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	<title>Arquivo de Psicanálise e Arte | Instituto La Lettre | Psicanálise</title>
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	<description>Espaço multidisciplinar dedicado à transmissão de conhecimento, atendimento, pesquisa e interlocução nos campos da psicanálise, cultura e linguagem</description>
	<lastBuildDate>Sat, 23 May 2026 15:20:05 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivo de Psicanálise e Arte | Instituto La Lettre | Psicanálise</title>
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		<title>O Gozo Masoquista em Justine de Sade e Severin de Masoch</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 21:15:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise e Arte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Quem se deixa açoitar merece os açoites.”Leopold von Sacher-Masoch em A Vênus das Peles Daia Florios Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre em 2025, estudante de Ciências e Técnicas Psicológicas na Sapienza Università di Roma. Resumo: O conceito de gozo, na psicanálise, tem a ver com masoquismo porque, em poucas palavras, refere-se a uma espécie [&#8230;]</p>
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<p class="has-text-align-right">“Quem se deixa açoitar merece os açoites.”<br>Leopold von Sacher-Masoch em <em>A Vênus das Peles</em></p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="750" height="750" src="https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a.jpg" alt="Daia Florios" class="wp-image-11895" style="width:79px;height:auto" srcset="https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a.jpg 750w, https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a-300x300.jpg 300w, https://lalettre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/523c7f1a-7328-4732-95a3-eaad7079db3a-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 750px) 100vw, 750px" /></figure>



<p>Daia Florios</p>



<p>Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre em 2025, estudante de Ciências e Técnicas Psicológicas na Sapienza Università di Roma.</p>



<p><strong>Resumo: </strong>O conceito de gozo, na psicanálise, tem a ver com masoquismo porque, em poucas palavras, refere-se a uma espécie de prazer no desprazer. Sendo assim, “gozo masoquista” poderia se configurar um pleonasmo, pois ambas as palavras sugerem prazeres que vão além do princípio do prazer, e têm relação com a pulsão de morte. Neste trabalho seremos específicos, analisaremos qual prazer desprazeroso se esconde atrás da autodepreciação que um masoquista procura ter, tomando como caso dois personagens de duas obras literárias: Justine do Marquês de Sade e Severin do Sacher-Masoch.</p>



<p><strong>Palavras-chave:</strong> Sacher-Masoch; Marquês de Sade; Freud; Lacan; Deleuze; Masoquismo; Sadismo</p>



<p><strong>1. A perversão como estilo de vida</strong></p>



<ol class="wp-block-list">
<li></li>
</ol>



<p>Masoquismo e sadismo são termos criados pelo psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, Viena &#8211; 1886, em seu <em>Psychopathia Sexualis</em>: um tratado de psiquiatria onde o célebre médico listou uma série de práticas sexuais que não se encaixavam em uma suposta “normalidade” comportamental humana.</p>



<p>Para cunhar tais termos, Krafft-Ebing se inspirou em dois grandes autores: o francês Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade (1740-1814), e o austríaco Leopold Von Sacher-Masoch (1836-1895), os quais iremos tratar nesse estudo.</p>



<p>A literatura sadiana é toda pautada no libertarianismo, na ideologia do libertino, ou seja, no vale tudo próprio da perversão, uma espécie de naturalismo, um pensamento muito bem exposto e sustentando na obra “A Filosofia na Alcova”, fundamental para entender o pensamento sádico; enquanto Masoch sustenta um ideal que ele mesmo chamou de ultra-sensualismo.</p>



<p>Popularmente, considera-se que o masoquista é aquele que gosta de sofrer e de ser dominado; enquanto o sádico gosta de dominar e causar sofrimento. Mas essas definições, como veremos, não têm a ver com perversão no sentido original do termo, pois ultrapassam as práticas sexuais de onde esses nomes vieram, uma vez que tanto o sadismo quanto o masoquismo podem ser lidos como condições que desbordam para a vida.</p>



<p><em>Pervĕrsus</em> é o particípio passado de <em>pervertĕre</em>, verbo formado pelo prefixo per- (que indica desvio) e pelo radical <em>vertĕre</em> (‘voltar’, ‘girar’). Desse modo, perverso é aquele que pode seguir qualquer via ou direção.</p>



<p><strong>2. A importância clínica do “sadomasoquismo”</strong></p>



<p>Se visto como estilo de vida, e não como perversão, o “sadomasoquismo” pode ser verificado em todas as relações sociais onde existam forças de oposição entre dominadores e dominados. Ou seja, praticamente em toda relação social. A questão fundamental que se coloca é a do prazer em ocupar essas posições desagradáveis.</p>



<p>Pode parecer óbvio que todos gostem de ocupar a posição de dominação. Mas o óbvio não existe, sobretudo para a psicanálise, que trabalha a subjetividade, o inconsciente, o desconhecido, e onde obviedades não existem.</p>



<p>Assim, tem-se o gozo da vítima em sofrer nas relações ditas “tóxicas”, nas posições de submissão, nas de injustiça provocadas pelo racismo, pela pobreza e pelas faltas de todo tipo. São temas muito difíceis de serem tratados porque a posição masoquista não é simples nem fácil de ser assumida. A vítima, ao racionalizar e recalcar seu gozo, acaba indo para um lugar onde sente que nada tem a ver com o seu sofrimento, ou seja, entra numa espécie de “neurose de destino” e dá a culpa ao outro, grande (<em>A</em>) ou pequeno (<em>a</em>) outro que seja, livrando-se de qualquer culpa e ao mesmo tempo, reforçando sua moral ilibada e boa conduta.</p>



<p>Como veremos, Justine é um personagem masoquista de Sade. A novela (<em>Justine e as Desgraças da Virtude</em>) conta a história de uma mulher vítima das piores atrocidades sádicas, mas que o tempo todo da narrativa parece buscar deliberadamente por situações de sofrimento.</p>



<p>É muito importante ler Justine para entender relações tóxicas, inclusive relações tóxicas consigo mesmo. O prazer no desprazer (o gozo) é algo típico masoquista que merece ser analisado, inclusive para ser “curado”. E a palavra “cura” não vem à toa, vem de Severin, o personagem de Sacher-Masoch em “A Vênus das Peles”. Depois de tanto apanhar, Severin se diz “curado”. Em suas palavras: “ou tu és o martelo ou a bigorna”, como se as opções fossem apenas estas: dar ou receber porrada e, depois de tanto receber, inverter e passar a dar, ou seja, curar-se.</p>



<p>Da mesma maneira, Juliette, a irmã perversa de Justine, ao final da novela entra para um convento de freiras na tentativa senão de curar-se da perversão, de limpar-se dos pecados cometidos.</p>



<p>Neste trabalho iremos falar sobre Justine de Sade e Severin de Masoch, junto com Freud, Lacan e Deleuze na tentativa de entender de onde vem o gozo masoquista, pelo menos nesses personagens, e como podemos trazê-los para a clínica, lembrando que a arte sempre imita a vida. No caso do “A Vênus das Peles”, o romance é praticamente autobiográfico, assim como as obras de Sade trazem histórias de sua vida real, do libertino que ele foi, ou melhor, do masoquista que ele também foi, tendo passado a maior parte da sua vida no sofrimento de um cárcere.</p>



