Em janeiro de 1908, um menino de Viena, perto de completar cinco anos, passa a ter medo de sair à rua. Teme que um cavalo o morda. Teme também que os cavalos caiam, sobretudo os que puxam carroças pesadas. Freud o chamou de Pequeno Hans. Seu nome era Herbert Graf, e o caso foi publicado em 1909 com o título Análise da fobia de um garoto de cinco anos.
É o primeiro caso de psicanálise com uma criança, e tem uma particularidade que o torna único: Freud quase não viu o menino. Quem conduziu o tratamento foi o pai.
O lugar do caso na obra de Freud
Em 1905, nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud tinha afirmado algo que escandalizou a Viena da época: a criança tem uma vida sexual. Ela sente prazer no próprio corpo, pesquisa, formula teorias sobre de onde vêm os bebês. Mas essa afirmação vinha quase toda da reconstrução feita com adultos em análise. Faltava escutar a sexualidade infantil diretamente, numa criança.
Freud pediu aos seus colaboradores que observassem os próprios filhos. Max Graf, crítico de música que frequentava as reuniões das quartas-feiras na casa de Freud, passou a anotar as falas de Hans desde que o menino tinha três anos. Parte desse material já aparece em Sobre as teorias sexuais infantis, de 1908. Quando a fobia surgiu, as notas já existiam, e o tratamento pôde começar a partir delas.
Um tratamento conduzido pelo pai
O tratamento se deu assim: o pai conversava com Hans, escrevia o que o menino dizia e levava as notas a Freud, que as comentava e devolvia orientações. A mãe de Hans havia sido paciente de Freud. O caso é, em boa parte, o registro dessas conversas, com as falas do menino transcritas quase literalmente, e é isso que lhe dá uma vivacidade rara na obra freudiana.
Freud encontrou Hans uma única vez, em 30 de março de 1908. Disse ao menino que, muito antes de ele nascer, já sabia que viria ao mundo um pequeno Hans que gostaria tanto da mãe que teria medo do pai. No caminho de volta, Hans perguntou ao pai se o professor conversava com Deus, já que sabia tudo antes.
O que veio antes do medo
Algumas cenas se acumulam antes da fobia. Hans se interessa muito pelo seu “faz-pipi”, palavra dele, e quer saber quem tem um e quem não tem: a mãe, a vaca, o leão do zoológico, a locomotiva. Aos três anos e meio, a mãe o surpreende tocando-se e ameaça chamar o médico para cortar. Hans responde, tranquilo, que então faria pipi com o bumbum.
Na mesma época nasce sua irmã, Hanna. A história da cegonha não o convence: ele viu as bacias de água e o sangue no quarto, ouviu os gemidos da mãe. Hans elabora sua própria teoria, em que os bebês nascem como os excrementos, e passa a se interessar pelo que sai do corpo. Também teme que a mãe o deixe cair na banheira, como talvez ele desejasse que ela deixasse cair a irmã.
Hans dorme às vezes na cama da mãe e reclama quando o pai o tira de lá. Pouco antes de a fobia se instalar, acorda chorando de um sonho em que a mãe tinha ido embora e ele ficava sem ninguém para fazer carinho. Depois, num passeio com a babá, vê um cavalo que puxava um ônibus cair e se debater. O medo se fixa ali.
Os cavalos e as fantasias de Hans
Freud lê a fobia como um deslocamento. O medo do cavalo está no lugar de um medo que não se podia dizer: o medo do pai, rival na disputa pela mãe, e o medo da castração. Os antolhos e o preto ao redor da boca dos cavalos, que Hans descreve com precisão, lembravam os óculos e o bigode do pai. Os cavalos que caem são também o pai que Hans, às vezes, desejava ver cair.
O cavalo tem ainda outros sentidos. A carroça carregada, pesada, lembra a barriga da mãe grávida, cheia como uma caixa. O tombo do cavalo se aproxima do parto, da cena barulhenta em que a irmã chegou. Um único objeto condensa vários medos e vários desejos, e é por isso que ele se impõe com tanta força.
A fobia tem uma vantagem: um medo localizado num cavalo pode ser evitado. Basta não sair de casa. E não sair de casa é ficar com a mãe.
Ao longo do tratamento, Hans produz uma série de fantasias que Freud trata como um trabalho de elaboração. Numa delas, há duas girafas, uma grande e uma amassada. A grande grita porque Hans tirou dela a amassada e se sentou em cima. Em outra, Hans imagina a irmã dentro de uma caixa, viajando com a família antes mesmo de nascer.
