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	<title>Instituto La Lettre | Psicanálise</title>
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	<description>Espaço multidisciplinar dedicado à transmissão de conhecimento, atendimento, pesquisa e interlocução nos campos da psicanálise, cultura e linguagem</description>
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	<title>Instituto La Lettre | Psicanálise</title>
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		<title>O Gozo Masoquista em Justine de Sade e Severin de Masoch</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 21:15:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise e Arte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Quem se deixa açoitar merece os açoites.”Leopold von Sacher-Masoch em A Vênus das Peles Daia Florios Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre em 2025, estudante de Ciências e Técnicas Psicológicas na Sapienza Università di Roma. Resumo: O conceito de gozo, na psicanálise, tem a ver com masoquismo porque, em poucas palavras, refere-se a uma espécie [&#8230;]</p>
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<p class="has-text-align-right">“Quem se deixa açoitar merece os açoites.”<br>Leopold von Sacher-Masoch em <em>A Vênus das Peles</em></p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="750" height="750" src="https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a.jpg" alt="Daia Florios" class="wp-image-11895" style="width:79px;height:auto" srcset="https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a.jpg 750w, https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a-300x300.jpg 300w, https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></figure>



<p>Daia Florios</p>



<p>Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre em 2025, estudante de Ciências e Técnicas Psicológicas na Sapienza Università di Roma.</p>



<p><strong>Resumo: </strong>O conceito de gozo, na psicanálise, tem a ver com masoquismo porque, em poucas palavras, refere-se a uma espécie de prazer no desprazer. Sendo assim, “gozo masoquista” poderia se configurar um pleonasmo, pois ambas as palavras sugerem prazeres que vão além do princípio do prazer, e têm relação com a pulsão de morte. Neste trabalho seremos específicos, analisaremos qual prazer desprazeroso se esconde atrás da autodepreciação que um masoquista procura ter, tomando como caso dois personagens de duas obras literárias: Justine do Marquês de Sade e Severin do Sacher-Masoch.</p>



<p><strong>Palavras-chave:</strong> Sacher-Masoch; Marquês de Sade; Freud; Lacan; Deleuze; Masoquismo; Sadismo</p>



<p><strong>1. A perversão como estilo de vida</strong></p>



<ol class="wp-block-list">
<li></li>
</ol>



<p>Masoquismo e sadismo são termos criados pelo psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, Viena &#8211; 1886, em seu <em>Psychopathia Sexualis</em>: um tratado de psiquiatria onde o célebre médico listou uma série de práticas sexuais que não se encaixavam em uma suposta “normalidade” comportamental humana.</p>



<p>Para cunhar tais termos, Krafft-Ebing se inspirou em dois grandes autores: o francês Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade (1740-1814), e o austríaco Leopold Von Sacher-Masoch (1836-1895), os quais iremos tratar nesse estudo.</p>



<p>A literatura sadiana é toda pautada no libertarianismo, na ideologia do libertino, ou seja, no vale tudo próprio da perversão, uma espécie de naturalismo, um pensamento muito bem exposto e sustentando na obra “A Filosofia na Alcova”, fundamental para entender o pensamento sádico; enquanto Masoch sustenta um ideal que ele mesmo chamou de ultra-sensualismo.</p>



<p>Popularmente, considera-se que o masoquista é aquele que gosta de sofrer e de ser dominado; enquanto o sádico gosta de dominar e causar sofrimento. Mas essas definições, como veremos, não têm a ver com perversão no sentido original do termo, pois ultrapassam as práticas sexuais de onde esses nomes vieram, uma vez que tanto o sadismo quanto o masoquismo podem ser lidos como condições que desbordam para a vida.</p>



<p><em>Pervĕrsus</em> é o particípio passado de <em>pervertĕre</em>, verbo formado pelo prefixo per- (que indica desvio) e pelo radical <em>vertĕre</em> (‘voltar’, ‘girar’). Desse modo, perverso é aquele que pode seguir qualquer via ou direção.</p>



<p><strong>2. A importância clínica do “sadomasoquismo”</strong></p>



<p>Se visto como estilo de vida, e não como perversão, o “sadomasoquismo” pode ser verificado em todas as relações sociais onde existam forças de oposição entre dominadores e dominados. Ou seja, praticamente em toda relação social. A questão fundamental que se coloca é a do prazer em ocupar essas posições desagradáveis.</p>



<p>Pode parecer óbvio que todos gostem de ocupar a posição de dominação. Mas o óbvio não existe, sobretudo para a psicanálise, que trabalha a subjetividade, o inconsciente, o desconhecido, e onde obviedades não existem.</p>



<p>Assim, tem-se o gozo da vítima em sofrer nas relações ditas “tóxicas”, nas posições de submissão, nas de injustiça provocadas pelo racismo, pela pobreza e pelas faltas de todo tipo. São temas muito difíceis de serem tratados porque a posição masoquista não é simples nem fácil de ser assumida. A vítima, ao racionalizar e recalcar seu gozo, acaba indo para um lugar onde sente que nada tem a ver com o seu sofrimento, ou seja, entra numa espécie de “neurose de destino” e dá a culpa ao outro, grande (<em>A</em>) ou pequeno (<em>a</em>) outro que seja, livrando-se de qualquer culpa e ao mesmo tempo, reforçando sua moral ilibada e boa conduta.</p>



<p>Como veremos, Justine é um personagem masoquista de Sade. A novela (<em>Justine e as Desgraças da Virtude</em>) conta a história de uma mulher vítima das piores atrocidades sádicas, mas que o tempo todo da narrativa parece buscar deliberadamente por situações de sofrimento.</p>



<p>É muito importante ler Justine para entender relações tóxicas, inclusive relações tóxicas consigo mesmo. O prazer no desprazer (o gozo) é algo típico masoquista que merece ser analisado, inclusive para ser “curado”. E a palavra “cura” não vem à toa, vem de Severin, o personagem de Sacher-Masoch em “A Vênus das Peles”. Depois de tanto apanhar, Severin se diz “curado”. Em suas palavras: “ou tu és o martelo ou a bigorna”, como se as opções fossem apenas estas: dar ou receber porrada e, depois de tanto receber, inverter e passar a dar, ou seja, curar-se.</p>



<p>Da mesma maneira, Juliette, a irmã perversa de Justine, ao final da novela entra para um convento de freiras na tentativa senão de curar-se da perversão, de limpar-se dos pecados cometidos.</p>



<p>Neste trabalho iremos falar sobre Justine de Sade e Severin de Masoch, junto com Freud, Lacan e Deleuze na tentativa de entender de onde vem o gozo masoquista, pelo menos nesses personagens, e como podemos trazê-los para a clínica, lembrando que a arte sempre imita a vida. No caso do “A Vênus das Peles”, o romance é praticamente autobiográfico, assim como as obras de Sade trazem histórias de sua vida real, do libertino que ele foi, ou melhor, do masoquista que ele também foi, tendo passado a maior parte da sua vida no sofrimento de um cárcere.</p>



<p><strong>3. Sadomasoquista: junto ou separado?</strong></p>



<p>Em “O Frio e o Cruel”, o filósofo francês Gilles Deleuze argumenta que não existe uma dinâmica sadomasoquista, ou seja, um comportamento que deslize de uma posição para a outra. Sado e maso são, segundo Deleuze, perversões completamente distintas e separadas.</p>



<p>Analisando as obras de Sade e Masoch, inclusive as que trazemos aqui, Deleuze opta por uma distinção radical de um e de outro comportamento. Sua argumentação é baseada na estética literária dos autores, bem como na própria composição dos personagens.</p>



<p>Uma piada usada no livro conta sobre o encontro entre um sádico e um masoquista: o masoquista diz: “Me machuque” e o sádico responde: “Não.” (Deleuze, 1991, pp 40). O que a anedota quer dizer é que, para um sádico, não há a menor graça bater em quem quer apanhar, por isso, sadismo e masoquismo não existem como comportamentos complementares nem ambivalentes.</p>



<p>Além disso, analisa Deleuze, Sade é explícito nas cenas de sexo e horror, enquanto Masoch trabalha mais com a fantasia. O sadismo é institucional, enquanto o masoquismo é contratual. O sadismo opera por meio de repetição quantitativa; o masoquismo por meio de suspensão qualitativa. Entre essas e outras análises da narrativa, Deleuze resume argumentando que há um masoquismo específico no sádico, assim como um sadismo típico do masoquista e enfim, somando todas essas diferenças, ele acentua as discrepâncias entre a apatia sadista e a frieza masoquista (Deleuze, 1991, pp 134).</p>



<p>Agora vejamos como Sigmund Freud vê o conceito sadomasoquista, e se este deve ser escrito junto ou separado.</p>