<p><strong>3. Sadomasoquista: junto ou separado?</strong></p>



<p>Em “O Frio e o Cruel”, o filósofo francês Gilles Deleuze argumenta que não existe uma dinâmica sadomasoquista, ou seja, um comportamento que deslize de uma posição para a outra. Sado e maso são, segundo Deleuze, perversões completamente distintas e separadas.</p>



<p>Analisando as obras de Sade e Masoch, inclusive as que trazemos aqui, Deleuze opta por uma distinção radical de um e de outro comportamento. Sua argumentação é baseada na estética literária dos autores, bem como na própria composição dos personagens.</p>



<p>Uma piada usada no livro conta sobre o encontro entre um sádico e um masoquista: o masoquista diz: “Me machuque” e o sádico responde: “Não.” (Deleuze, 1991, pp 40). O que a anedota quer dizer é que, para um sádico, não há a menor graça bater em quem quer apanhar, por isso, sadismo e masoquismo não existem como comportamentos complementares nem ambivalentes.</p>



<p>Além disso, analisa Deleuze, Sade é explícito nas cenas de sexo e horror, enquanto Masoch trabalha mais com a fantasia. O sadismo é institucional, enquanto o masoquismo é contratual. O sadismo opera por meio de repetição quantitativa; o masoquismo por meio de suspensão qualitativa. Entre essas e outras análises da narrativa, Deleuze resume argumentando que há um masoquismo específico no sádico, assim como um sadismo típico do masoquista e enfim, somando todas essas diferenças, ele acentua as discrepâncias entre a apatia sadista e a frieza masoquista (Deleuze, 1991, pp 134).</p>



<p>Agora vejamos como Sigmund Freud vê o conceito sadomasoquista, e se este deve ser escrito junto ou separado.</p>



<p><strong>4. As vicissitudes e o problema econômico</strong></p>



<p>O tema do masoquismo esteve presente praticamente em toda a obra freudiana, desde 1905 nos <em>Três ensaios sobre a teoria da sexualidade</em>, onde o masoquismo é considerado secundário em relação ao sadismo. Depois, em <em>Aqueles que fracassam no sucesso</em> (1916) o tema é retomado e seguido de <em>Uma criança é espancada</em> (1919) até chegar em duas obras mais específicas, como veremos.</p>



<p>Freud, que tem toda a sua teoria baseada na ambivalência &#8211; que é a coexistência de forças contrárias regidas por certos princípios do psiquismo (o do prazer: buscar prazer e evitar o desprazer); o da realidade (em que o ego adia a gratificação imediata dos desejos para atender às exigências do mundo externo); o da constância, de Fechner (o aparelho psíquico tende a reduzir as tensões em uma “tendência à estabilidade”) &#8211; irá dizer que sadismo e masoquismo não são opostos porque esses “princípios” não são excludentes, ao contrário, podem coexistir entre eles.</p>



<p>No texto curto e denso <em>O instinto e suas vicissitudes</em>, famoso pela questão da tradução de “triebe und triebschicksale”, instinto e seus destinos ou pulsão e seus destinos, Freud diferencia a pulsão do instinto, sugerindo que há algo entre o somático (corpo) e o mental (psiquismo) que é constante e interno, que independe de estímulos externos, ou seja, que não é instintual e que sofre uma pressão (<em>drang</em>) por satisfação, com uma finalidade (<em>ziel</em>), através de um <em>objekt</em> (objeto).</p>



<p>Nesse sentido, a pulsão é um conceito fronteiriço entre o corpo e a mente. Muito resumidamente, é uma força constante que nasce no corpo e pressiona a mente a buscar por uma satisfação, independentemente de estímulos externos.  </p>



<p>O desprazer aumenta esse estímulo interno, e o prazer o diminui. A finalidade então é eliminar o estado de estimulação na fonte, podendo haver caminhos intermediários constituindo satisfações parciais ou inibições. As mudanças pelas quais as pulsões passam ao longo da vida seriam as vicissitudes, e explicariam um masoquismo principal do qual derivaria o sadismo, onde a finalidade, a intenção da pulsão, era a de dominar (sadismo), mas que não podendo ser direcionada ao externo se internaliza e se transforma em dominação e dor autoinfligida.</p>



<p>Pode parecer complicado, mas estamos falando de um texto de 1915 que, de qualquer forma, busca ser científico do primeiro ao último parágrafo para entender, substancialmente, os porquês do gozo masoquista, ou melhor, por que há prazer no desprazer? E conclui de maneira labiríntica que as pulsões podem se modificar e interagir entre elas de maneira complexa. Nesse sentido, sadismo e masoquismo seriam um do outro, o reverso da mesma moeda.</p>



<p>Mais adiante, em <em>O Problema Econômico do Masoquismo</em> (1924), Freud empresta de Barbara Low a ideia do “Princípio de Nirvana”, segundo o qual todo desprazer deveria coincidir com um aumento, e todo prazer com uma diminuição da&nbsp;tensão mental devida a um estímulo. No texto referido, para entender o masoquismo, Freud está considerando o princípio do prazer como um vigia da nossa vida, pois o aparelho psíquico tende a reduzir a zero, ou ao mínimo possível, sua tensão interna. Sob essa ótica, a mente operaria em busca de uma economia psíquica voltada à estabilização absoluta de estímulos. O masoquismo surge, então, como um enigma, pois não haveria lógica na busca pela dor para a manutenção da vida. Percebe-se aqui o seu problema econômico: a existência de tensões que, em vez de evitadas, são buscadas por se tornarem fontes de prazer. Por qual razão o sujeito extrairia satisfação do infortúnio? Por que existem tensões prazerosas (como a excitação sexual) e, inversamente, sensações de alívio que só se alcançam através de estados profundamente desprazerosos (como a autoflagelação)?</p>



<p>Para resolver esse problema econômico, Freud então divide e analisa o masoquismo em três tipos: erógeno, feminino e moral.</p>



<p>O primeiro, o masoquismo erógeno (prazer na dor) está na base das outras duas formas, sendo de origem biológica e constitucional.</p>



<p>O segundo, o masoquismo feminino (que alguns traduziram como femíneo porque não tem relação com o gênero), tem a ver com a castração e a posição de passividade em relação ao outro.</p>



<p>O terceiro, o masoquismo moral, é inconsciente (ou seja, desconhecido) e tem a ver com o sentimento de culpa, com o supereu.</p>



<p>O que Freud conclui nesse texto é que existe um masoquismo primário (erógeno) onde a libido captura uma tendência autodestrutiva e erotiza a dor, o que permitiria que uma tendência autodestrutiva não fosse mortífera e se tornasse parte do funcionamento erótico.</p>



<p>Embora Freud não tenha sido explícito, ou melhor, tenha sido muito sucinto nesse outro texto curto e denso, ele traz a noção do princípio do Nirvana (ou da pulsão de morte) para a origem do problema da dor como guardiã da vida. Podemos ler hoje, que experiências de violência precoce ou desamparo podem se inscrever nesse terreno estrutural do masoquismo primário.   Mas não precisamos ir longe, sobretudo se não tivermos experiência clínica onde recorrentemente aparece, infelizmente, o abuso na mais tenra idade. Basta pensar que uma displicência ordinária, uma resposta não dada subitamente ao choro de um bebê, poderia ser percebida como violência ou desamparo. E então, transformar a dor em prazer tornar-se-ia um mecanismo de defesa e, mais que isso, de sobrevivência.</p>



