Em outubro de 1900, um pai leva a filha de dezoito anos ao consultório de Sigmund Freud, na Berggasse 19, em Viena. Ela tosse sem causa orgânica, perde a voz por semanas, sente falta de ar, anda abatida, evita as pessoas e deixou uma carta de despedida que os pais encontraram. Freud a chamou de Dora. Seu nome era Ida Bauer, e o tratamento durou cerca de onze semanas, até que ela mesma o interrompeu, no último dia daquele ano.
Freud escreveu o caso logo depois, em janeiro de 1901, e só o publicou em 1905, com o título Fragmento da análise de um caso de histeria. O “fragmento” não é modéstia. É o reconhecimento de que a análise ficou inacabada, e de que esse inacabamento também tem algo a dizer.
O lugar do caso na obra de Freud
Dora vem logo depois de A interpretação dos sonhos, publicada no fim de 1899. Freud pensou o texto como uma continuação do livro: queria mostrar, numa análise real, como a interpretação dos sonhos se insere no tratamento e como os sintomas histéricos se deixam decifrar. O primeiro título que imaginou foi “Sonho e histeria”.
Há também uma virada teórica por trás do caso. Em 1897, Freud tinha abandonado a ideia de que toda histeria nasce de uma sedução real sofrida na infância. Dora é o primeiro grande caso publicado depois dessa mudança. Os acontecimentos que ela relata são reais, e Freud não duvida deles. Mas o que passa a interessar é o modo como esses acontecimentos foram tomados pela fantasia e pelo desejo de quem os viveu.
O texto sai em 1905, o mesmo ano dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. É o momento em que a teoria freudiana da sexualidade ganha forma, e Dora é o seu primeiro grande teste clínico.
Resumo do caso Dora
Os sintomas de Dora vinham de longe. Aos oito anos teve crises de falta de ar. Aos doze começaram as enxaquecas e a tosse nervosa, com episódios de perda da voz que duravam de três a seis semanas. O pai, um industrial rico, tinha uma saúde frágil, e Freud já o havia tratado anos antes. A mãe vivia ocupada com a limpeza da casa, e Dora mantinha com ela uma relação distante.
A história que Dora conta é a de um arranjo entre quatro pessoas. O pai mantinha uma relação com a Sra. K., amiga íntima da família. O marido dela, o Sr. K., cortejava Dora desde que ela tinha catorze anos. Houve um beijo forçado na loja dele e, dois anos depois, uma declaração durante um passeio à beira de um lago, que Dora respondeu com uma bofetada.
Quando ela contou aos pais, o Sr. K. negou tudo e sugeriu que a moça lia livros demais sobre sexo. O pai preferiu acreditar nele. Dora passou a se sentir entregue ao Sr. K. como moeda de troca, para que o pai pudesse seguir com a Sra. K. sem ser incomodado. Foi para que Freud a convencesse a desistir dessa acusação que o pai a levou ao tratamento.
Freud não desmente Dora. A queixa dela é verdadeira, e ele o diz. Mas nota algo que ela mesma deixa escapar: durante anos, Dora não foi apenas vítima desse arranjo. Cuidou dos filhos dos K., foi confidente da Sra. K., acobertou os encontros do pai. Participou da cena da qual agora se queixa.
A censura que volta contra quem censura
Dora repete as mesmas acusações contra o pai, sessão após sessão, com uma insistência que Freud considera reveladora. Ele formula aqui um princípio que vai atravessar toda a sua clínica: uma série de censuras dirigidas a outra pessoa costuma encobrir uma série de autocensuras com o mesmo conteúdo. Dora acusa o pai de usar a doença como pretexto e de trocar a filha por uma conveniência. É exatamente o que ela própria faz, e é o que ela não pode reconhecer.
Freud fala também de um pensamento “hipervalente”, uma ideia que ocupa a consciência com uma intensidade desproporcional. O ciúme da relação do pai com a Sra. K. é esse pensamento. E, como todo pensamento que se impõe com tanta força, ele serve para manter afastado o seu contrário: o que Dora sentia pelo Sr. K. e, mais fundo ainda, pela própria Sra. K.
O sintoma fala: complacência somática e sobredeterminação
Freud escuta os sintomas como quem lê uma escrita. Mas faz uma ressalva importante: o sintoma histérico não se inventa do nada. Ele precisa de um ponto de apoio no corpo, uma fragilidade da garganta, uma tosse antiga, e é sobre esse ponto que o sentido se instala. Freud chama isso de complacência somática. O corpo oferece o lugar, o inconsciente escreve nele.
E um mesmo sintoma pode carregar vários sentidos ao longo do tempo. A afonia de Dora coincidia com as ausências do Sr. K.: quando ele viajava, a fala perdia sua função, e ela escrevia. A tosse imitava a do pai e, ao mesmo tempo, se ligava a uma fantasia sobre a relação entre o pai e a Sra. K. Dora dizia que a Sra. K. amava o pai por ele ser um homem de recursos. Freud escuta, por trás da expressão, o seu avesso: Dora sabia que o pai era impotente, e se perguntava que tipo de satisfação havia entre os dois.
Freud aponta ainda o ganho que a doença trazia. Os sintomas de Dora tinham um efeito sobre o pai: o deixavam preocupado, o mantinham perto, eram uma forma de disputá-lo com a Sra. K. Nenhum sintoma é só sofrimento. Ele também serve a alguma coisa, e por isso resiste a desaparecer.
Os dois sonhos
O primeiro sonho, que Dora sonhou várias vezes depois da cena do lago, mostra a casa pegando fogo. O pai está ao lado da cama e a acorda. A mãe quer salvar sua caixa de joias, e o pai responde que não vai deixar que ele e os filhos se queimem por causa de uma caixa de joias. Eles descem às pressas e, ao sair, Dora acorda.