<p><strong>4. As vicissitudes e o problema econômico</strong></p>



<p>O tema do masoquismo esteve presente praticamente em toda a obra freudiana, desde 1905 nos <em>Três ensaios sobre a teoria da sexualidade</em>, onde o masoquismo é considerado secundário em relação ao sadismo. Depois, em <em>Aqueles que fracassam no sucesso</em> (1916) o tema é retomado e seguido de <em>Uma criança é espancada</em> (1919) até chegar em duas obras mais específicas, como veremos.</p>



<p>Freud, que tem toda a sua teoria baseada na ambivalência &#8211; que é a coexistência de forças contrárias regidas por certos princípios do psiquismo (o do prazer: buscar prazer e evitar o desprazer); o da realidade (em que o ego adia a gratificação imediata dos desejos para atender às exigências do mundo externo); o da constância, de Fechner (o aparelho psíquico tende a reduzir as tensões em uma “tendência à estabilidade”) &#8211; irá dizer que sadismo e masoquismo não são opostos porque esses “princípios” não são excludentes, ao contrário, podem coexistir entre eles.</p>



<p>No texto curto e denso <em>O instinto e suas vicissitudes</em>, famoso pela questão da tradução de “triebe und triebschicksale”, instinto e seus destinos ou pulsão e seus destinos, Freud diferencia a pulsão do instinto, sugerindo que há algo entre o somático (corpo) e o mental (psiquismo) que é constante e interno, que independe de estímulos externos, ou seja, que não é instintual e que sofre uma pressão (<em>drang</em>) por satisfação, com uma finalidade (<em>ziel</em>), através de um <em>objekt</em> (objeto).</p>



<p>Nesse sentido, a pulsão é um conceito fronteiriço entre o corpo e a mente. Muito resumidamente, é uma força constante que nasce no corpo e pressiona a mente a buscar por uma satisfação, independentemente de estímulos externos.  </p>



<p>O desprazer aumenta esse estímulo interno, e o prazer o diminui. A finalidade então é eliminar o estado de estimulação na fonte, podendo haver caminhos intermediários constituindo satisfações parciais ou inibições. As mudanças pelas quais as pulsões passam ao longo da vida seriam as vicissitudes, e explicariam um masoquismo principal do qual derivaria o sadismo, onde a finalidade, a intenção da pulsão, era a de dominar (sadismo), mas que não podendo ser direcionada ao externo se internaliza e se transforma em dominação e dor autoinfligida.</p>



<p>Pode parecer complicado, mas estamos falando de um texto de 1915 que, de qualquer forma, busca ser científico do primeiro ao último parágrafo para entender, substancialmente, os porquês do gozo masoquista, ou melhor, por que há prazer no desprazer? E conclui de maneira labiríntica que as pulsões podem se modificar e interagir entre elas de maneira complexa. Nesse sentido, sadismo e masoquismo seriam um do outro, o reverso da mesma moeda.</p>



<p>Mais adiante, em <em>O Problema Econômico do Masoquismo</em> (1924), Freud empresta de Barbara Low a ideia do “Princípio de Nirvana”, segundo o qual todo desprazer deveria coincidir com um aumento, e todo prazer com uma diminuição da&nbsp;tensão mental devida a um estímulo. No texto referido, para entender o masoquismo, Freud está considerando o princípio do prazer como um vigia da nossa vida, pois o aparelho psíquico tende a reduzir a zero, ou ao mínimo possível, sua tensão interna. Sob essa ótica, a mente operaria em busca de uma economia psíquica voltada à estabilização absoluta de estímulos. O masoquismo surge, então, como um enigma, pois não haveria lógica na busca pela dor para a manutenção da vida. Percebe-se aqui o seu problema econômico: a existência de tensões que, em vez de evitadas, são buscadas por se tornarem fontes de prazer. Por qual razão o sujeito extrairia satisfação do infortúnio? Por que existem tensões prazerosas (como a excitação sexual) e, inversamente, sensações de alívio que só se alcançam através de estados profundamente desprazerosos (como a autoflagelação)?</p>



<p>Para resolver esse problema econômico, Freud então divide e analisa o masoquismo em três tipos: erógeno, feminino e moral.</p>



<p>O primeiro, o masoquismo erógeno (prazer na dor) está na base das outras duas formas, sendo de origem biológica e constitucional.</p>



<p>O segundo, o masoquismo feminino (que alguns traduziram como femíneo porque não tem relação com o gênero), tem a ver com a castração e a posição de passividade em relação ao outro.</p>



<p>O terceiro, o masoquismo moral, é inconsciente (ou seja, desconhecido) e tem a ver com o sentimento de culpa, com o supereu.</p>



<p>O que Freud conclui nesse texto é que existe um masoquismo primário (erógeno) onde a libido captura uma tendência autodestrutiva e erotiza a dor, o que permitiria que uma tendência autodestrutiva não fosse mortífera e se tornasse parte do funcionamento erótico.</p>



<p>Embora Freud não tenha sido explícito, ou melhor, tenha sido muito sucinto nesse outro texto curto e denso, ele traz a noção do princípio do Nirvana (ou da pulsão de morte) para a origem do problema da dor como guardiã da vida. Podemos ler hoje, que experiências de violência precoce ou desamparo podem se inscrever nesse terreno estrutural do masoquismo primário.   Mas não precisamos ir longe, sobretudo se não tivermos experiência clínica onde recorrentemente aparece, infelizmente, o abuso na mais tenra idade. Basta pensar que uma displicência ordinária, uma resposta não dada subitamente ao choro de um bebê, poderia ser percebida como violência ou desamparo. E então, transformar a dor em prazer tornar-se-ia um mecanismo de defesa e, mais que isso, de sobrevivência.</p>



<p>Em outras palavras, tem-se que o masoquismo sugere uma agressividade inicial que, não podendo ser expressa para fora, retornaria contra o próprio sujeito, dando a este a ideia de estar sob o controle da situação. É como dizer: “enquanto eu dependo do outro e o outro não vem ao meu socorro quando eu preciso, é melhor eu transformar essa dor, esse desamparo, em prazer.”</p>



<p>O ego, inconscientemente, precisa desse subterfúgio para sobreviver se as condições dadas colocarem em risco a própria vida. É a pulsão de morte como guardiã da vida.</p>



<p>Ao final deste texto freudiano, o masoquismo fica evidenciado como uma ambivalência de instintos que se origina na pulsão de morte e que, possuindo um significado erótico, até mesmo de destruição por si mesmo, aparece com vestes de satisfação libidinal.</p>



<p>Em ambos os textos analisados, temos que, no sentido freudiano, a expressão sadomasoquismo revela uma relação dialética em que uma perversão pode se transmutar na outra (vicissitude).</p>



<p>Freud observa que tendências sádicas e masoquistas podem coexistir no mesmo sujeito, com o sádico sendo também capaz de experimentar prazer na dor que inflige a si mesmo, e o masoquista podendo sentir prazer ao causar dor ao outro.</p>



<p>Em suma, Freud, em um texto e no outro nos dá a entender que causar e sofrer dor (assim como olhar e ser olhado no <em>voyeurismo</em>) são posições intercambiáveis, ao contrário de Deleuze que as vê completamente separadas por questões de lógica e de estética.</p>



<p><strong>5. Kant con Sade, Masoch e Lacan  </strong></p>



<p>Se fosse uma ópera: “Cante com Sade, Masoch e Lacan”, bem que poderíamos cantar os personagens, onde Kant diria:<br></p>



<p>&#8211; Faça com que seu desejo coincida com a moral da lei e dos bons costumes.<br>Sade, o libertino:<br>&#8211; Pelo contrário, ilustre Kant, faça de modos que o seu desejo possa romper com todas as leis.<br>Lacan, o analista, diria:<br>&#8211; Os senhores estão falando do mesmo, mas em sentido contrário: nem o eu, libertino, egoísta e sem lei; nem a lei, fria e impessoal. Tomem consciência de que o desejo vos atravessa e vos coloca frente ao risco e à finitude. É nele, nesse atravessamento, que reside a vossa liberdade.</p>



<p>É a ética psicanalítica, a ética do desejo, nem kantiana nem sadiana, mas a das pulsões, sejam estas de vida ou de morte que, juntando tudo, agora no resumo da ópera, significa a ética de fazer o que de melhor possível perante o real: a mortalidade da vida.</p>



<p>Talvez tenhamos complicado, mas o possível é o singular: cada caso é um caso. Então, vamos aos casos: Justine e Severin.</p>



<p><strong>6. Justine, a virtude em pessoa</strong></p>



<p><em>Justine, ou As Desgraças da Virtude</em>, de Marquês de Sade, é um romance de 1791 que conta a história de duas irmãs, Justine e Juliette, que, uma vez órfãs, seguem caminhos diferentes na vida. Justine, a virtuosa, mantém Deus no coração, enquanto Juliette entrega-se às mundanidades da vida.</p>