<p>Em outras palavras, tem-se que o masoquismo sugere uma agressividade inicial que, não podendo ser expressa para fora, retornaria contra o próprio sujeito, dando a este a ideia de estar sob o controle da situação. É como dizer: “enquanto eu dependo do outro e o outro não vem ao meu socorro quando eu preciso, é melhor eu transformar essa dor, esse desamparo, em prazer.”</p>



<p>O ego, inconscientemente, precisa desse subterfúgio para sobreviver se as condições dadas colocarem em risco a própria vida. É a pulsão de morte como guardiã da vida.</p>



<p>Ao final deste texto freudiano, o masoquismo fica evidenciado como uma ambivalência de instintos que se origina na pulsão de morte e que, possuindo um significado erótico, até mesmo de destruição por si mesmo, aparece com vestes de satisfação libidinal.</p>



<p>Em ambos os textos analisados, temos que, no sentido freudiano, a expressão sadomasoquismo revela uma relação dialética em que uma perversão pode se transmutar na outra (vicissitude).</p>



<p>Freud observa que tendências sádicas e masoquistas podem coexistir no mesmo sujeito, com o sádico sendo também capaz de experimentar prazer na dor que inflige a si mesmo, e o masoquista podendo sentir prazer ao causar dor ao outro.</p>



<p>Em suma, Freud, em um texto e no outro nos dá a entender que causar e sofrer dor (assim como olhar e ser olhado no <em>voyeurismo</em>) são posições intercambiáveis, ao contrário de Deleuze que as vê completamente separadas por questões de lógica e de estética.</p>



<p><strong>5. Kant con Sade, Masoch e Lacan  </strong></p>



<p>Se fosse uma ópera: “Cante com Sade, Masoch e Lacan”, bem que poderíamos cantar os personagens, onde Kant diria:<br></p>



<p>&#8211; Faça com que seu desejo coincida com a moral da lei e dos bons costumes.<br>Sade, o libertino:<br>&#8211; Pelo contrário, ilustre Kant, faça de modos que o seu desejo possa romper com todas as leis.<br>Lacan, o analista, diria:<br>&#8211; Os senhores estão falando do mesmo, mas em sentido contrário: nem o eu, libertino, egoísta e sem lei; nem a lei, fria e impessoal. Tomem consciência de que o desejo vos atravessa e vos coloca frente ao risco e à finitude. É nele, nesse atravessamento, que reside a vossa liberdade.</p>



<p>É a ética psicanalítica, a ética do desejo, nem kantiana nem sadiana, mas a das pulsões, sejam estas de vida ou de morte que, juntando tudo, agora no resumo da ópera, significa a ética de fazer o que de melhor possível perante o real: a mortalidade da vida.</p>



<p>Talvez tenhamos complicado, mas o possível é o singular: cada caso é um caso. Então, vamos aos casos: Justine e Severin.</p>



<p><strong>6. Justine, a virtude em pessoa</strong></p>



<p><em>Justine, ou As Desgraças da Virtude</em>, de Marquês de Sade, é um romance de 1791 que conta a história de duas irmãs, Justine e Juliette, que, uma vez órfãs, seguem caminhos diferentes na vida. Justine, a virtuosa, mantém Deus no coração, enquanto Juliette entrega-se às mundanidades da vida.</p>



<p>O romance narra as provações de Justine, jovem inocente e piedosa que, mesmo na pior das situações que a vida lhe coloca, decide permanecer fiel aos princípios da virtude e da religião. Ao longo da história, porém, cada ato de bondade ou pureza a leva a novas tragédias: é explorada, enganada, abusada e injustiçada repetidamente. E o pior: seus algozes se dão muito bem, ficam cada vez mais ricos e sempre são premiados pela vida, em dinheiro e honrarias.</p>



<p>Em contraste, sua irmã Juliette, que escolhe uma vida de vícios, prazeres e corrupção, enriquece, conquista poder e alcança uma existência confortável.</p>



<p>Sade utiliza a oposição entre as duas irmãs para expor uma visão crítica, irônica e provocadora sobre a moralidade, a religião e a sociedade de sua época: no mundo real, o vício é recompensado e a virtude é castigada. Como quem diz: se o mundo é corrupto, o melhor a fazer é corromper-se.</p>



<p>Enquanto Juliette goza da <em>bella vita</em>, Justine goza das desgraças da virtude. No decorrer da trama, cada desgraça vivida sugere uma outra ainda pior, num jogo infantil que só a vítima não quer enxergar. Por que? Porque há um gozo masoquista aí.</p>



<p>O leitor antevê todos os males que Justine sofrerá, mas a jovem virtuosa segue seu gozo martírico, uma espécie de fé na humanidade. E quanto mais ela sofre, mais sua fé se fortalece. “Ou se é o martelo, ou se é a bigorna”, diz Severin de Masoch, e Justine decidiu ser a bigorna até as últimas consequências e diante de todas as evidências de suas escolhas erradas.</p>



<p>Justine encarnou a ética kantiana de cumprir um dever universal além dos interesses pessoais, e levou esse imperativo às últimas consequências, morrendo de maneira inesperada. Sade é extremamente irônico ao final da novela colocando a irmã, Juliette, em uma posição semelhante à de Severin de Masoch, que transitando de um lugar a outro, decide bater em vez de apanhar, enquanto Juliette, ao contrário mas igualmente, decide apanhar em vez de bater. Além dessa ambivalente vicissitude de sado a maso e de maso a sado, Justine e Severin têm algo muito em comum: a ideia do martírio, do gozo masoquista, do prazer no desprazer, do parecer passivo, mas ser ativo.</p>



<p><strong>7. Severin, macho nada <em>alpha</em></strong></p>



<p>Severin é um ultra-sensual (palavras dele em suas “confissões” &#8211; Sacher-Masoch, 1870, pp. 12), alguém que sonha as matriarcas de uma época, as deusas e líderes como Madame de Pompadour, Catarina II, Lucrécia Bórgia, Rainha Margot, Dalila e tantas outras citadas como musas inspiradoras, mulheres que “botavam o falo na mesa”. Severin, aparentemente, é o macho submisso, que se coloca voluntariamente aos desmandos da deusa matriarca.</p>



<p><em>A Vênus das Peles </em>foi escrito em 1870, época já patriarcal onde muitos homens, e desde aquela época até hoje, tiveram que tomar as rédeas da situação quando “bom mesmo” era obedecer. Parece estranho dizer isso, principalmente porque muito se critica o patriarcado hoje, mas existem homens (como Severin) que prefeririam o lugar da submissão. É compreensível se fizermos uma rápida análise de <em>Totem e Tabu</em>, (Freud, 1913). Segundo Freud, nossa sociedade é fundada na angustiante ambivalência entre matar o pai (ganhar liberdade e tomar o poder) mas perder a sua proteção. É como dizer: se quiser causar mal ao homem dê-lhe a liberdade. Nada mais angustiante que a liberdade. O homem não sabe o que fazer dela.</p>