A última é a do encanador. Ele chega, desparafusa o traseiro de Hans e coloca outro, e depois faz o mesmo com o faz-pipi, trocando-o por um maior. Com essa fantasia, Hans encontra uma saída: ser como o pai, em vez de ter de eliminá-lo. Logo depois imagina que é pai dos próprios filhos e que o seu pai pode se casar com a avó. A fobia cede.
O que Freud conclui com o caso
Freud tira do caso conclusões de alcance. A primeira é que a neurose da criança obedece aos mesmos mecanismos da neurose do adulto. Não há uma psicologia à parte para a infância: o recalque, o deslocamento, a formação de sintoma já estão ali.
A segunda é um nome. Freud chama esse tipo de fobia de histeria de angústia. Primeiro aparece uma angústia sem objeto, livre, que o menino não sabe de onde vem. Depois ela se fixa num objeto do mundo, o cavalo, e o sujeito passa a organizar a vida para evitá-lo. O sintoma é uma tentativa de dar um lugar à angústia.
A terceira é a ambivalência. Hans ama o pai e o odeia ao mesmo tempo, e é essa coexistência, insuportável para ele, que precisa ser recalcada. O conflito não é entre amar e odiar pessoas diferentes, mas entre amar e odiar a mesma pessoa.
Freud voltaria a Hans em 1926, em Inibição, sintoma e angústia, para corrigir a própria teoria. Antes, ele pensava que o recalque produzia a angústia. Relendo o caso, conclui o contrário: é a angústia de castração que põe o recalque em marcha. Hans recalca o ódio ao pai porque teme perder o faz-pipi.
Num pós-escrito de 1922, Freud conta que recebeu a visita de Hans, já com dezenove anos. Estava bem, tinha atravessado sem dificuldade a separação dos pais, e não se lembrava de nada do que tinha vivido. Ao ler o caso, não se reconheceu nele. Herbert Graf se tornaria diretor de ópera.
A releitura de Lacan: o cavalo como significante
Lacan dedica boa parte do Seminário 4, A relação de objeto (1956-1957), ao Pequeno Hans. Sua leitura desloca o caso do medo do pai para a função do pai.
Até certo momento, Hans pode se oferecer à mãe como aquilo que a completa. Duas coisas desfazem esse arranjo: o nascimento da irmã e as primeiras sensações do próprio corpo, que Hans não sabe onde situar. O menino descobre que não basta para a mãe, e que o desejo dela aponta para outra coisa. Esse é o momento da angústia.
O que deveria responder a essa angústia é a intervenção do pai, aquela que separa a criança da mãe e dá um nome ao que falta. Para Lacan, o pai de Hans é gentil, atento, dedicado, mas não ocupa esse lugar. Não interdita, não se zanga, não separa. Não por acaso, o único encontro com Freud tem o efeito de uma intervenção paterna: alguém de fora diz ao menino qual é a sua posição na história.
É aí que entra o cavalo. Na leitura de Lacan, o cavalo é um significante que vem suprir essa função que falha. Ele organiza o mundo de Hans, traça um limite, diz onde se pode e onde não se pode ir. A fobia não é só um sintoma a eliminar. É uma construção que dá ao menino um ponto de apoio enquanto outra resposta não chega.
Lacan também lê as fantasias de Hans como variações de um mesmo mito, permutações em que os elementos trocam de lugar até encontrarem uma solução. O encanador da última fantasia faz o que o pai não fez.
O que o caso diz a quem escuta crianças
O Pequeno Hans continua sendo uma referência para a clínica com crianças por mostrar que o sintoma infantil tem uma lógica, e que essa lógica se escuta na fala da própria criança, nas suas perguntas, nas suas teorias e nos seus medos.
Mostra também que uma criança não chega sozinha. Chega dentro de uma família, de um desejo que a antecede e de um lugar que outros já lhe deram. Escutar Hans foi também escutar o que se passava entre ele, a mãe e o pai.
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Referências
- FREUD, S. (1909). Análise da fobia de um garoto de cinco anos.
- FREUD, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.
- FREUD, S. (1926). Inibição, sintoma e angústia.
- LACAN, J. (1956-1957). O Seminário, livro 4: A relação de objeto.