<p>O romance narra as provações de Justine, jovem inocente e piedosa que, mesmo na pior das situações que a vida lhe coloca, decide permanecer fiel aos princípios da virtude e da religião. Ao longo da história, porém, cada ato de bondade ou pureza a leva a novas tragédias: é explorada, enganada, abusada e injustiçada repetidamente. E o pior: seus algozes se dão muito bem, ficam cada vez mais ricos e sempre são premiados pela vida, em dinheiro e honrarias.</p>



<p>Em contraste, sua irmã Juliette, que escolhe uma vida de vícios, prazeres e corrupção, enriquece, conquista poder e alcança uma existência confortável.</p>



<p>Sade utiliza a oposição entre as duas irmãs para expor uma visão crítica, irônica e provocadora sobre a moralidade, a religião e a sociedade de sua época: no mundo real, o vício é recompensado e a virtude é castigada. Como quem diz: se o mundo é corrupto, o melhor a fazer é corromper-se.</p>



<p>Enquanto Juliette goza da <em>bella vita</em>, Justine goza das desgraças da virtude. No decorrer da trama, cada desgraça vivida sugere uma outra ainda pior, num jogo infantil que só a vítima não quer enxergar. Por que? Porque há um gozo masoquista aí.</p>



<p>O leitor antevê todos os males que Justine sofrerá, mas a jovem virtuosa segue seu gozo martírico, uma espécie de fé na humanidade. E quanto mais ela sofre, mais sua fé se fortalece. “Ou se é o martelo, ou se é a bigorna”, diz Severin de Masoch, e Justine decidiu ser a bigorna até as últimas consequências e diante de todas as evidências de suas escolhas erradas.</p>



<p>Justine encarnou a ética kantiana de cumprir um dever universal além dos interesses pessoais, e levou esse imperativo às últimas consequências, morrendo de maneira inesperada. Sade é extremamente irônico ao final da novela colocando a irmã, Juliette, em uma posição semelhante à de Severin de Masoch, que transitando de um lugar a outro, decide bater em vez de apanhar, enquanto Juliette, ao contrário mas igualmente, decide apanhar em vez de bater. Além dessa ambivalente vicissitude de sado a maso e de maso a sado, Justine e Severin têm algo muito em comum: a ideia do martírio, do gozo masoquista, do prazer no desprazer, do parecer passivo, mas ser ativo.</p>



<p><strong>7. Severin, macho nada <em>alpha</em></strong></p>



<p>Severin é um ultra-sensual (palavras dele em suas “confissões” &#8211; Sacher-Masoch, 1870, pp. 12), alguém que sonha as matriarcas de uma época, as deusas e líderes como Madame de Pompadour, Catarina II, Lucrécia Bórgia, Rainha Margot, Dalila e tantas outras citadas como musas inspiradoras, mulheres que “botavam o falo na mesa”. Severin, aparentemente, é o macho submisso, que se coloca voluntariamente aos desmandos da deusa matriarca.</p>



<p><em>A Vênus das Peles </em>foi escrito em 1870, época já patriarcal onde muitos homens, e desde aquela época até hoje, tiveram que tomar as rédeas da situação quando “bom mesmo” era obedecer. Parece estranho dizer isso, principalmente porque muito se critica o patriarcado hoje, mas existem homens (como Severin) que prefeririam o lugar da submissão. É compreensível se fizermos uma rápida análise de <em>Totem e Tabu</em>, (Freud, 1913). Segundo Freud, nossa sociedade é fundada na angustiante ambivalência entre matar o pai (ganhar liberdade e tomar o poder) mas perder a sua proteção. É como dizer: se quiser causar mal ao homem dê-lhe a liberdade. Nada mais angustiante que a liberdade. O homem não sabe o que fazer dela.</p>



<p>Muito resumidamente, o enredo de <em>A Vênus das Peles</em> (1870) gira em torno de Severin von Kusiemski, um homem que sente prazer em ser subjugado. Ele conhece Wanda von Dunajew, por quem se apaixona e com quem firma um contrato de servidão: aceita ser tratado como escravo, desde que ela use peles ao exercer o poder. As peles remetem às deusas e guerreiras que ele idolatra, e à surra que um dia levou de uma sua tia. Com o tempo, Wanda assume de fato esse papel dominador e capricha nos castigos ao ponto de exceder, permitindo que um de seus amantes açoite Severin. No final, Wanda se retira com esse amante e Severin chega ao seu limite. Anos depois, recebe uma carta de Wanda onde ela diz ter aceitado participar do “jogo” na intenção de curá-lo cruel e radicalmente do seu gozo masoquista (Sacher-Masoch, 1870 pp 79-80).</p>



<p>Ser curado do seu gozo masoquista são palavras nossas, não de Wanda, mas o essencial é isso, pois Severin se diz curado e resume sua história assim:</p>



<p>“A moral é que eu fui um burro (…) Se ao menos eu a tivesse açoitado! (…) Daí a moral da história: Quem se deixa açoitar merece os açoites.”</p>



<p>Justine e Severin têm algum muito em comum. Ambos são…</p>



<p><strong>8. Mártires (e levam tudo às últimas consequências)</strong></p>



<p>Justine, provavelmente, morre acreditando que vai para o céu (e de fato vai: deus a leva consigo num raio de luz), afinal, o mundo cruel não é para ela, tão casta, tão virtuosa. E Severin foi, em suas palavras, um mártir do amor. (Sacher-Masoch, 1870, pp 26).</p>



<p>O martírio está em polvorosa em ambas as obras porque a arte imita a vida. Vejamos bem: Hércules cumpre 12 trabalhos (castigos) para atingir um estado de redenção pelos males que cometeu (matou a família), para restaurar sua honra e sua moral. Muitos terapeutas usam no trabalho com tóxico-dependentes a jornada do herói, composta de 12 passos. O sacrifício está na ideia de redenção humana. Jesus se sacrificou por nós. A cultura masoquista está entranhada em nossas veias desde os primórdios, desde os gregos e romanos antigos, a história é sempre civilizatória no sentido kantiano: abdicar do desejo para um bem maior. Sade inverte, <em>a priori</em>, essa ordem, mas Lacan enxerga um fantasma em sua ópera Kant com Sade, ou ironizando: “Cante com Sade o Fantasma da Ópera”.</p>



<p>Quem é o fantasma da ópera? É a fantasia da imortalidade. Quando lemos a ética da psicanálise, lemos a ética do desejo, a ética de Eros, ou seja, a ética da pulsão de vida.</p>



<p>O masoquismo está muito ligado à pulsão de morte. Se em Freud, como mecanismo de defesa, como guardião da vida, uma espécie de narcisismo inclusive; em Lacan o masoquismo ocupa a posição de verdadeiro dominador, lobo em pele de cordeiro, que se faz se objeto de rejeito para ser comprado.</p>



<p>O masoquista é uma pessoa que sabe usar o poder do outro em seu próprio favor, para gozar da imagem martírica de si mesmo. Se o culpado é sempre o outro, o mundo cruel, o masoquista, mais do que limpo, sai mártir na história, sendo ainda capaz de encontrar um sádico que assume deliberadamente o papel de mau, de perverso, de fora da lei.</p>



<p>Para Lacan, a verdade sádica se revela somente no masoquista porque é na dor, e não no prazer, que as práticas sadomasoquistas permitem o êxtase para além do princípio do prazer.</p>



<p><strong>Conclusão</strong></p>



<p>O martírio é o gozo masoquista. É o fantasma da redenção, do sacrifício, da imortalidade da alma que esconde a mortalidade do corpo que, provavelmente, faz com que exista prazer no desprazer.</p>



<p>A mulher que apanha até morrer (enquanto não morre, resiste);<br>O dependente químico (só mais uma dose antes da derradeira);<br>O desgraçado, injustiçado, escravizado, a vítima mais vítima de todas que, como Justine, é incapaz de ver que está deliberadamente procurando por seus algozes, tampando o sol com a peneira, armando-se de todos os mecanismos de defesa do ego para manter sua imagem imaculada de mártir;<br>Os mártires da religião, aqueles que se sacrificam em nome de deus, buda, alá, que pulam fogueiras, que dormem em camas de espinhos…</p>



<p>É provável que todos esses masoquistas acreditem na redenção de suas almas. Gozam do olhar angustiado do outro, da pena do outro que lhes revela uma maldade genuína e comum em todos nós.</p>



<p>Esses jogos de poderes, que sobretudo nas relações de amor podem ser muito excitantes, são perigosos e, de fato, matam.</p>



<p>Há salvação. Há cura, pelo menos nas histórias que aqui analisamos. Justine morre porque levou seu gozo às últimas consequências, mas Severin se “cura”.</p>