<p>Muito resumidamente, o enredo de <em>A Vênus das Peles</em> (1870) gira em torno de Severin von Kusiemski, um homem que sente prazer em ser subjugado. Ele conhece Wanda von Dunajew, por quem se apaixona e com quem firma um contrato de servidão: aceita ser tratado como escravo, desde que ela use peles ao exercer o poder. As peles remetem às deusas e guerreiras que ele idolatra, e à surra que um dia levou de uma sua tia. Com o tempo, Wanda assume de fato esse papel dominador e capricha nos castigos ao ponto de exceder, permitindo que um de seus amantes açoite Severin. No final, Wanda se retira com esse amante e Severin chega ao seu limite. Anos depois, recebe uma carta de Wanda onde ela diz ter aceitado participar do “jogo” na intenção de curá-lo cruel e radicalmente do seu gozo masoquista (Sacher-Masoch, 1870 pp 79-80).</p>



<p>Ser curado do seu gozo masoquista são palavras nossas, não de Wanda, mas o essencial é isso, pois Severin se diz curado e resume sua história assim:</p>



<p>“A moral é que eu fui um burro (…) Se ao menos eu a tivesse açoitado! (…) Daí a moral da história: Quem se deixa açoitar merece os açoites.”</p>



<p>Justine e Severin têm algum muito em comum. Ambos são…</p>



<p><strong>8. Mártires (e levam tudo às últimas consequências)</strong></p>



<p>Justine, provavelmente, morre acreditando que vai para o céu (e de fato vai: deus a leva consigo num raio de luz), afinal, o mundo cruel não é para ela, tão casta, tão virtuosa. E Severin foi, em suas palavras, um mártir do amor. (Sacher-Masoch, 1870, pp 26).</p>



<p>O martírio está em polvorosa em ambas as obras porque a arte imita a vida. Vejamos bem: Hércules cumpre 12 trabalhos (castigos) para atingir um estado de redenção pelos males que cometeu (matou a família), para restaurar sua honra e sua moral. Muitos terapeutas usam no trabalho com tóxico-dependentes a jornada do herói, composta de 12 passos. O sacrifício está na ideia de redenção humana. Jesus se sacrificou por nós. A cultura masoquista está entranhada em nossas veias desde os primórdios, desde os gregos e romanos antigos, a história é sempre civilizatória no sentido kantiano: abdicar do desejo para um bem maior. Sade inverte, <em>a priori</em>, essa ordem, mas Lacan enxerga um fantasma em sua ópera Kant com Sade, ou ironizando: “Cante com Sade o Fantasma da Ópera”.</p>



<p>Quem é o fantasma da ópera? É a fantasia da imortalidade. Quando lemos a ética da psicanálise, lemos a ética do desejo, a ética de Eros, ou seja, a ética da pulsão de vida.</p>



<p>O masoquismo está muito ligado à pulsão de morte. Se em Freud, como mecanismo de defesa, como guardião da vida, uma espécie de narcisismo inclusive; em Lacan o masoquismo ocupa a posição de verdadeiro dominador, lobo em pele de cordeiro, que se faz se objeto de rejeito para ser comprado.</p>



<p>O masoquista é uma pessoa que sabe usar o poder do outro em seu próprio favor, para gozar da imagem martírica de si mesmo. Se o culpado é sempre o outro, o mundo cruel, o masoquista, mais do que limpo, sai mártir na história, sendo ainda capaz de encontrar um sádico que assume deliberadamente o papel de mau, de perverso, de fora da lei.</p>



<p>Para Lacan, a verdade sádica se revela somente no masoquista porque é na dor, e não no prazer, que as práticas sadomasoquistas permitem o êxtase para além do princípio do prazer.</p>



<p><strong>Conclusão</strong></p>



<p>O martírio é o gozo masoquista. É o fantasma da redenção, do sacrifício, da imortalidade da alma que esconde a mortalidade do corpo que, provavelmente, faz com que exista prazer no desprazer.</p>



<p>A mulher que apanha até morrer (enquanto não morre, resiste);<br>O dependente químico (só mais uma dose antes da derradeira);<br>O desgraçado, injustiçado, escravizado, a vítima mais vítima de todas que, como Justine, é incapaz de ver que está deliberadamente procurando por seus algozes, tampando o sol com a peneira, armando-se de todos os mecanismos de defesa do ego para manter sua imagem imaculada de mártir;<br>Os mártires da religião, aqueles que se sacrificam em nome de deus, buda, alá, que pulam fogueiras, que dormem em camas de espinhos…</p>



<p>É provável que todos esses masoquistas acreditem na redenção de suas almas. Gozam do olhar angustiado do outro, da pena do outro que lhes revela uma maldade genuína e comum em todos nós.</p>



<p>Esses jogos de poderes, que sobretudo nas relações de amor podem ser muito excitantes, são perigosos e, de fato, matam.</p>



<p>Há salvação. Há cura, pelo menos nas histórias que aqui analisamos. Justine morre porque levou seu gozo às últimas consequências, mas Severin se “cura”.</p>



<p>Ao final de ambas as histórias o que permanece é a ironia e a honestidade sádica: o mundo é sim injusto e perverso, mas ser masoquista não faz de ninguém um santo.</p>



<p>Freud explica que enquanto o masoquista se esforça para esconder os aspectos inquietantes e cruéis de sua personalidade, o sádico torturador esconde de si uma terrível falta, uma desmesurada fraqueza.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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</blockquote>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>DELEUZE, Gilles. O frio e o cruel. Disponível em: [http://pdf-objects.com/files/gilles-deleuze-masochism-coldness-and-cruelty-venus-in-furs.pdf](http://pdf objects.com/files/gilles-deleuze-masochism-coldness-and-cruelty-venus-in-<br>furs.pdf). Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>ESSE Psicologia. Perversione: i crociati dell’Altro \[vídeo]. Disponível em: [https://www.youtube.com/watch?v=-5HZfTnYHuY](https://www.youtube.com/watch?v=-5HZfTnYHuY). Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Al di là del principio di piacere. Torino: Bollati Boringhieri,<br>2023.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Totem e tabù. Torino: Bollati Boringhieri, 2023.</p>



<p>FREUD, Sigmund. Os instintos e suas vicissitudes. Disponível em: https://<br>dravni.co.il/wp-content/uploads/2014/05/Freud-S.-1915.-Instincts-and-their-<br>Vicissitudes.pdf. Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>FREUD, Sigmund. O problema econômico do masoquismo. Disponível em:<br>https://iepp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Freud-S-Problema-Economico-<br>do-Masoquismo-7.pdf. Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>LACAN, Jacques. Kant com Sade. Disponível em: https://londonsociety-<br>nls.org.uk/wp-content/uploads/kant-with-sade2.pdf. Acesso em: 26 set. 2025</p>



<p>MASOCH, Leopold von. A Vênus das Peles. Disponível em: [https:// www.supremaciafeminina.com.br/VENUSDASPELES.pdf](https://www.supremaciafeminina.com.br/VENUSDASPELES.pdf). Acesso em: 26 set.<br>2025.</p>