As associações levam Freud a vários fios. O Sr. K. tinha dado a Dora uma caixa de joias de presente. Na casa do lago, ele havia entrado no quarto enquanto ela dormia, e Dora passou a se vestir depressa, com medo de ser surpreendida. A palavra alemã para caixa de joias também nomeia, na gíria, o sexo feminino. Freud lê no sonho uma decisão: fugir da casa dos K. e se refugiar no pai, para se proteger de uma tentação que não era só do Sr. K.
Há um detalhe que Freud registra e só depois compreende. Dora contou que, ao acordar desse sonho, sentia cheiro de fumaça. Freud e o Sr. K. eram fumantes. O sonho já indicava que algo do Sr. K. estava sendo transferido para a figura do analista.
No segundo sonho, Dora vaga por uma cidade desconhecida, recebe uma carta da mãe dizendo que o pai morreu, pergunta inúmeras vezes onde fica a estação, atravessa um bosque e chega em casa quando todos já estão no cemitério. Sobe ao quarto e lê tranquilamente um livro grande. Entre as associações, Dora lembra de ter passado duas horas diante da Madona Sistina, em Dresden, sem conseguir sair dali. Freud o interpreta durante duas sessões. Na terceira, Dora anuncia que aquela é a última vez. Freud observa que ela avisou com quinze dias de antecedência, como uma empregada que deixa o emprego.
Por que a análise foi interrompida
No posfácio, Freud faz algo raro: escreve sobre o próprio fracasso. É ali que apresenta, pela primeira vez de modo extenso, o conceito de transferência. As transferências, diz ele, são novas edições de impulsos e fantasias antigos, que se dirigem agora ao analista no lugar de uma pessoa do passado. Elas podem ser o maior obstáculo do tratamento. E podem ser o seu auxiliar mais poderoso, desde que o analista as perceba e as traduza a tempo.
Freud não percebeu a tempo. Dora havia deslocado para ele algo que era do Sr. K., e o deixou como queria deixar o Sr. K., com um gesto de vingança. A saída abrupta repetia, no tratamento, a bofetada do lago.
Numa nota acrescentada anos depois, Freud reconhece um segundo erro, mais fundo. Não tinha escutado a corrente que ligava Dora à Sra. K. Dora falava dela com admiração, elogiava a brancura do seu corpo, guardava seus segredos, e não dizia uma palavra contra ela mesmo depois de traída. Freud passa a considerar essa ligação a corrente inconsciente mais forte da vida psíquica de Dora. Durante o tratamento, porém, insistiu que o objeto de amor dela era o Sr. K.
Quinze meses depois, Dora voltou ao consultório com uma dor no rosto. Contou que tinha confrontado os K. e obtido deles a confissão de tudo. Freud não retomou o tratamento.
A releitura de Lacan: a intervenção sobre a transferência
Em 1951, Lacan escreve Intervenção sobre a transferência, texto inteiramente dedicado ao caso. Sua proposta é ler a análise de Dora como uma série de inversões dialéticas, momentos em que a verdade do sujeito muda de lugar.
No primeiro momento, Dora expõe a desordem da qual é vítima: o pai, os K., a troca. A primeira inversão é a pergunta que Freud lhe devolve, e que Lacan formula assim: qual é a sua própria parte na desordem da qual você se queixa? A pergunta não acusa. Desloca Dora do lugar de quem só sofre o arranjo para o de quem também o sustenta.
No segundo momento aparece o ciúme que Dora sente da relação do pai com a Sra. K. A segunda inversão mostra que esse ciúme encobre um interesse pela própria Sra. K.
A terceira inversão não veio. Ela teria levado Dora a reconhecer na Sra. K. aquilo que a interrogava: o mistério da própria feminilidade. É a pergunta que Lacan, no Seminário 3, vai situar no centro da histeria: o que é uma mulher? Dora a fazia por intermédio de um homem, identificada ao Sr. K., olhando para a Sra. K. As duas horas diante da Madona dizem o mesmo: Dora contemplava ali uma imagem da mulher que ela não sabia ser.
Daí a leitura que Lacan propõe para a bofetada. Na cena do lago, o Sr. K. diz a Dora que a mulher dele não é nada para ele. Se a Sra. K. não é nada para o Sr. K., o arranjo que sustentava Dora desaba. A bofetada responde a esse desabamento, e não apenas a uma investida.
Para Lacan, o impasse do tratamento não está numa resistência de Dora. Está no lugar que Freud ocupou, preso à ideia de que uma moça deveria amar o homem que a cortejava. A transferência não é só o que o paciente traz. Ela também diz respeito à posição de quem escuta.
O que o caso Dora ainda diz a quem está se tornando analista
O caso Dora é lido há mais de um século não por ter dado certo, mas pelo modo como não deu. Nele aparecem, pela primeira vez juntos, o sintoma como mensagem, o sonho como via de acesso ao desejo e a transferência como o terreno onde o tratamento se decide.
E aparece algo mais difícil de admitir: que o analista também pode não escutar, e que suas certezas sobre o desejo do outro podem fechar a porta que a análise deveria abrir. Freud escreveu isso sobre si mesmo. É talvez a maior transmissão do caso. Um analista nunca está pronto. Está sempre em formação.
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Referências
- FREUD, S. (1905). Fragmento da análise de um caso de histeria.
- FREUD, S. (1900). A interpretação dos sonhos.
- LACAN, J. (1951). Intervenção sobre a transferência. In: Escritos.
- LACAN, J. (1955-1956). O Seminário, livro 3: As psicoses.