<p>Ao final de ambas as histórias o que permanece é a ironia e a honestidade sádica: o mundo é sim injusto e perverso, mas ser masoquista não faz de ninguém um santo.</p>



<p>Freud explica que enquanto o masoquista se esforça para esconder os aspectos inquietantes e cruéis de sua personalidade, o sádico torturador esconde de si uma terrível falta, uma desmesurada fraqueza.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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</blockquote>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>DELEUZE, Gilles. O frio e o cruel. Disponível em: [http://pdf-objects.com/files/gilles-deleuze-masochism-coldness-and-cruelty-venus-in-furs.pdf](http://pdf objects.com/files/gilles-deleuze-masochism-coldness-and-cruelty-venus-in-<br>furs.pdf). Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>ESSE Psicologia. Perversione: i crociati dell’Altro \[vídeo]. Disponível em: [https://www.youtube.com/watch?v=-5HZfTnYHuY](https://www.youtube.com/watch?v=-5HZfTnYHuY). Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Al di là del principio di piacere. Torino: Bollati Boringhieri,<br>2023.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Totem e tabù. Torino: Bollati Boringhieri, 2023.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Os instintos e suas vicissitudes. Disponível em: https://<br>dravni.co.il/wp-content/uploads/2014/05/Freud-S.-1915.-Instincts-and-their-<br>Vicissitudes.pdf. Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>FREUD, Sigmund. O problema econômico do masoquismo. Disponível em:<br>https://iepp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Freud-S-Problema-Economico-<br>do-Masoquismo-7.pdf. Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>LACAN, Jacques. Kant com Sade. Disponível em: https://londonsociety-<br>nls.org.uk/wp-content/uploads/kant-with-sade2.pdf. Acesso em: 26 set. 2025</p>



<p>MASOCH, Leopold von. A Vênus das Peles. Disponível em: [https:// www.supremaciafeminina.com.br/VENUSDASPELES.pdf](https://www.supremaciafeminina.com.br/VENUSDASPELES.pdf). Acesso em: 26 set.<br>2025.</p>



<p>SADE, Donatien Alphonse François de. Justine, ou os infortúnios da virtude. Disponível em:https:www.academia.edu/5565148/12Marques\_de\_Sade\_Justine](https://www.academia.edu/5565148/Marques_de_Sade_Justine). Acesso em: 26 set. 2025.</p>
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		<title>Luto e Melancolia: Uma Releitura da Relação entre Perda e Elaboração na Estrutura Psíquica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marlete Lins]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Nov 2025 22:01:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[freud]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[saudemental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Marlete Lins Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre em 2025, Graduada em Ciências pela UNESF– FUNESO – Olinda – PE, Especialista no Ensino Prático de Biologia – UNICAPE. Resumo Ao explorar a relação entre o luto e a perda, na perspectiva da Psicanálise, pode-se observar que quando uma carga energética libidinal envolve um sujeito em [&#8230;]</p>
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<p>Marlete Lins</p>



<p>Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre em 2025, Graduada em Ciências pela UNESF– FUNESO – Olinda – PE, Especialista no Ensino Prático de Biologia – UNICAPE.</p>



<p><strong>Resumo</strong></p>



<p>Ao explorar a relação entre o luto e a perda, na perspectiva da Psicanálise, pode-se observar que quando uma carga energética libidinal envolve um sujeito em relação a um objeto, e esse objeto é, de alguma forma, perdido, grande pode ser o abalo no psiquismo desse sujeito. O luto envolve todo um processo de elaboração relacionado à libido que estava investida, e que precisa ser reinvestida/redirecionada, após a aceitação dessa perda. A dificuldade de se desvincular de um objeto deve ser levada em consideração e, principalmente, a forma com a qual cada sujeito interpreta essa realidade por meio da sua subjetividade. O tempo que se leva para elaborar esse luto, difere de sujeito para sujeito, o que pode constar de períodos depressivos ou de ansiedade; o que é, para muitos, a porta de entrada para a clínica psicanalítica. Assim, busca-se compreender como a Psicanálise pode ajudar o sujeito a lidar com o luto, analisando os conceitos freudianos acerca das causas, manifestações e consequências dos estados psíquicos mais comuns vivenciados pelo sujeito enlutado, por intermédio de um olhar que sempre convoca a clínica psicanalítica, ao longo dos tempos, a contemplar esses casos.</p>



<p><strong>Palavras-chave:</strong> luto; melancolia; perda; libido; clínica psicanalítica.</p>



<p><strong>Sobre o luto</strong></p>



<p>O Ensaio publicado por Sigmund Freud em 1917, escrito em 1915, “Luto e Melancolia”, distingue duas experiências psíquicas aparentemente semelhantes. É um texto emblemático que trata de sentimentos profundos que causam grandes e distintos impactos na estrutura psíquica do sujeito que os experimenta. Ambos envolvem a perda de um objeto amado, seja uma pessoa, um ideal ou uma identidade. O modo, todavia, como a psique lida com essa perda varia, consideravelmente, de sujeito para sujeito. Freud define o luto como uma reação à perda de algo ou alguém de grande valor, um processo natural de adaptação psíquica que envolve a elaboração de uma perda e que jamais dever ser visto como uma doença. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right">“Confiamos em que será superado após certo tempo, e achamos que perturbá-lo é inapropriado, até mesmo prejudicial” (Freud, 2010, 172).</p>
</blockquote>



<p>Trata-se, assim, de um processo natural que, embora possa afastar o sujeito das suas atividades habituais, passará após a sua elaboração.</p>



<p>O luto sempre ocorre a partir de um evento traumático, alguma perda, não necessariamente pela morte de um parente ou de alguém muito significante, mas pode se referir à perda de um emprego, o afastamento de um amigo ou uma separação conjugal. Ao vivenciar um desses eventos, o sujeito pode responder de uma forma mais saudável, mais natural. Supondo que uma pessoa tenha perdido seu irmão mais querido, vítima de uma doença grave, durante um tempo, há um recolhimento, um período de afastamento das atividades costumeiras e do convívio social. Nesta fase, o choro é comum ao se reviver as lembranças da convivência com aquele irmão. É natural e desejável que, depois desse período, aos poucos, a pessoa vá elaborando este episódio doloroso e voltando à sua rotina.</p>



<p>Eventos como esse, ocorrem inúmeras vezes na vida do sujeito, e estão diretamente relacionados com a libido, que é a energia psíquica que impulsiona o ser humano. Quando o sujeito se depara com algo que lhe dá satisfação, há um investimento de libido sobre esse objeto, seja ele uma pessoa, um trabalho ou uma atividade esportiva. Assim, quando há uma perda ou o afastamento desse objeto, essa libido, investida no objeto em foco, fica sem lugar. O processo de luto consiste em fazer com que essa libido retorne para o sujeito para ser, novamente, direcionada a outro objeto. Dessa forma, o sujeito pode seguir o curso da vida, pronto para outras experiências e outros trabalhos de luto.</p>



<p>Esse trabalho de luto consiste em renunciar a um determinado caminho de prazer que estava montado, renunciar a uma relação amorosa que estava estabelecida, renunciar a uma amizade de longa data que já contava com a confiança. No luto o sujeito é convidado a ressignificar todo o investimento libidinal que havia sido dedicado ao referido objeto. Por conseguinte, quando o sujeito elabora essa separação, ele está pronto para reinvestir a sua energia psíquica em outros objetos, pessoas, ideais, causas e situações.</p>



<p><strong>Sobre a melancolia</strong></p>



<p>Na melancolia, o sujeito apresenta um estado de ânimo profundamente doloroso, a ponto de ser descrito como dilacerante. É um processo que se diferencia do luto pelo fato do sujeito perder sua autoestima, levando-o a desferir ofensas contra si mesmo, como se simulasse um ato de punição. </p>



<p class="has-text-align-right"><em>“A melancolia se caracteriza, em termos psíquicos, por um abatimento doloroso, um desinteresse pelo mundo exterior, perda da capacidade de amar, inibição de toda atividade e diminuição da autoestima” (Freud, 2010, p.172).</em></p>



<p>A melancolia caracteriza-se psiquicamente por um estado de ânimo profundamente dolorido, pela suspensão do interesse pelo mundo externo, pela perda da capacidade de amar, pela inibição geral das capacidades de realizar tarefas e pela depreciação do sentimento por si mesmo. O sujeito não sabe dizer o que perdeu, descreve um vazio no qual nada o preenche, atestando uma escuridão interminável. Mesmo que o sujeito seja consciente da perda, ele não saberia dizer o que perdeu, dada a íntima identificação com o objeto perdido. Há toda uma problemática da ausência combinada a uma presença maciça do objeto, dentro de si.</p>