<p>SADE, Donatien Alphonse François de. Justine, ou os infortúnios da virtude. Disponível em:https:www.academia.edu/5565148/12Marques\_de\_Sade\_Justine](https://www.academia.edu/5565148/Marques_de_Sade_Justine). Acesso em: 26 set. 2025.</p>
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		<title>A Compulsão dos Dias. Um Caso Quase Clínico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jan 2025 13:11:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise com Crianças]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise e Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu era estudante de psicanálise e trabalhava em uma xexelenta loja de artigos infantis, imaginando que dias melhores viriam. A loja não era de todo ruim, mas a dona do negócio era uma acumuladora compulsiva. Até os sacos plásticos que embalavam as roupas e as caixas de sapatos que ninguém queria, ela pedia para eu [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Eu era estudante de psicanálise e trabalhava em uma xexelenta loja de artigos infantis, imaginando que dias melhores viriam. A loja não era de todo ruim, mas a dona do negócio era uma acumuladora compulsiva. Até os sacos plásticos que embalavam as roupas e as caixas de sapatos que ninguém queria, ela pedia para eu guardar e acumular em um pequeno espaço onde as traças faziam festa.</p>



<p>Clientes entravam clientes saíam, alguns trocavam ideias sobre banalidades, mas a maioria se abria para um papo mais profundo: &#8220;eu me separei quando meus filhos tinham 7 e 10 anos&#8221;; &#8220;meu marido morreu depois de muito sofrer com afasia&#8221; e por aí ia. Claro que, sendo uma loja de artigos infantis, a maioria das clientes era mulher.</p>



<p>Como psicanalista em formação (eterna, diga-se), eu me sentia a última bolacha do pacote com tantos corações aflitos em busca de um ouvido. Mas minha amiga varejista de décadas logo puxou meu tapete quando lhe contei sobre o dia a dia na loja: &#8220;amiga, as pessoas são carentes e o blá blá blá é típico do comércio.&#8221; Ok! Um banho de água fria nos meus devaneios, mas os dias iam me mostrando que a vida é uma clínica aberta.</p>



<p>Crianças rabujentas, imperadoras de mães e pais submissos era o que mais tinha, além de notícias do tipo: &#8220;vim comprar um presente para uma criança especial&#8230; que tem autismo&#8230;&#8221;</p>



<p>Mas um dia, um&nbsp;<em>causo</em>&nbsp;(causo mesmo, pois parece de mentira) surgiu à minha frente. Um menino de uns 8, 9 ou 10 anos de idade apareceu com sua mãe e seu pai. Procuravam sapatos para o moleque. De cara, o menino disse que queria uma galocha. A mãe: mas galocha você já tem. Eu quero uma galocha, eu quero uma galocha, bradava o pequeno príncipe. Ok! Te compro uma galocha, mas temos que ver um tênis para você ir à escola. Tenho sede, quero beber água, quero beber água, tenho sede, quero beber água. O menino deve ter vindo do Saara. O pai corre comprar água. Tem um supermercado aqui ao lado, recomendei.</p>



<p>Papo vai papo vem, ainda bem que nenhum outro chato apareceu no meio-tempo, e comecei a mostrar as opções de calçados à pequena majestade, o menino grande.</p>



<p>Quero beber quero beber. Enquanto eu não beber, eu não vou experimentar nenhum sapato. A essa altura, compreendi que o buraco era mais embaixo. E dá-lhe paciência. Bebi um gole d&#8217;água: você me causou sede, disse eu ao menino em uma intimidade não permitida se eu trabalhasse em uma loja uau!, mas como eu trabalhava em uma xexelenta, eu podia.</p>



<p>O pai chega com uma garrafinha d&#8217;água e qual a minha surpresa ao ver que a sede do menino não era de boca, era de mãos. Ele queria lavar as mãos. Ofereci o banheiro e nada. Ofereci esses lencinhos umedecidos e nada. Eu estava ali para vender o sapato e liguei o F. Oda-se. Mas o <em>causo</em> começou a ficar sério. O menino não apenas queria lavar as mãos, ele queria ver a água escorrer entra elas.</p>



<p>Que <em>causo</em> estranho, pensei. Deve ser o destino me perguntando se eu dou conta&#8230;</p>



<p>Sapato vai sapato vem e o menino, de uma lavada de mão passou a duas, três, quatro, uma a cada minuto. Mais, mais! Deixa escorrer! O menino queria ver a água pingada por sua mãe escorrer por suas mãos, e ela que enxugasse o chão com um lencinho de papel.</p>



<p>Eu não sabia como agir e muito menos o que dizer. Eu só queria vender logo e que esse povo saísse do meu horizonte antes que chegassem outros clientes que enrolassem menos e comprassem mais.</p>



<p>324 mais 451 quanto é? Oi? Nem me lembro da primeira cifra disse eu à mãe do menino: Nem eu, ela respondeu. O pai já tinha pulado fora sem que eu tivesse sacado sua ausência mais que esperada. A culpa dos problemas, em geral, é sempre da mãe. E ela que se vire nos 30, 40, 50&#8230;</p>



<p>775! Uau, você é mesmo muito bom em matemática (na verdade a conta era bem fácil, mas vamos fingir, pois tenho que vender). E aí foi, número vai número vem e o menino entre o fazer uma conta e outra, pergunta: mãe quanto dinheiro você já ganhou na vida? Tanto. Tannnnnto! E eu ali, tendo que aturar esse papo para ganhar um reles troco.</p>



<p>A obsessão do menino em lavar as mãos só aumentava, e no meio, ele colocava números, somas, cifras&#8230;. As coisas aqui são empoeiradas, disse eu sem mentir, pois falei desde o início que a loja era xexelenta e as traças faziam festa, mas eu tinha entendido o grau da situação e só quis aliviar para a rica-pobre mãe.</p>



<p>Você conhece o Cascão? Não? É um personagem das histórias em quadrinhos que, ao contrário de você, odeia água e a evita a todo custo. Bem que vocês dois fariam uma bela duplinha, e quem sabe equilibrariam as coisas&#8230; o aquecimento global, as enchentes contra as secas&#8230;.</p>



<p>Ninguém me ouviu (ainda bem, pois a ironia não é, de fato, um artifício que todos entendem).</p>



<p>Água vai água vem, o menino abraça a mãe e os dois olham para mim, tipo, faz uma foto! E eu fiz! A mãe com um olhar confidencial me disse: você vê por que eu não resisto?</p>



<p>Puta que te pariu e você que pariu essa majestade. Eu entendi muito, mas também entendi nada. Teria tanto a dizer e queria o mesmo tanto ajudar, mas não posso. Só posso levantar teorias:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>essa mãe roubou, foi processada enquanto estava grávida? Molhar as mãos é pagar propina no Brasil, e até onde eu sei, em outros países também é costume usar o mesmo ditado&#8230;</li>



<li>&#8220;Mãe, quanto dinheiro você ganhou? &#8220;Tanto!,&#8221; esse diálogo confirmava a minha teoria-mãe&#8230;</li>
</ul>



<p>Mas o fato é que eu tinha apenas suposições. Eu era pura psicanálise selvagem. Selvagem no sentido forte do termo, selvagem no desejo de investigar, de analisar a compulsão neurótica obsessiva no dia a dia naquele dia. Eu também obsessiva. Mas até lá eu era vendedora que no final, segurando a boca cheia de perguntas, consegui vender.</p>



<p>Mas as perguntas ficaram compulsando em mim: o que você tanto quer lavar? O que você tanto quer fazer escorrer nesse gotejar de água pura, que nem sede mata, mas te coloca na posição de dominar números na compulsão dos dias que escorrem feito matemática, como quem busca soluções para um problema difícil, digno de uma medalha Fields: contar as gotículas das gotículas da gota, até que as águas se rompam feito um parto de emergência&#8230;</p>



