao ponto de &#8220;enlouquecer&#8221; por amor? Somado a esse caso, tem-se o sucesso de uma série na Netflix (Bebê Rena) que trata do mesmo assunto. O sucesso da série e o bafafá do caso brasileiro nos mostra que&nbsp;<em>stakear</em>&nbsp;(perseguir) é uma atitude muito comum na sociedade digital, onde todos têm acesso a tudo, e a privacidade da vida é algo praticamente impossível.</p>



<p><strong>Mas vamos ao caso:</strong>&nbsp;Kawara Welch, uma mineira de 23 anos, acumulou entre 2021 e 2023, 12 passagens pela Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) por assédio, importunação, roubo e descumprimento de medidas protetivas. Ela chegou a ser presa preventivamente em maio de 2023 após perseguir um médico e sua família em Ituiutaba, Minas Gerais.</p>



<p>Kawara, que se apresenta como artista plástica e modelo nas redes sociais, esteve foragida por mais de um ano antes de sua atual detenção, que ocorreu neste mês de maio. A moça acumula em sua história 42 boletins de ocorrência. Em apenas um dia, ela chegou a ligar 500 vezes e enviar 1,3 mil mensagens para o médico pelo qual se apaixonou em 2019, enquanto era por ele tratada por problemas de depressão.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Caso de Polícia</h2>



<p>Antes de tudo, devemos dizer que&nbsp;<em>stalking</em>&nbsp;é um crime, um caso de polícia, e não uma condição psiquiátrica ou um transtorno psíquico. Nada nos impede porém, de imaginar que o termo possa vir a fazer parte da lista dos transtornos mentais (DSM). </p>



<p>Algo como &#8220;transtorno da personalidade stalker&#8221; pode um dia vir a ser considerado, dentro da tendência de patologização que percebemos na sociadade atual.</p>



<p>Por enquanto, o que temos são casos policiais de pessoas que perseguem outras causando danos psicológicos e traumas de natureza grave, e até mesmo a morte, pois as perseguições podem levar a vítima, culposa ou dolosamente, ao óbito.</p>



<p>Enquanto ação que causa danos físicos e ou morais, o <em>stalking</em>&nbsp; passou a ser considerado crime no Brasil em março de 2021, com penas previstas de 6 meses a 2 anos de reclusão e multa.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Caso de Psiquiatria?</h2>



<p><em>Enlouquecer de amor</em>, na linguagem popular, pode ser uma coisa deliciosa do auge da paixão, onde o um e o outro se unem em uma só pessoa, representando inclusive uma das maiores felicidades que o ser humano pode experimentar. No entanto, a &#8220;loucura&#8221; pode mesmo ser um caso psíquico quando crimes como stalking, feminicídio, homicídio, lesões corporais, difamação, calúnia, etc, resultam de um caso de amor que acabou mal, mas cujo término poderia ter sido aceito &#8211; com tristeza naturalmente &#8211; mas aceito.</p>



<p>Não dá para saber se casos de amor que terminam em crime são casos psiquiátricos, quadros psicóticos, transtornos mentais, etc. Cada caso é um caso e não podemos dar opiniões baseados em notícias de jornal. Sem acesso ao processo, fica impossível dar qualquer parecer, seja do ponto de vista jurídico que psicológico.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Erotomania</h2>



<p>De fora, muita gente acredita que houve sim um caso de amor entre a jovem e o médico, mas mesmo que tivesse havido, isso não justificaria a perseguição absurda descrita no caso.</p>



<p>Existe um transtorno mental chamado Erotomania, caracterizado pela manifestação de um sentimento obsessivo, de uma paixão descontrolada e delirante por uma pessoa, geralmente de destaque social ou celebridade.</p>



<p>Se esse é o caso de Kawara, não sabemos. O fato interessante a se notar é o quanto nossa sociedade predispõe as pessoas a esse tipo de situação.</p>



<p>De um lado tem-se uma vida surreal (acima do real) mostrada nas redes sociais. De outro, tem-se uma sociedade que não aceita um não como resposta, que não aceita uma frustração e que não aceita a diferença.</p>



<p>São novos tempos que implicam em novos problemas, novas doenças, novos sintomas, novas angústias.</p>