<p>A grande diferença entre luto e melancolia, é a forma como a estrutura psíquica do sujeito responde ao evento traumático. Seguindo com o exemplo supracitado, no qual a ocorrência se refere à perda de um irmão. Nesse sentido, um outro irmão pode receber o fato de maneira tal, que a dor é insuportável, pois ele não consegue explicar o que perdeu. Há, nesse caso, uma identificação com o objeto perdido, como se ambos se fundissem e o sujeito sucumbisse, se depreciasse e se culpasse, entrando num processo de morte.</p>



<p>Por infligir nele mesmo uma culpa excessiva num movimento de autodestruição, isso se difere do luto, pois há uma identificação do sujeito com o objeto perdido, o que faz com que o mundo interno se perca. A sombra do objeto perdido recai sobre o ego, e este passa a ser visto como objeto, o que permite ao sujeito investir, sobre si mesmo, os afetos que seriam direcionados ao objeto amado, depreciando seu próprio eu, agredindo a sua autoestima. Sendo assim, há uma dificuldade enorme de se desvencilhar desses sentimentos, e o sujeito passa a vivenciar uma dor interminável.</p>



<p><strong>Sobre a clínica</strong></p>



<p>No setting analítico acolhe-se frequentemente pessoas que chegam angustiadas, sentindo um imenso vazio, uma sensação de insignificância, um quadro que coincide com um estado de profunda dor, de abandono de si, de desinteresse pelas atividades cotidianas e depreciação do próprio ser; um quadro de melancolia.</p>



<p>O melancólico, neste sentido, tem uma sensação de desvalia do eu, com uma dor moral, uma dor de existir, um sentimento de culpa e de autopunição, tudo isso gira em torno de um objeto perdido.</p>



<p>Para a Psicanálise, o sintoma é o meio que o sujeito encontrou, para poder continuar seguindo o curso da vida, para se constituir como sujeito, em que pesem os sofrimentos. O sujeito melancolizado se apresenta pouco disposto a investir, a apostar no mundo e na realidade externa, a perseguir os seus sonhos apostando em novas possibilidades. Se sente impedido de falar acerca do seu estado, sem perspectivas de futuro. Assim, pergunta-se: qual o caminho a escolher? O que pode levar o sujeito a pensar na sua dor, a mudar de posição em relação ao seu próprio sofrimento?</p>



<p>Dessarte, a melancolia é um estado no qual a dor é descrita como maior que tudo, maior até que a vontade de viver, na qual o sujeito é capaz de depreciar o próprio eu, desferindo afetos que, segundo Freud, seriam, possivelmente, direcionados ao objeto perdido, como uma forma de manter o laço de uma presença sempre ausente. Dirá o pai da psicanálise que: </p>



<p class="has-text-align-right"><em>“Ouvindo com paciência as autoacusações de um melancólico, não conseguimos, afinal, evitar a impressão de que frequentemente as mais fortes entre elas não se adequam muito a sua própria pessoa, e sim, com pequenas modificações, a uma outra, que o doente ama, amou ou devia amar” (Freud, 2010, p.179).</em></p>



<p>Nesse luto infinito é o movimento no qual o sujeito pode se colocar à sombra do objeto, assumindo a sua forma. É quando o sujeito internaliza o objeto numa relação nomeada por Freud, identificação narcísica, que não se permite que o sujeito separe o objeto perdido de si mesmo. Na internalização do objeto amado, os afetos não encontram outro alvo, senão o próprio sujeito. Tudo isso ocorre, segundo Freud, pelo deslocamento da libido que era investida naquele objeto que fora perdido e que, após a sua perda, foi internalizado, não podendo ser reinvestido.</p>



<p>Com isso, a libido recua para o eu, mas desta vez contra o sujeito, causando todo esse estado de dor e de perda de si mesmo, o que consiste na manifestação patológica do luto. </p>



<p class="has-text-align-right"><em>“Desse modo a perda do objeto se transformou numa perda do Eu, e o conflito entre o Eu e a pessoa amada, numa cisão entre a crítica do Eu e o Eu modificado pela identificação” (Freud, 2010, p.181).</em></p>



<p>É quando o luto se eterniza e o sujeito melancólico acaba por ser aquele incapaz de encontrar o caminho de volta a um porto seguro, para vislumbrar um novo caminho a seguir, rumo a outros objetos de desejo.</p>



<p><strong>Considerações finais</strong></p>



<p>O presente estudo propôs uma breve releitura do texto “Luto e Melancolia” de Sigmund Freud, explorando o tema de forma singela, buscando entender os mecanismos que levaram o autor a observar os mecanismos de enfrentamento da dor da perda e a compreender que nem todos conseguem lidar com a perda, seja ela repentina ou esperada. O luto tem um papel crucial na vida do sujeito, tendo em vista que não é possível viver sem perder, pois, a qualquer momento se pode ser surpreendido por uma perda e, quando se perde algo, também se perde algo de quem se é. Contudo, diante do objeto perdido, nota-se que este nunca será perdido por completo, pois, a qualquer momento, um cheiro, uma recordação, uma música, um ruído, um sabor, algo poderá trazer a lembrança daquele objeto amado e reacender a sua presença. O luto é algo inerente ao ser humano, e será inúmeras vezes, vivenciado, elaborado, transposto e, após o término do seu trabalho, haverá espaço para um novo investimento de libido em novos objetos. Na melancolia o trabalho não se completa, o sujeito vive um luto sem fim, uma dor corrosiva e estranha que o leva a depreciar e punir a si mesmo, sendo esse o único meio de expressar os afetos em relação àquele objeto que, internalizado, passou a fazer parte de si mesmo.</p>



<p><strong>Referência Bibliográfica</strong></p>



<p>FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1915). In: FREUD, Sigmund. Obras completas volume 12: introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v. 12.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>
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		<title>De Freud a Lacan: as marcas do Édipo na experiência do sujeito</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Natalia Rosario]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Nov 2025 22:51:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Natália Rosário Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre no ano de 2025, Graduada em Business Administration pela Bemidji State University, Pedagoda pela UFSCar e Pós-Graduada em Gestão Educacional pela Universidade Federal de Itajubá. Resumo O Complexo de Édipo, um dos pilares conceituais da psicanálise, foi inicialmente formulado por Sigmund Freud e posteriormente revisitado por Jacques [&#8230;]</p>
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<p><img decoding="async" width="896" height="1152" class="wp-image-11781" style="width: 150px" src="https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2025/11/d29d5efd-e7ac-4612-967f-cdea552da826-1.jpg" alt="Natália Rosário" srcset="https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2025/11/d29d5efd-e7ac-4612-967f-cdea552da826-1.jpg 896w, https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2025/11/d29d5efd-e7ac-4612-967f-cdea552da826-1-233x300.jpg 233w, https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2025/11/d29d5efd-e7ac-4612-967f-cdea552da826-1-796x1024.jpg 796w, https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2025/11/d29d5efd-e7ac-4612-967f-cdea552da826-1-768x987.jpg 768w" sizes="(max-width: 896px) 100vw, 896px" /></p>



<p>Natália Rosário</p>



<p>Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre no ano de 2025, Graduada em Business Administration pela Bemidji State University, Pedagoda pela UFSCar e Pós-Graduada em Gestão Educacional pela Universidade Federal de Itajubá.</p>



<p><strong>Resumo</strong></p>



<p>O Complexo de Édipo, um dos pilares conceituais da psicanálise, foi inicialmente formulado por Sigmund Freud e posteriormente revisitado por Jacques Lacan. O artigo &#8220;De Freud a Lacan: Marcas do Édipo na experiência do sujeito&#8221; explora as dimensões freudianas e lacanianas desse conceito, destacando sua permanência e transformação na teoria e na clínica psicanalítica.&nbsp;</p>



<p><strong>Palavras-chave:</strong> Freud; Lacan; Complexo de Édipo; Nome do-Pai.</p>



<p><strong>1. O Édipo segundo Freud&nbsp;</strong></p>



<p>Freud, em “A Interpretação dos Sonhos”, explica que o mito de Édipo-Rei continua a comover o homem moderno porque a situação que o mito apresenta ainda fala de maneira intensa e universal. Ele diz:&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right has-small-font-size">Se o Édipo rei consegue abalar o ser humano moderno tanto quanto os&nbsp;gregos contemporâneos, isso só pode se dever ao fato de que o efeito da&nbsp;tragédia grega resulta não do contraste entre destino e vontade humana,&nbsp;mas da peculiaridade do material que serve para demonstrar esse contraste&nbsp;(FREUD, 2010).</p>
</blockquote>



<p>Ele afirma que cada ouvinte foi um dia, em fantasia, um Édipo:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right has-small-font-size">Seu destino nos comove apenas porque poderia ter também o nosso, porque o oráculo pronunciou a mesma maldição contra nós antes mesmo de nascermos. Todos éramos talvez predestinados a voltar nosso primeiro impulso sexual para a nossa mãe e nosso primeiro ódio e desejo violento contra o pai; nossos sonhos nos convencem disso (FREUD, 2010).&nbsp;</p>
</blockquote>