<p>A verdade é que os dias seguem na compulsão natural de seguirem. E outras compulsões virão. Como o dois vem depois do um. Como pessoas de corações aflitos&#8230; buscam orelhas de ouvidos abertos. A vida é clínica.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>
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		<title>O Eco de Narciso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 May 2024 19:07:01 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise e Arte]]></category>
		<category><![CDATA[freud]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Se tem um personagem da mitologia que hoje mais do que nunca, faz muito eco em todas as mídias, redes sociais e conversas mundo afora, este é o Narciso. Narciso, aquele jovem lindo, filho da ninfa Liríope e do deus-rio Cefiso, era destinado a morrer caso visse sua própria imagem. Seu destino tinha sido revelado [&#8230;]</p>
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<p>Se tem um personagem da mitologia que hoje mais do que nunca, faz muito eco em todas as mídias, redes sociais e conversas mundo afora, este é o Narciso.</p>



<p>Narciso, aquele jovem lindo, filho da ninfa Liríope e do deus-rio Cefiso, era destinado a morrer caso visse sua própria imagem. Seu destino tinha sido revelado pelo vidente Tirésias e sua mãe tentou o quanto pode distanciar Narciso do seu destino. O tempo passava e Narciso seguia encantando corações pela sua beleza. Um dia uma ninfa chamada Eco se apaixona por ele.</p>



<p>Eco é uma personagem fundamental na história de Narciso, da qual não ouvi nenhum psicanalista comentar (se alguém ouviu, por favor, comente!).</p>



<h2 class="wp-block-heading">Narciso e Eco: o mito</h2>



<p>O mito de Narciso tem algumas variações. Por exemplo, entre outros detalhes, dependendo da história, ele morre afogado ou de inanição ao ver a própria imagem. Mas o fato muitas vezes esquecido, ou pouco valorizado, é a presença desse Eco que acompanha Narciso apaixonadamente pelo bosque e não consegue, apesar do seu amor, evitar a sua morte.</p>



<p>Diz o mito que Eco era uma ninfa fofoqueira que entreteve Hera, esposa de Zeus, em uma conversa para que o deus dos deuses tivesse suas aventuras extraconjugais com as ninfas. Ao descobrir a trama, Hera rogou uma praga em Eco e essa nunca mais pode falar, senão repetir os últimos sons de uma palavra.</p>



<p>Um dia, Narciso se perde no bosque e Eco vai ao seu encontro para tentar ajudá-lo, mas o rapaz prepotente quando percebe o amor de Eco, despreza a ninfa que acaba morrendo definhada de tristeza. Nêmesis a deusa da vingança, vendo que Narciso não se importou minimamente com o amor da ninfa, decidiu que era hora de punir o rapaz, e fazer com que a profecia de Tirésias se concluísse.</p>



<p>Foi então que Narciso encontrou o lago límpido e se abaixou para beber água vendo sua própria imagem. Narciso então sofreu a mesma dor de amor que acabou por matar Eco, tendo ele também morrido por causa de um amor impossível, no caso, por ele mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O Narciso de Freud</h2>



<p>Sigmund Freud utiliza o mito de Narciso para descrever uma fase do desenvolvimento psíquico de cada um de nós. Todos somos, e devemos ser, narcisistas, porque o narcisismo nos permite existir. Para Freud, os bebês nascem sem um &#8220;eu&#8221; definido. Eles acreditam ser o mundo, e o mundo é eles. Conforme crescem, começam a perceber que não são o mundo, e o mundo não é eles, especialmente não são a mãe, com quem compartilharam um vínculo íntimo de vida desde a gestação. Esta é a fase do narcisismo primário. Posteriormente, surge o narcisismo secundário, quando a criança, após passar pela fase em que tudo é ela, autossuficientemente ela, começa a entender que precisa do outro e projeta sua libido em outras pessoas ou objetos, buscando gratificação e validação externa.</p>



<p>Aí entra o narcisismo que dizem hoje: o da &#8220;validação externa&#8221; a todo custo, o que é fundamental para uma criança; em um adulto pode ser problemático. Hoje não somos mais narcisistas que ontem, a questão é quantitativa e hoje, as redes sociais, a tecnologia digital, facilitou a exacerbação do nosso narcisismo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O narcisismo clichê</h2>



<p>O narcisismo clichê que a gente ouve por aí não tem a ver apenas com vaidade e com a vontade de ser o centro das atenções, o que faz parte da nossa constituição psíquica. Mas o narcisismo clichezão é a vaidade extrema, usada para manipular e subjugar o outro. Por isso, o narcisismo acaba sendo confundido com psicopatias e perversões. Não que psicopatas e perversos não possam ter suas doses de narcisismo, a questão é que todos nós temos também nossas doses de amar um espelho.</p>



<p>Mas não era essa a intenção do meu texto, e sim falar de Eco, a esquecida, mas tão presente ninfa, que faz ecoar esse mito como um dos maiores problemas da sociedade atual.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Onde é que Narciso se esconde?</h2>



<p>Narciso, além do clichê, é um cara sozinho com sérias dificuldades relacionais. Ele se basta sozinho, ele controla tudo, ele controla inclusive seus sentimentos, não se apaixona, não sofre, enfim, não se relaciona com o outro. Pode ser medo de não se ver espelhado como se imaginou, pode ser medo se sentir o próprio eco que o outro lhe devolve? Narciso não ouve a própria voz, Narciso despreza Eco que é ele mesmo. Narciso é só imagem, é preocupação com a gratificação e a validação externa, enquanto ele mesmo se esconde.</p>



<p>Para mim, a história de Eco se casa perfeitamente com a psicanálise, pois a psicanálise é de qualquer modo um eco na voz do analisante. O fim de quem não se ouve e só vê a própria imagem é trágico, e é isso o que mais se vê por aí&#8230; </p>



<p>E aí, de fato, tem um clichezão, pois a imagem que todos passam é igual, não tem eco, não tem subjetividade, não tem a própria voz. Assim, toda pessoa sarada, rica e egocêntrica é carimbada de narcisista.</p>



<p>Para finalizar, deixo um grito, esperando que ecoe: Volta Eco e salva Narciso desse espelho!</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>
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		<title>Um Rato no Oceano: quando Freud e Clarice se encontram num conto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 May 2024 18:59:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise e Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Clarice Lispector]]></category>
		<category><![CDATA[felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[freud]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[sentimento oceânico]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em tom singelo singular de primeira pessoa, devo confessar o quão difícil é juntar dois gênios da humanidade em um só pensamento. Mas como Deus está em tudo, em uma nesga de mar entrevi Freud e Clarice dialogando, graças à sugestão de nosso querido professor Elias Farias, psiquiatra e psicanalista. –&#160;Tem um rato no oceano [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em tom singelo singular de primeira pessoa, devo confessar o quão difícil é juntar dois gênios da humanidade em um só pensamento. Mas como Deus está em tudo, em uma nesga de mar entrevi Freud e Clarice dialogando, graças à sugestão de nosso querido professor Elias Farias, psiquiatra e psicanalista.</p>



<p>–&nbsp;<em>Tem um rato no oceano –</em>&nbsp;disse Clarice a Freud, contando-lhe um sonho.</p>