<p>Talvez, a &#8220;doença&#8221; não seja pessoal, específica da Kawara ou de qualquer outro caso particular de bullying, perseguição, feminicídio, racismo, etc. A doença, em todos esses casos, é social. Tem alguma coisa que não está funcionando bem no organismo social que desenvolvemos. É para essa doença comum que precisamos olhar. O que você acha disso?</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p><strong>Fontes: </strong><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2024/05/6861659-stalker-presa-por-perseguir-medico-soma-12-passagens-pela-policia-em-2-anos.html">Correio de Brasília</a> e <a href="https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2024/05/19/mulher-presa-por-stalkear-medico-chegou-a-ligar-500-vezes-e-a-enviar-13-mil-mensagens-em-um-dia.ghtml">G1</a></p>
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		<title>Eu Ideal, Ideal de Eu e Burnout</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 May 2024 11:56:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Burn (queimar) out (fora), mas para bom entendedor: o fogo acabou, o fogo tá fora, a vida tá fora. O trabalho, que deveria dar dignidade, consome, esgota, apaga. Foi-se o tempo em que o empregador se preocupava com a saúde do empregado. Sem mão de obra, o trabalho parava. Hoje, sem mão de obra, o [&#8230;]</p>
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<p>Burn (queimar) out (fora), mas para bom entendedor: o fogo acabou, o fogo tá fora, a vida tá fora. O trabalho, que deveria dar dignidade, consome, esgota, apaga. Foi-se o tempo em que o empregador se preocupava com a saúde do empregado. Sem mão de obra, o trabalho parava. Hoje, sem mão de obra, o trabalho segue, robotizado, e se não tiver robô, segue a fila do pão dos desempregados, queimados fora, noves fora.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Burn-out</h2>



<p>O trabalho é parte importante, fundamental, da vida. Não apenas por um romantismo utópico, por uma ideologia social decorosa, o da sociedade fundada sobre o valor do trabalho, mas porque o trabalho nos consome muito tempo de vida.</p>



<p>Graças à construção social, à civilização, e à importância que demos ao trabalho, o homem nem sabe quem ele é sem uma profissão. Pergunte &#8220;quem você é&#8221; a alguém de cultura ocidental e este alguém dirá a sua profissão. Ser significa ter uma profissão.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O Fogo Ideal</h2>



<p>Assim quis a civilização, assim fizemos as regras que organizam a sociedade em éticas profissionais e deontologias. O Ideal de Eu, ditado por essas regras e outras mais, fizeram do homem um ser obediente e produtivo. </p>



<p>O fogo do Eu Ideal foi queimado pelo Ideal de Eu: Quem eu quero ser e quem a sociedade quer que eu seja foi burn-out (queimado fora, queimado vivo, esgotado, apagado).</p>



<p>É todo um sistema formado nesse sentido desde que o mundo é mundo, mas agora está pior e não é sensação de estar pior, é fato que o trabalho está passando por uma transformação, assim como passamos pela Revolução Industrial. Os mais otimistas dirão que dá para tirar proveito e que a Revolução Tecnológica Digital, ou mais precisamente agora, a Revolução Artificialmente Inteligente (termo criado com devida licença poética), não é de todo ruim. Ou seja, há a possibilidade de fazermos dessa nova revolução algo bom. Por exemplo, dar finalmente dignidade trabalhista ao homem, quando máquinas poderão fazer trabalhos menos valorizados socialmente.</p>



<p>É tudo muito interessante porque a questão é propriamente a contrária. A Inteligência Artificial poderá, em breve, substituir justamente os trabalhos mais complexos, para isso, basta ter uma receita de bolo, a tal denominada <em>algoritmo</em>.</p>



<p>O que se vê por aí é um mundo dividido entre desempregados e super explorados. Os super explorados queimados vivos até a última chama (burn-out), mantida acesa por vários mecanismos: dos psicofármacos à yoga, mas sobretudo pela ameaça do desemprego.</p>



<p>Se antes algumas pessoas acreditavam que a lógica marxista, a da sociedade dividida em trabalhadores contra os donos dos meios de produção, era, apesar de simplista, uma esperança de revolução que desse dignidade ao homem, hoje a dinâmica é&nbsp;<em>eu contra eu mesmo</em>, porque as pessoas precisam se vender, elas mesmas como produtos, <em>influencers</em>, <em>coaches</em> e acreditar no milagre de que um dia, em algum lugar, suas potencialidades serão reconhecidas por milhões de&nbsp;<em>followers</em>.</p>



<p>Não à toa dizem que a depressão é o Mal do Século. Não à toa estamos ansiosos. Não à toa a cada dia tem-se uma nova &#8220;doença&#8221; que descreve o indescritível da angústia.</p>



<p>Burn-out porque o Ideal de Eu não mais dá conta de construir o Eu Ideal. &#8220;O trabalho liberta o homem&#8221; foi uma frase de boas-vindas ao campo de concentração nazista. Talvez, a única liberdade que podemos ter, a esse ponto, é saber que podemos ser muito além de nossas profissões, muito além de nossos trabalhos, e que podemos ser muito além daquilo que a sociedade quer de nós.</p>



<p>Texto original publicado na <a href="https://lalettre.com.br/category/blog/">Revista La Lettre de Psicanálise</a>.</p>



<p>Feliz 1° de maio!</p>



<p><strong>Fontes</strong>: &#8220;<a href="http://Global burden of mental disorders and the need for a comprehensive, coordinated response from health and social sectors at the country level">Global burden of mental disorders and the need for a comprehensive, coordinated response from health and social sectors at the country level</a>&#8220;. World Health Organization. Dezembro/2011. </p>