<p>Com isso, o autor já deixa claro que todos passarão por esta fase do desenvolvimento infantil e terão essa fantasia. Segundo Moreira (2004), “Será a partir do Édipo que o sujeito irá estruturar e organizar o seu vir-a-ser, sobretudo em torno da diferenciação entre os sexos e de seu posicionamento frente à angústia de castração”.</p>



<p>Na teoria freudiana, o Complexo de Édipo representa um momento central do desenvolvimento psicossexual da criança, situado principalmente na fase fálica, entre os três e os cinco anos de idade. Nesse período, o sujeito em constituição vivencia intensamente sentimentos ambivalentes: desejo amoroso pelo genitor do sexo oposto e rivalidade hostil com o genitor do mesmo sexo. Freud (2016) diz:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right has-small-font-size">O complexo de Édipo é o complexo nuclear da neurose, que constitui a parte essencial do seu conteúdo. Nele culmina a sexualidade infantil, que, por seus efeitos ulteriores, influi decisivamente na sexualidade do adulto. Cada novo ser humano enfrenta a tarefa de lidar com o complexo de Édipo.</p>
</blockquote>



<p>A resolução do complexo se dá através da renúncia ao desejo incestuoso e da aceitação da autoridade paterna. Essa renúncia, contudo, não é simples. Nasio (2005), em seu livro “Édipo &#8211; O complexo do qual nenhuma criança escapa”, mostra que o menino passa por um processo com algumas fases ligadas à sexualização dos pais. Por ter o Falo, ele acredita em sua fantasia que é um ser onipotente. Assim, a criança do sexo masculino pode ter três desejos: possuir o corpo de sua mãe, ser possuído pelo corpo de seu pai, ou suprimir o corpo de seu pai. Ao deparar-se com o fato de que a mulher é desprovida de pênis, nascem as fantasias de angústia. Diante destas angústias (de ser castrado pelo pai repressor, sedutor ou rival), o menino recalca suas fantasias e aceita que a mãe não pode ser seu objeto de desejo, tendo os genitores como objetos de identificação.&nbsp;</p>



<p>Na menina, o processo tem mais uma etapa, pois, segundo Freud, existe uma fase pré-edipiana. Assim como o menino, ela se sente onipotente devido às sensações clitorianas. No entanto, ao deparar-se com a falta do pênis, sua fantasia de poder não é mais a mesma. Ela sente a privação e a dor de perder o falo. A menina busca refúgio em seu pai, pois ele é o detentor do &#8220;grande falo&#8221;. Perante a recusa do pai, que não lhe entrega seu falo, ela busca ser o falo para ele. Neste sentido, a mãe passa a ser o exemplo com a qual a menina se identifica. Ela então dessexualiza o pai e se torna aberta para, no futuro, poder amar um homem.</p>



<p>Quando o menino e a menina renunciam a seus desejos incestuosos e se identificam com um de seus genitores, nasce o Superego. Em seu artigo “Édipo em Freud: o movimento de uma teoria” Moreira (2004) afirma que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right has-small-font-size">A introdução do conceito de identificação não é apenas um mecanismo&nbsp;psicológico, mas uma operação pela qual o indivíduo humano se constitui;&nbsp;sendo um processo central na constituição e transformação do sujeito, trará,&nbsp;como consequência, a produção do conceito de superego.</p>
</blockquote>



<p>Em Eu e o Id (2011), Freud afirma que o Superego é &#8220;sem dúvidas herdeiro do Complexo de Édipo&#8221;. É esta instância que vai fazer com que o sujeito observe as leis, as siga, cumpra com seus deveres, culpando-se e punindo-se em alguns casos. Em seu artigo, Moreira (2004) ainda comenta: “O superego resulta de um processo identificatório com a lei, da qual o pai é o representante”.</p>



<p><strong>2. O Édipo para Lacan</strong></p>



<p>Jacques Lacan, que sempre baseou seus estudos nos escritos de Freud, não ignora o Complexo de Édipo, mas traz uma visão diferente para este conflito. Sua visão se concentra no lugar ocupado no campo simbólico, trazendo à luz o &#8220;Nome-do-Pai&#8221;. Para ele, o Édipo não é apenas algo vivido em um ambiente familiar, mas sim uma estrutura simbólica que organiza a subjetividade humana.</p>



<p>Deste modo, o Édipo é uma experiência de entrada em um sistema de significados que regem o mundo. Segundo Lacan (1995) “percebeu-se então que um Édipo podia constituir-se muito bem, mesmo quando o pai não estava presente”, por isso ele se refere a uma função simbólica.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Lacan observa que, no início da vida, o bebê tem uma relação muito íntima com a mãe. O bebê deseja sua mãe e acredita que o mundo dela gira em torno dele. No entanto, o desejo da mãe vai além do novo integrante da família. É neste momento que a figura paterna entra para barrar a mãe de desejar somente o bebê.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right has-small-font-size">O pai […]interdita a mãe. Esse é o fundamento, o princípio do complexo de Édipo, é aí que o pai se liga à lei primordial da proibição do incesto. É o pai,&nbsp; recordam- nos, que fica encarregado de representar essa proibição (LACAN, 1995).&nbsp;</p>
</blockquote>



<p>Segundo Lacan, o desejo da mãe encontra seu limite na função paterna. É importante ressaltar que não é necessário um pai biológico, mas sim que alguém, um terceiro, assuma essa função paterna de barrar a fusão do bebê com o Grande Outro, que é sua mãe. Lacan chama essa função simbólica de &#8220;Nome-do-Pai&#8221;.&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right has-small-font-size"><em>Segundo Lacan, a função fundamental do Édipo aparece como coextensiva à função paterna, mas a função deve ser entendida como algo radicalmente distinto da presença ou da ausência do pai na família. Lacan faz uma distinção entre o papel social do pai, que estava em declínio – já apontado por ele desde 1938 em “Os complexos familiares na formação do indivíduo -, e a função lógica do pai para a psicanálise.” Os fundamentos sobre a função do pai são relacionados à fala, à linguagem, como constitutivos da subjetividade (COSTA, 2010).</em></p>



<p>O &#8220;Nome-do-Pai&#8221; barra a fusão do bebê e da mãe, impondo um limite nesta relação, assim como a cultura, a linguagem e a sociedade. Com essa negação de ter a mãe para si, a criança vê que seu desejo não será totalmente satisfeito. Isso a leva a desejar outras coisas, passando a enxergar algo além da relação materna.&nbsp;</p>



<p>Lacan coloca a linguagem como um elemento central para a constituição do sujeito. Segundo ele, o sujeito só se torna sujeito quando entra no campo simbólico da linguagem, ou seja, quando começa a compreender o mundo através de signos, palavras e regras que são transmitidas socialmente. É nesse contexto que o Édipo ganha um novo significado: ele é a passagem do sujeito para o mundo simbólico, onde a criança deve aprender a aceitar a proibição e se conformar com a ideia de que seu desejo não pode ser completamente satisfeito. Segundo Lacan (1995), o Édipo é compreendido como metáfora paterna, que introduz a lei no desejo.&nbsp;</p>



<p><strong>3. Os três tempos do Édipo em Lacan</strong></p>



<p>Lacan divide o Édipo em três momentos principais:&nbsp;</p>



<p><strong>Primeiro tempo:</strong> O bebê sente que a mãe o enxerga como seu falo. Na visão do recém-nascido, o mundo de sua mãe gira somente ao seu redor e ele fantasia que é a única coisa que ela deseja.&nbsp;</p>



<p><strong>Segundo tempo:</strong> O pai, ou uma figura que exerça a função paterna, entra em cena. Segundo Lacan (1995), em seu Seminário 4 ressalta que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right has-small-font-size">O pai simbólico é o nome do pai. Este é o elemento mediador essencial do&nbsp;mundo simbólico e de sua estruturação. Ele é necessário a este desmame,&nbsp;mais essencial que o desmame primitivo, pelo qual a criança sai de seu&nbsp;puro e simples acoplamento com a onipotência materna. O nome do pai é&nbsp;essencial a toda articulação de linguagem humana.</p>
</blockquote>



<p>A função do pai é essencialmente simbólica, e por meio do Nome-do-Pai, ele impõe a Lei. Ao perceber a presença de um outro na relação, o bebê percebe que a mãe pode desejar algo ou alguém que não seja ele. Neste momento, o pai barra a fusão bebê-mãe, impondo um limite e iniciando a castração simbólica.</p>



