Em fevereiro de 1910, um jovem aristocrata russo de 23 anos chega a Viena incapaz de viver sem alguém que o vista, o acompanhe e decida por ele. Já havia passado por vários médicos e sanatórios, e trazia um diagnóstico de psicose maníaco-depressiva. Freud discordou do diagnóstico e o tomou em análise. Chamou-o de Homem dos Lobos. Seu nome era Serguei Pankejeff, e o caso, escrito no inverno de 1914, foi publicado em 1918 como Da história de uma neurose infantil.
O título diz o essencial. Freud trata o adulto, mas o que escreve é a história da neurose da criança que ele foi.
O lugar do caso na obra de Freud
O texto foi escrito logo depois das rupturas com Adler e com Jung, que naquele momento relativizavam a sexualidade infantil e preferiam ler os sintomas por outras chaves: a vontade de poder, no caso de Adler, ou os arquétipos e as tarefas do presente, no caso de Jung. Freud responde com o caso mais minucioso que publicou. Cada passo da reconstrução é uma demonstração de que a neurose do adulto se ancora em acontecimentos e fantasias da infância, e de que esses acontecimentos são sexuais.
É também um caso sobre o tempo. Freud não está interessado só em saber o que aconteceu, mas em quando aquilo produziu efeito, e isso o leva a formular com clareza uma das ideias mais originais da psicanálise.
Uma infância povoada
Pankejeff cresceu numa propriedade rural na Rússia, cercado de babás, governantas e criados. Freud reconstrói com ele uma sequência de cenas. Aos três anos, a irmã mais velha, Anna, o seduziu, tomando seu pênis nas mãos. Pouco depois, o menino tentou repetir a cena com a babá, que o repreendeu e disse que crianças que fazem isso ganham uma ferida ali. Uma ameaça de castração, como tantas outras naquela casa.
O menino muda de caráter. Fica irritável, violento, tem crises de raiva, e passa a atormentar pequenos animais. Depois vem o medo. Ele não suporta ver a ilustração de um livro em que um lobo aparece de pé, caminhando. A irmã se diverte mostrando a imagem só para vê-lo gritar.
O sonho dos lobos
Pouco antes de completar quatro anos, numa noite de Natal, que era também o seu aniversário, o menino sonha. É noite, ele está deitado. A janela se abre sozinha e ele vê, numa nogueira em frente, seis ou sete lobos brancos sentados nos galhos, imóveis, com caudas grossas como as das raposas e as orelhas em pé, olhando para ele. Acorda gritando, com medo de ser devorado.
Freud trabalha o sonho durante anos de tratamento. Algumas associações vêm de histórias que o avô contava, como a de um alfaiate que arranca a cauda de um lobo. Outras vêm da imagem do livro. Mas o que Freud procura é aquilo que o sonho transforma. A imobilidade dos lobos, para ele, está no lugar de um movimento intenso. O olhar fixo dos lobos está no lugar de um olhar fixo do próprio menino. O sonho inverte o que foi vivido.
Depois do sonho, a fobia de lobos se instala. Mais tarde, por volta dos cinco anos, a mãe lhe apresenta a história sagrada, e o menino desenvolve uma devoção cheia de rituais, que convive com pensamentos blasfemos que ele não consegue afastar. Antes de dormir, beijava todas as imagens de santos do quarto. Freud acompanha essa sequência, da angústia à fobia e da fobia à neurose obsessiva, como quem reconstitui a arquitetura de uma infância.
A cena primária e o “só depois”
O trabalho sobre o sonho leva Freud a reconstruir uma cena anterior. Com um ano e meio, doente de malária, o menino dormia no quarto dos pais. Numa tarde de verão, teria acordado e visto os pais numa relação sexual, repetida três vezes. O que o sonho mostra imóvel, a cena tinha de movimento; o que o sonho mostra olhando para ele, era ele quem olhava.
O ponto decisivo não é se a cena aconteceu tal como Freud a descreve. Ele mesmo admite, numa longa discussão, que ela pode ter sido composta a partir de outras impressões, como a observação de animais no campo, e conclui que não pode decidir a questão. O decisivo é que uma cena vista sem compreensão aos dezoito meses só ganha efeito anos depois, quando o menino já tem perguntas sobre o sexo e sobre a diferença entre os sexos, e já ouviu as ameaças de castração.