<p></p>
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		<title>Estranhos a nós mesmos: Um estudo de casos clínicos atuais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Psicanalista Patricia Alcantara]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Apr 2024 21:35:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O que você faria, como psicanalista, se uma jovem de uns 20 anos viesse em seu consultório dizendo ter sido diagnosticada com Transtorno de Personalidade Bipolar? A possível paciente conta que foi medicada e que jogou os remédios fora, mas não tem certeza de ter feito a coisa certa. Isso é mais ou menos o [&#8230;]</p>
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<p>O que você faria, como psicanalista, se uma jovem de uns 20 anos viesse em seu consultório dizendo ter sido diagnosticada com Transtorno de Personalidade Bipolar? A possível paciente conta que foi medicada e que jogou os remédios fora, mas não tem certeza de ter feito a coisa certa.</p>



<p>Isso é mais ou menos o que acontece com Laura Delano, a quarta paciente descrita no livro &#8220;<a href="https://www.amazon.com.br/Estranhos-n%C3%B3s-mesmos-Hist%C3%B3rias-inst%C3%A1veis/dp/6559791319">Estranhos a nós mesmos: Histórias de mentes instáveis</a>&#8221; de Rachel Aviv, jornalista e repórter da New Yorker, que teve seu livro na lista dos 10 melhores livros de 2023 pelo New York Times e Wall Street Journal.</p>



<p>Junto com Laura, o livro apresenta outros casos clínicos interessantes de serem lidos, porque trazem uma questão muito atual: a medicalização da sociedade.</p>



<p>O primeiro caso, Ray, era um cara de 41 anos que tinha tudo para &#8220;dar certo na vida&#8221;, tanto é que deu. Médico nefrologista, começou a ganhar muito dinheiro como empresário em uma clínica de diálise, mas uma hora o negócio desanda e seu mundo cai. Diagnosticado com melancolia, Ray, além de médico e empreendedor, era um artista sensível e um talentoso musicista, multi instrumentista. Ele estava em luto por algo que não sabia. Seria dele mesmo?</p>



<p>Depois vem a história de Bapu, uma indiana, que apresenta o caso de doença mental mais grave do livro, esquizofrenia, mas tudo é muito relativo considerando as circunstâncias em que os sintomas começam a se apresentar, e todo o seu contexto cultural.</p>



<p>O terceiro caso, o da Naomi, é muito tocante, talvez porque está muito mais próximo de nossa realidade do que os outros. Negra e em situação de vulnerabilidade, ao tentar suicídio, comete filicídio. Era uma mente brilhante com possibilidades desperdiçadas por falta de recursos de toda monta (social, familiar, um caos total).</p>



<p>Por fim, a história de Hava, que Rachel Aviv conheceu na sua breve estadia em um hospital para recuperação de meninas com anorexia.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Por que ler &#8220;Estranhos a nós mesmos&#8221;?</strong></h2>



<p>O livro é interessante para estudar casos clínicos por sua atualidade. Nossa sociedade hoje parece ter se especializado em catalogar comportamentos e diagnosticar doenças e transtornos mentais, por meio de listas de sintomas gerais, suficientes para um diagnóstico rápido, onde talvez nem seja necessário conversar com o paciente.</p>



<p>O livro não traz casos psicanalíticos, mas sim psiquiátricos. Em alguns casos, e de maneira pincelada, algum psiquiatra também desempenha o papel de psicanalista, mas muito secundariamente, o que faz com que o livro seja interessante para discutir as possíveis intervenções clínicas não medicamentosas. Rachel se dedica em trazer, em todos os casos, os pacientes com seus sintomas sociais, junto aos seus pessoais. É aquela história de não usar o nome indivíduo, pois o ser humano é dividido em pelo menos três partes, é eu, super eu e inconsciente, é sujeito de seu tempo e espaço, é sujeito à sua cultura.</p>



<p>No geral, o que será desvendado de comum nos casos é que o título, &#8220;estranhos a nós mesmos&#8221;, não é tão estranho assim. A impressão que se tem é que as pessoas buscam um ideal de eu, e também um eu ideal, que os medicamentos prometem. Podemos ser extrovertidos e ativos, principalmente porque estas são as características que o mercado de trabalho exige: alto rendimento! Mas assim como as cirurgias plásticas deixam as pessoas iguais, os diagnósticos e medicamentos podem estar fazendo o mesmo.&nbsp;</p>



<p>O estranho em nós acaba se incorporando e deixando de ser estranho. Mas perder a oportunidade de se estranhar não nos parece uma boa ideia.</p>



<p>Todos os casos do livro deixam a impressão de que uma boa conversa, social inclusive, teria resolvido casos particulares e nos ajudado a moldar uma sociedade mais acolhedora, e não reparadora rápida de problemas. Por fim, o amargo que fica é o gosto residual do remédio que decidimos tomar em nome da nossa comodidade. Todo mundo quer ser feliz, ativo e incrível. Vestir as características sociais desejadas, nem que sejam estranhas a nós mesmos, pois estas são confortáveis e fáceis de engolir. Afinal, a seco, a vida é mesmo dura.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>
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