<p>Aqui surge o Nome-do-Pai com sua função simbólica de regular o desejo da criança, inserindo-a em uma sociedade com suas regras e limites. Segundo Lacan (1995), a função do Nome-do-Pai é introduzir o sujeito no campo do significante, delimitando o desejo do bebê e inscrevendo-o no campo simbólico.</p>



<p><strong>Terceiro tempo:</strong> O Nome-do-Pai passa a ser um significante fundamental e organiza a subjetividade do sujeito. Ele insere o sujeito no mundo da linguagem, mostrando-lhe a ordem que rege a sociedade, impondo-lhe limites e castrando-o de seu desejo incestuoso. Se não lhe é permitido desejar sua mãe, só resta ao sujeito passar a desejar outras coisas, utilizando a linguagem como meio de se relacionar com o outro. A partir deste &#8220;corte&#8221;, o sujeito pode se constituir, criando novas possibilidades para si.</p>



<p><strong>4. O Édipo nos dias de hoje</strong></p>



<p>Ao acompanhar e refletir sobre as ideias de Freud e Lacan, fica claro que o Complexo de Édipo continua sendo uma das bases da psicanálise, mesmo com as diferentes abordagens que cada autor propõe. Para Freud, o Édipo é o momento em que a criança organiza sua sexualidade, suas relações afetivas e seu próprio psiquismo (FREUD, 2011). Já Lacan, sem desconsiderar a contribuição freudiana, desloca o Édipo de um drama familiar para uma estrutura simbólica, sublinhando que é pelo Nome-do-Pai e pela entrada na linguagem que o sujeito se constitui (LACAN, 1995).</p>



<p>O que atravessa ambos os autores é a percepção de que o Édipo não é apenas algo do passado infantil, mas continua moldando a vida psíquica e as relações do sujeito com o mundo. Nasio (2005) lembra que nenhuma criança escapa ao Édipo e, por consequência, nenhum adulto está completamente fora de sua influência.</p>



<p>Nos dias de hoje, o Édipo pode aparecer de formas diferentes, mas sua função permanece: mostrar limites, mediar desejos e organizar a subjetividade. Na clínica, perceber esses efeitos ajuda a entender como o sujeito se relaciona com a cultura, com a lei e com os outros, e como lida com a renúncia e a identificação.</p>



<p>Revisitar Freud e Lacan é perceber que o estudo do Édipo é o aprofundamento do próprio processo de constituição do sujeito. Mais do que abordar uma teoria, esta reflexão é convidativa a continuar pensando, escutando e aplicando esses conceitos na prática clínica, reconhecendo que o Édipo, mesmo hoje, ainda está presente em cada experiência de desejo, de limite e de encontro com o outro.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p><strong>Referências&nbsp;bibliográficas</strong></p>



<p>COSTA, Teresinha. Édipo. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. FREUD, S. O Eu e o Isso. In:</p>



<p>FREUD, S. Obras completas. v. 16. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.&nbsp;</p>



<p>FREUD, S. A Interpretação dos Sonhos: II (1900-1901). In: FREUD, S. Obras completas. v. 5. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade; Análise fragmentária de uma histeria (“O caso Dora”) e outros textos (1901-1905). Tradução de Paulo César de Souza. Obras completas, v. 6. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.&nbsp;</p>



<p>LACAN, J. O Seminário, Livro 3: As Psicoses. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.&nbsp;</p>



<p>LACAN, Jacques. O seminário, livro 4: a relação de objeto (1956-1957). Rio de Janeiro: Zahar, 1995.</p>



<p>LACAN, Jacques. O seminário, livro 5: as formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Zahar, 1999.</p>



<p>LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.</p>



<p>MOREIRA, Jacqueline de Oliveira. Édipo em Freud: o movimento de uma teoria. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 9, n. 2, p. 219-227, ago. 2004. DOI: 10.1590/S1413-73722004000200008.</p>



<p>NASIO, J-D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa. Tradução de André Telles. São Paulo: Escuta, 2005.</p>
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		<title>A IA pode substituir um terapeuta?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Sep 2025 13:37:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[inteligência artificial]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Segundo um estudo publicado na Harvard Business Review, em 2025, terapia com chatbots foi o principal uso que as pessoas fizeram da inteligência artificial (IA). Isso significa que as pessoas estão usando chatGPT, Gemini, Copilot e outras ferramentas do tipo principalmente para &#8220;conversarem&#8221;. Será que a IA poderá um dia substituir os terapeutas? Essa é [&#8230;]</p>
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<p>Segundo um estudo publicado na <a href="https://hbr.org/2025/04/how-people-are-really-using-gen-ai-in-2025">Harvard Business Review</a>, em 2025, terapia com chatbots foi o principal uso que as pessoas fizeram da inteligência artificial (IA). Isso significa que as pessoas estão usando chatGPT, Gemini, Copilot e outras ferramentas do tipo principalmente para &#8220;conversarem&#8221;. Será que a IA poderá um dia substituir os terapeutas?</p>



<p>Essa é uma pergunta que não apenas os profissionais de saúde mental estão se fazendo (psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, etc), mas também os jovens. O número de pessoas interessadas em estudar psicologia no Brasil cresceu de forma expressiva, mais do que duplicando entre 2010 e 2021, com um aumento de 112,4% nas matrículas, <a href="https://sites.usp.br/psicousp/procura-por-curso-de-psicologia-nas-faculdades-explode-no-brasil/">de acordo com dados do Instituto de Psicologia da USP</a> &#8211; Universidade de São Paulo.</p>



<p>Esse fenômeno é certamente mundial. É como dizem por aí: metade da população está louca, a outra metade está fazendo terapia. O aumento da demanda pelo curso de psicologia e da percepção da importância da saúde mental é revelada nos números, e o uso da IA como terapeuta é só mais um dado na planilha da análise sociológica contemporânea.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Concorrência desleal</h2>



<p>A demanda por terapia é grande, o estigma de que os profissionais &#8220;psi&#8221; tratam de loucos ainda existe, mas diminuiu bastante. E por mais que tenhamos um aumento nos números de profissionais, restam ainda muitos entraves para uma significativa popularização das psicoterapias.</p>



<p>O fator financeiro, sobretudo em países como o Brasil, provavelmente é o maior entrave. As terapias custam caro, às vezes muito caro, mas os profissionais precisam cobrar, afinal estudaram, investiram em suas formações e, embora as psicoterapias tratem da ‘alma’ da pessoa (lembrando que ‘psi’ significa alma), elas não são igreja nem caridade. O campo é diverso: algumas vertentes se reivindicam como ciência, outras flertam com a metafísica, mas todas têm um método e uma epistemologia que as sustentam.</p>



<p>Somando o fator financeiro à disponibilidade total das IAs em termos de tempo e de um suposto sigilo (sabe-se lá para onde vão as informações reveladas a ela), tem-se que, a princípio, as IAs têm tudo para substituir os terapeutas humanos. A concorrência é desleal: gratuita e operando 24 horas por dia.</p>



<p>Mas os problemas com as IAs já começam a aparecer. Recentemente tivemos a primeira denúncia jurídica contra uma empresa que opera IA, no caso, a OpenAi, que faz a chatGPT. O processo apenas começou, não sabemos o resultado, mas a empresa foi acusada de assistir ao suicídio de um adolescente de 16 anos.</p>



<p>Além disso, <a href="https://lalettre.com.br/psicose-do-chatgpt-inteligencia-artificial-enlouquece/">casos de psicose foram relatados</a> causados por uso extenso da ferramenta. É o &#8220;no limits&#8221; de tempo de uso e o exagero dos elogios, a falta de alteridade e a ausência de castração que, em sujeitos mais frágeis, e justamente os que mais precisam de terapia, que a IA é perigosa.</p>



<p>Outros casos menos graves, pequenos impasses da vida cotidiana também viraram notícia. Por exemplo, perder um voo por ter acreditado nas informações fornecidas pela IA. São casos bobos, mas que já começam a mostrar os efeitos da IA em nossa sociedade e, mais que isso, o início da descrença nesse superpoder, nessa inteligência, que por artificial que seja, nos reporta sempre a uma inteligência.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O começo da virada</h2>



<p>Talvez a IA venha a ser o grande tiro fálico que saiu pela culatra no sentido de ter suas fragilidades cada vez mais expostas.</p>



<p>Se assim acontecer, além de as IAs num futuro próximo não poderem substituir os terapeutas, ela poderá fazer justamente o contrário: fomentar as psicoterapias dado que estão causando mais danos que trazendo soluções.</p>



<p>Talvez a nossa opinião, como instituto que somos, seja um pouco suspeita: Freud explica! Mas percepções viram números quando exacerbam as opiniões pessoais e viram dados na planilha social que estamos construindo, quer a Inteligência Artificial queira, quer não queira.</p>