Freud chama isso de Nachträglichkeit, o “só depois”. O passado não age por si. Ele age quando é relido a partir de um momento posterior, que lhe dá um sentido que antes não tinha. É aos quatro anos, na noite do sonho, que a cena dos dezoito meses se torna traumática.
Os detalhes que falam
O caso é cheio de pequenas cenas em que um detalhe carrega uma história inteira. Pankejeff tinha medo de uma borboleta com listras amarelas. A associação leva a uma criada chamada Grusha, que ele viu, ainda pequeno, ajoelhada no chão, esfregando o piso. Em russo, Grusha também é o nome de uma pera de listras amarelas. A posição da criada repetia a posição da cena primária, e o menino, diz Freud, urinou no chão diante dela.
Em outro momento, conta um sonho em que arrancava as asas de uma vespa, que em alemão ele pronunciava “Espe”. Freud ouve ali as iniciais do próprio paciente, S. P. O sonho mutila a si mesmo.
E havia o véu. Desde sempre Pankejeff sentia que o mundo estava encoberto por um véu, que só se rasgava depois de uma lavagem intestinal. Ele tinha nascido empelicado, isto é, com a membrana do parto cobrindo a cabeça, o que na tradição popular era sinal de sorte. O véu dizia ao mesmo tempo da sorte, do nascimento e do desejo de voltar ao ventre.
O dedo cortado
Uma lembrança dos cinco anos ganhou uma importância que Freud talvez não tenha medido inteiramente. Brincando com um canivete perto da mesma nogueira do sonho, o menino vê de repente que cortou o dedo mínimo, que fica pendurado apenas pela pele. Não sente dor, mas um terror enorme. Senta-se num banco sem conseguir olhar e sem conseguir dizer nada à babá. Quando olha, o dedo está intacto.
Freud diz que, diante da castração, o menino não a recalcou. Rejeitou-a, como se não quisesse saber nada dela. A palavra que ele usa é Verwerfung. E acrescenta que, ao lado dessa rejeição, conviviam outras posições: uma que aceitava a castração e outra que a recusava, sem que uma anulasse a outra.
A releitura de Lacan: o que é rejeitado retorna no real
Lacan toma essa palavra e a transforma num conceito. No Seminário 1 e na sua resposta ao comentário de Jean Hyppolite sobre a negação, em 1954, ele distingue a Verwerfung do recalque. O que é recalcado continua inscrito e retorna disfarçado, num sintoma, num lapso, num sonho. O que é rejeitado nunca chegou a se inscrever, e por isso retorna de fora, no real, como a alucinação do dedo.
Lacan traduzirá depois Verwerfung por foraclusão, e esse será o eixo da sua teoria das psicoses no Seminário 3. O Homem dos Lobos está, assim, na origem de uma das distinções mais importantes da clínica lacaniana: a diferença entre o que não se quer saber e o que nunca pôde ser sabido.
Lacan também desloca a pergunta sobre a cena primária. Mais do que saber se ela aconteceu, interessa o lugar que ela ocupa na história que o sujeito conta sobre si e o efeito que produz quando é ressignificada.
Depois de Freud
Freud encerrou o tratamento em julho de 1914 marcando uma data para o fim, um recurso técnico que ele mesmo questionaria em Análise terminável e interminável, de 1937. Pankejeff perdeu a fortuna com a Revolução Russa, voltou a Freud por alguns meses em 1919 e depois se analisou com Ruth Mack Brunswick, que atravessou com ele um episódio de tom paranoico nos anos 1920. Viveu até 1979, escreveu memórias e se tornou um dos pacientes mais estudados da história da psicanálise.
O que o caso diz a quem está se tornando analista
O Homem dos Lobos mostra que a infância não é um arquivo, mas algo que se reescreve. Uma cena só se torna traumática quando outra cena lhe dá sentido.
E mostra que nem tudo retorna pelo mesmo caminho. Distinguir o que volta como sintoma do que volta como alucinação é uma das primeiras perguntas que quem escuta precisa sustentar, porque dela depende a direção do tratamento.
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Referências
- FREUD, S. (1918). Da história de uma neurose infantil.
- FREUD, S. (1937). Análise terminável e interminável.
- LACAN, J. (1953-1954). O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud.
- LACAN, J. (1954). Resposta ao comentário de Jean Hyppolite sobre a Verneinung de Freud. In: Escritos.