<p>É impressionante como a arte e a psicanálise se mesclam de maneira inseparável. Ambas desbravam almas e nessa descoberta, resta, apenas catarse.</p>



<p>No conto ‘Perdoando Deus’, vemos Clarice Lispector tendo a nobre sensação do <a href="https://lalettre.com.br/o-que-significa-sentimento-oceanico/">sentimento oceânico</a> descrito por Freud em seu&nbsp;<em>O</em>&nbsp;<em>Mal-estar na civilização</em>. &#8220;A mãe de Deus&#8221;, como se percebe Clarice, de repente sente aquela leveza típica de quem se une ao todo. Mas Deus, maravilhoso, bom e perfeito é, na verdade, cruel. Sim, cruel! Pois colocou um rato no caminho de uma musofóbica (μῦς, do grego&nbsp;<em>mouse</em>, rato; e fobia, medo).</p>



<p>O mundo é assim: belo e bruto, suave como a brisa do mar e pesado como o sangue que da morte escorre. E como Deus, onipresente, onipotente, onisciente está em tudo, está também no sangue do rato dilacerado.</p>



<p>Pois é preciso abarcar esse rato no oceano de águas límpidas e cristalinas, mas com seu sangue vermelho vivo, é capaz de atrair predadores; quais predadores? O EU predador, este também contido em Deus, pois tudo é Deus.</p>



<p>Eis que Clarice lança uma frase muito freudiana em seu conto:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>&#8220;Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala.&#8221;</p>
</blockquote>



<p>Ou seja, a distância entre o eu e o outro é tão opaca quanto a distância entre eu e mim mesma. Isso é o inconsciente, o oceano inconsciente onde as coisas não têm sentido: tem um rato no oceano.</p>



<p>Em vez de morto, o rato está vivo. Em vez de vivo, está morto, dilacerado de sangue na nesga, na sarjeta, no fio fino que nos separa do outro (se é que nos separa).</p>



<p>–&nbsp;<em>E como é esse rato?</em>&nbsp;– pergunta Freud a Clarice&#8230;</p>



<p>–&nbsp;<em>Esse rato sou eu</em>&nbsp;– responde a escritora&nbsp; –&nbsp;&nbsp;<em>Meu Deus, esse rato sou eu!</em></p>



<p>&#8220;Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe&#8221;, conclui Clarice perdoando Deus por ter-lhe mostrado que tem um rato no oceano, no lindo sentimento oceânico que une todos os homens e ainda proclama: amai-vos uns aos outros, amai-vos a quem vos odeia, as cobras, as baratas e os mosquitos. Amai também os ratos!</p>



<p>Esse conto bem representa o que seria a Felicidade Clandestina&#8230; Freudiana!</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Se este tema despertou sua curiosidade sobre a psicanálise, conheça nossa <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise/">Formação em Psicanálise</a> — um percurso sério, acolhedor e pensado para quem quer ir além.</em></p>
</blockquote>



<p><strong>Fontes:</strong></p>



<p>Freud, Sigmund (2010). O Mal-estar na Civilização In S. Freud, Obras completas(P. C. de Souza, Trad., Vol. 18). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1930).</p>



<p>Lispector, Clarice. “Perdoando Deus.” In: Lispector, Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de<br>Janeiro: Rocco, 1998, p. 41–45.</p>



<p><strong>Leia também:</strong></p>



<p><a href="https://lalettre.com.br/se-fosse-vivo-o-que-freud-nos-diria-hoje-sobre-como-ser-feliz/">O que Freud diria hoje sobre felicidade e ser feliz</a></p>



<p><a href="https://lalettre.com.br/nunca-dominaremos-completamente-a-natureza-o-mal-estar-na-civilizacao-capitulo-3/">Nunca dominaremos completamente a natureza. O Mal-estar na Civilização, capítulo 3</a></p>



<p><a href="https://lalettre.com.br/a-complexidade-do-edipo-muito-alem-do-seu-complexo/">A complexidade do Édipo muito além do seu complexo</a></p>
<p>O post <a href="https://lalettre.com.br/um-rato-no-oceano-quando-freud-e-clarice-se-encontram-num-conto/">Um Rato no Oceano: quando Freud e Clarice se encontram num conto</a> apareceu primeiro em <a href="https://lalettre.com.br">Instituto La Lettre | Psicanálise</a>.</p>
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		<title>A complexidade do Édipo muito além do seu complexo</title>
		<link>https://lalettre.com.br/a-complexidade-do-edipo-muito-alem-do-seu-complexo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Psicanalista Patricia Alcantara]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Apr 2024 22:00:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise e Arte]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[complexo de Édipo]]></category>
		<category><![CDATA[freud]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para o senso comum, o complexo de Édipo é um conceito que explica, entre outras coisas, como e por que um homem se apaixona por uma mulher que se parece com sua mãe. Pode ser ao contrário, demonstrando as preferências sexuais da mulher por parceiros que lembrem seu pai ou irmãos. Esse é o retrato [&#8230;]</p>
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<p>Para o senso comum, o complexo de Édipo é um conceito que explica, entre outras coisas, como e por que um homem se apaixona por uma mulher que se parece com sua mãe. Pode ser ao contrário, demonstrando as preferências sexuais da mulher por parceiros que lembrem seu pai ou irmãos. Esse é o retrato popular do Édipo, juntamente, é claro, com o parricídio e o incesto, comportamentos tidos como perversão e criminalidade. Mas o Édipo é complexo, e vai muito além disso.</p>



<p>Uma análise profunda a esse respeito é feita por Marco Antonio Coutinho Jorge em seu Fundamentos da Psicanálise, volume 2. Obra a qual recomendamos fortemente a leitura.</p>



<p>Coutinho Jorge faz uma releitura da tragédia Édipo rei, de Sófocles, confrontando dois pontos de vista: o de um historiador (Jean- Pierre Vernant) e o de um psicanalista (Didier Anzieu). Dessa mistura de olhares, nasce um Édipo tão rico, que o senso edípico popular (e até o psicanalítico comum) ficam extremamente reduzidos. Em outras palavras, matar o pai e transar com a mãe é uma interpretação absolutamente redutora. Podemos ir muito além e usar esse paradigma para pensar outras questões, inclusive atuais.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Quem era Édipo?</h2>



<p>Sua história é contada na peça de Sófocles, a qual se inicia com o povo aclamando pelo fim de um período de calamidades em Tebas, cidade onde o rei Édipo governa. Como ele se torna rei naquele lugar, vai se desenrolar na trama. Édipo pede ao cunhado, Creonte, consultar o oráculo no templo de Apolo para saber o que fazer para salvar o povo do sofrimento. O oráculo responde que aquelas terras precisavam ser lavadas do sangue do assassinato de Laio, o príncipe que reinava naquele lugar antes de Édipo. Era preciso encontrar seu assassino.</p>



<p>O assassino de Laio, que sabemos muito bem quem é, vai entrando em um labirinto de descobertas onde alguns personagens, como o Coro e o Corifeu, nos dão a impressão de que Édipo conversa respectivamente com seu inconsciente e com seu superego. O Coro que coloca panos quentes enquanto a verdade vai se descobrindo, e o Corifeu que pede cautela e justiça. Mas isso é apenas uma das tantas interpretações que podemos dar. Há outras, a de que, por exemplo, seja o Oráculo o inconsciente, uma metáfora muito interessante no desvendar desse mistério, afinal, o grande enigma inicial e fundamental que Coutinho Jorge coloca é: Édipo sabia que era filho adotivo?</p>