<p>E você? Como vê essa questão? A IA pode substituir um terapeuta?</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p></p>
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		<title>Terapia com IA: conforto demais pode te prejudicar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Aug 2025 14:23:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[clínica psicanalítica]]></category>
		<category><![CDATA[inteligência artificial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 2025, o maior uso da IA no mundo foi como terapeuta. Só no Brasil, estima-se que 12 milhões de pessoas estejam fazendo terapia com chatbots como o ChatGPT — um número que revela tanto a demanda por escuta quanto a carência de acolhimento humano real. O que explica esse fenômeno? A falta de recursos [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 2025, o maior uso da IA no mundo foi como terapeuta. Só no Brasil, estima-se que 12 milhões de pessoas estejam fazendo terapia com chatbots como o ChatGPT — um número que revela tanto a demanda por escuta quanto a carência de acolhimento humano real.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O que explica esse fenômeno?</h2>



<p>A falta de recursos financeiros, de tempo e até mesmo de conhecimento pode explicar, em parte, como ferramentas como a ChatGPT começaram a ser usadas como conselheiras, confidentes e “terapeutas” pessoais.</p>



<p>Mas por trás dos números sempre existe algo mais complexo a ser analisado.</p>



<p>Milhões de pessoas relatam buscar esses sistemas para organizar emoções, acalmar crises, lidar com questões existenciais e até refletir sobre a vida. E, num primeiro olhar, isso soa promissor: acesso imediato, gratuito, sem julgamento, sempre disponível.</p>



<p>Mas esse cenário carrega um risco grave e pouco comentado: a formação de bolhas emocionais narcisistas, mantidas por algoritmos que só sabem concordar.</p>



<p>A IA responde com fluidez, parece empática, acolhe tudo. Mas ela não sente, não pensa, não interpreta. Ela simula uma escuta. E mais do que isso: ela valida tudo.</p>



<p>O conforto oferecido pela IA — o acolhimento em forma de concordância e elogios desmedidos — pode ser muito prejudicial. Já o desconforto de um convite à crítica, a repensar sob uma nova perspectiva, pode ser profundamente fecundo. É o desconforto que move — porque é o que incomoda que produz verdade e transforma caminhos.</p>



<p>O tipo de &#8220;escuta&#8221; que a IA oferece cria uma zona de conforto artificial, onde o sujeito é mantido no centro, sem nunca ser contrariado. Tudo é compreensível. Tudo é aceitável. Tudo é devolvido com um “entendo como você se sente”.</p>



<h2 class="wp-block-heading">As bolhas emocionais e narcisistas</h2>



<p>A verdadeira empatia não é um “sim” constante. Ela inclui o limite, o confronto, o impasse, o silêncio — aquilo que atravessa e transforma. E é justamente isso que a IA não pode oferecer.</p>



<p>Estamos cada vez mais cercados por bolhas afetivas, programadas para não nos confrontar. Bolhas que reforçam o que sentimos, acreditamos, pensamos.</p>



<p>E é aqui que mora o risco maior: o crescimento de uma sociedade de nichos emocionais fechados em concordâncias, onde não há crítica, reflexão ou convite à reavaliação dos próprios afetos.</p>



<p>Qual é o resultado disso?</p>



<p>Uma sociedade de pessoas cada vez mais sozinhas, que não conseguem se relacionar, pois perderam a capacidade do confronto. Querem apenas olhar para si mesmas e ver o quão belas e certas estão. Muito narcisismo como coisa!</p>



<p>Não se constrói subjetividade apenas no espelho do “sim”.</p>



<p>A construção do sujeito se dá também nos opostos, nos ambivalentes, nos atritos, nos cortes, nas faltas, naquilo que não se acomoda — ao contrário: incomoda e faz analisar.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Vamos conversar</h2>



<p>É compreensível a atração pela facilidade em usar chatbots — seja por questão financeira, de tempo, ou até pela timidez de se abrir para um humano.</p>



<p>Mas é preciso deixar as coisas claras:</p>



<p>Se a ideia de “fazer terapia” se resumir a conselhos, acolhimento genérico e frases motivacionais, a IA pode até ser eficaz. Talvez até melhor que um profissional mal preparado.</p>



<p>Mas o que a IA nunca poderá ser é psicanalista. Porque:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>A IA opera por padrões. A psicanálise, pelo furo no discurso.</li>



<li>A IA responde rápido. O analista sustenta o silêncio.</li>



<li>A IA concorda. O analista ouve o que o sujeito não quer dizer.</li>
</ul>



<p>Ou seja, em alguns casos, a IA pode até ajudar, mas em muitos outros ela pode prejudicar. Simplesmente porque ela não atravessa o sujeito e, paradoxalmente, o mantém confortável em sua bolha de desconforto.</p>



<p>Quem estiver disposto a ser transformado, vai precisar de algo mais que um algoritmo gentil.</p>



<p>Se o problema for financeiro, timidez, falta de tempo ou qualquer outro motivo, <a href="https://lalettre.com.br/contato/">entre AQUI em contato conosco</a>.</p>



<p>Te acolheremos humanamente — e encontraremos uma solução.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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</blockquote>



<p><strong>Leia também:</strong></p>



<p><a href="http://“Psicose do ChatGPT”: IA e o Colapso da Escuta">“Psicose do ChatGPT”: IA e o Colapso da Escuta</a></p>



<p></p>
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		<title>Mas afinal, o que é racismo estrutural?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Aug 2025 12:24:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[clínica psicanalítica]]></category>
		<category><![CDATA[curso de psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vamos direto ao ponto: racismo estrutural é um sistema de desigualdades raciais tão profundas que, enraizado nas instituições, acaba se tornando parte do próprio funcionamento da sociedade. Ele molda jeitos de pensar, de viver e até de sentir, tudo isso de forma tão naturalizada que, muitas vezes, nem se percebe. Parece exagerado? Vejamos! O conceito [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Vamos direto ao ponto: racismo estrutural é um sistema de desigualdades raciais tão profundas que, enraizado nas instituições, acaba se tornando parte do próprio funcionamento da sociedade. Ele molda jeitos de pensar, de viver e até de sentir, tudo isso de forma tão naturalizada que, muitas vezes, nem se percebe. Parece exagerado? Vejamos!</p>



<p>O conceito “racismo estrutural” foi popularizado por Silvio Almeida, professor, filósofo e advogado brasileiro. Ele explicou esse conceito em seu <a href="https://www.amazon.com.br/Racismo-Estrutural-Silvio-Almeida/dp/8598349747">livro homônimo</a>, mostrando como o racismo está presente nas estruturas sociais e nas práticas do dia a dia, muitas vezes de forma invisível, normalizada, banal.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Desigualdade profunda</h2>



<p>E o que, afinal, é desigualdade?</p>



<p>Desigualdades podem marcar a pele feito ferro quente, e a alma feito karma, levando o sujeito a um ciclo de repetição que não se apaga, ao contrário, se propaga.</p>



<p>Desigualdades não se referem às diferenças naturais, substanciais da vida na Terra. Desigualdade nos remete à falta de igualdade, ou seja, à ausência de condições iguais de partida, de um possível jogo limpo, de poder ter regras iguais para todos. É sobre <a href="https://journals.openedition.org/ras/170">igualdade de oportunidades</a>, enquanto as diferenças são respeitadas.</p>



<p>Não é fácil falar de igualdades, desigualdades, racismos e racionalismos. As palavras se intercalam, as ideias se misturam, e o que sobra, além de ruído e confusão, é apenas angústia. Angústia por tentar explicar algo que machuca, que confunde, que atravessa a vida de quem sofre o racismo todos os dias.</p>



<p>Fala-se em privilégio branco, em desigualdades enraizadas, em discriminação sistêmica, em racismo estrutural&#8230; Esses termos podem ser estudados na filosofia, no direito, na sociologia. Mas, na psicanálise, o olhar é outro: os significantes são extremamente pessoais, do sujeito: aquele que se sujeita e é sujeitado pela ação dos outros.</p>



<p>Em linha com a clínica contemporânea, onde essas questões chegam envoltas por dúvidas e angústias de todas as cores e formas, o Instituto La Lettre apresenta o curso &#8220;Escutas em Ruído: Psicanálise Frente à Crise da Palavra e do Laço Social&#8221;. </p>



<p>No Módulo 3, vamos discutir “O Racismo Estrutural e a Subjetividade”.</p>



<p>Esse encontro é um convite à escuta dos efeitos psíquicos do racismo estrutural. Vamos refletir, com base em casos clínicos e textos teóricos, como a violência simbólica e institucional atravessa o sujeito. E como o analista precisa estar atento, ético e politicamente implicado para poder escutar isso.</p>



<p>Participe.</p>



<p>Clique <a href="https://lalettre.com.br/escutas-em-ruido/">AQUI</a> para saber mais.</p>



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