<h2 class="wp-block-heading">Saber sem saber que sabe</h2>



<p>Tudo começa com essa pulga atrás da orelha e é o próprio Édipo quem nos conta de sua desconfiança em um diálogo com Jocasta, sua mãe e esposa, no auge da trama, a poucos passos do desvendar da tragédia.</p>



<p>Édipo diz ser filho de Políbio e Mérope, rei e rainha de Corinto. Quando jovem, um dia em uma festa, um convidado bêbado diz que Édipo era filho adotivo. Desconfiado, Édipo pergunta a seus pais e estes negam veementemente a hipótese. Não convencido da resposta, Édipo se dirige no dia seguinte ao oráculo de Delfos para desfazer suas dúvidas. Mas o oráculo não responde diretamente, diz apenas que Édipo assassinaria seu pai e se casaria com sua mãe. É nesse momento que Édipo decide escapar e fugir de Corinto mas, durante a fuga, encontra-se exatamente com seu destino.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Uma questão de origem</h2>



<p>E é assim que os destinos se encontram nas encruzilhadas da vida. Aquela história que seríamos todos filhos dos desejos desejados, ainda que esses desejos tenham sido amaldiçoados.</p>



<p>Laio&nbsp;era filho de Lábdacos, rei de Tebas assassinado por tiranos. Com a morte de seu pai, órfão e sobrevivente aos dois anos, Laio é abandonado na terra do rei Pelopes que o adota e o trata como filho. Mas um dia, o rei entrega Crísipo, seu filho adolescente, para Laio já adulto educar. Laio se apaixona pelo irmão adotivo e o rapta.</p>



<p>Pelopes lhe lança uma maldição: “Se tiveres um filho, ele te matará e toda a tua descendência desgraçada será.” Quando Jocasta, mulher de Laio, fica grávida, o marido decide matar o bebê com medo que a maldição de seu pai adotivo se realizasse. Mas o bebê, ironia do destino, não morre e será adotado por um rei e uma rainha. Ou seja, Laio, assim como Édipo, também foi uma criança abandonada, pega em adoção por um casal da realeza.</p>



<p>Um detalhe interessante era que Lábdacos, pai de Laio e avô de Édipo, era&nbsp;manco, um traço que o aproxima de seu neto, cujo nome,&nbsp;<em>Oidípous,</em>&nbsp;significa em grego, pés inchados. E o menino Édipo, de fato, tinha sido amarrado pelos pés e abandonado em uma árvore para morrer, levando consigo o claudicar como marca histórica.</p>



<p>Então, Laio que perdera seu pai ainda bebê e foi salvo por Pelopes, infringindo a lei dos deuses e dos homens ao trair o pai e seduzir o irmão, foi destinado a pagar por seu crime na mesma moeda.</p>



<p>Mas quem era esse destino?&nbsp;De onde vinham esses castigos? Dos deuses ou do próprio inconsciente?&nbsp;São muitas as simbologias contidas nessa trama, não à toa Freud a escolheu como paradigma.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A herança psíquica</h2>



<p>A história de Édipo é um drama com traições, mentiras, assassinatos, incestos e parricídio. Não teria sido um clássico se não espelhasse o homem em sua dinâmica familiar. A trama explica o &#8220;destino&#8221; das histórias que se repetem como se veredictos fossem, como se as palavras ecoassem de geração em geração, estruturando sentenças.</p>



<p>Édipo repete a história do pai que repete a do avô. Quantas vezes isso é visto na clínica? Pois a complexidade de Édipo vai muito além de seu próprio complexo.</p>



<p><strong>Sugestões de Leitura:</strong></p>



<p>SÓFOCLES. Édipo Rei – Antígona. São Paulo: Martin Claret Editora, 2007.</p>



<p>COUTINHO JORGE, Marco Antonio.&nbsp;<em>In</em>: O saber de Édipo. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan, v. 2: a clínica da fantasia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. p. 186-198.</p>
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		<title>Por que a arte é fundamental para o exercício da Psicanálise?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Psicanalista Patricia Alcantara]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Apr 2024 21:31:42 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Psicanálise e Arte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Psicanalistas precisam ler, precisam assistir filmes, ver mostras, espetáculos, precisam se alimentar de forma onívora da produção artística em geral. Por que? Porque os artistas são os pioneiros na análise da alma (psique) humana.  Todo mundo deve ter ouvido falar que Sigmund Freud, o pai da psicanálise, era ávido leitor de Fiódor Dostoiévski, tanto que, [&#8230;]</p>
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<p>Psicanalistas precisam ler, precisam assistir filmes, ver mostras, espetáculos, precisam se alimentar de forma onívora da produção artística em geral. Por que? Porque os artistas são os pioneiros na análise da alma (psique) humana. </p>



<p>Todo mundo deve ter ouvido falar que Sigmund Freud, o pai da psicanálise, era ávido leitor de Fiódor Dostoiévski, tanto que, há vozes uníssonas de que o escritor russo é o grande precursor de Freud.&nbsp;</p>



<p>Em toda obra freudiana, assim como nos livros de psicanalistas importantes, há referências artísticas. A arte espelha o comportamento, o pensamento, as ambições e os medos do homem em seu tempo e espaço. Ou seja, a arte é um retrato histórico refinado, que vai além dos fatos e pesca as sensações, o espírito do tempo &#8211; Zeitgeist &#8211; termo que ficou conhecido em um obra de Hegel, e significa o conjunto de ideias e crenças, o clima intelectual, sociológico e cultural que definem uma época.</p>



<p>Brasileiros têm boas referências&nbsp; de artistas que desbravaram nossa alma. Machado de Assis e Clarice Lispector sem sombra de dúvidas não podem deixar de ser mencionados, seja pelo estilo que pela profundidade de suas obras. Mas isso é, digamos, o fundamental na obra literária brasileira.</p>



<p>Também na música, nas artes plásticas, na dança e na arquitetura, o brasileiro tem ótimas referências a quem se socorrer, em caso de dúvida humana. E não estamos falando de erudição, de grandes concertos, de teatros e óperas. Toda expressão artística é um espelho de sua época, inclusive o funk e o sertanejo, que muita gente diz que não é arte.&nbsp;</p>



<p>Se a palavra psicanálise significa análise da alma, um psicanalista em boa forma se alimenta de arte. É um imperativo não no sentido do &#8220;tem que&#8221;, mas no sentido da necessidade, como comida e água são para o corpo.</p>



<p>Além de Freud, Jacques Lacan também é conhecido pela grande e fundamental referência artística contida em toda sua teoria, além da filosofia, é claro, que é a base de tudo, afinal, o que são os diálogos e as tragédias gregas senão obras de arte em estado puro?</p>



<p>Para finalizar, lembramos que a arte, além de refletir seu tempo, é, muitas vezes, a melhor expressão de uma alma em aflito, o que na psicanálise dá-se o nome de &#8220;sublimação&#8221;, <a href="https://www.etimo.it/?term=sublimare">do latim</a> <em>sublimare</em> (elevar) ao <em>sublimis</em> (alto).</p>



<p>Viva a psicanálise: viva a arte!</p>
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