Homem dos Ratos: o caso de neurose obsessiva em Freud

Em outubro de 1907, um advogado de 29 anos procura Freud. Há anos vive tomado por medos de que algo terrível aconteça às pessoas que ama, por impulsos que o horrorizam e por rituais que não consegue interromper. Perdeu anos de estudo por causa disso. Freud o chamou de Homem dos Ratos. Seu nome era Ernst Lanzer, e o caso foi publicado em 1909 como Observações sobre um caso de neurose obsessiva.

É o único caso de Freud do qual se conservaram as anotações feitas sessão a sessão. Por elas se acompanha o tratamento quase dia a dia, inclusive detalhes que não entraram no texto publicado.

O lugar do caso na obra de Freud

A neurose obsessiva tinha sido isolada por Freud ainda nos anos 1890, ao lado da histeria, como uma das neuroses de defesa. Mas até 1907 ele não tinha publicado nenhum caso que mostrasse em detalhe como ela funciona. O Homem dos Ratos ocupa esse lugar.

Freud apresentou o caso no primeiro congresso psicanalítico internacional, em Salzburgo, em abril de 1908, e falou por cerca de cinco horas. Era um momento de expansão do movimento psicanalítico, e o caso serviu de demonstração: a neurose obsessiva, com seus rituais aparentemente absurdos, também tinha uma lógica decifrável.

O castigo dos ratos

Na primeira sessão, Lanzer fala de um amigo que o apoia e de lembranças sexuais muito precoces com as governantas da casa. Já na infância tinha a ideia de que, se pensasse certas coisas, o pai morreria.

O grande medo começa durante manobras militares. Um capitão conhecido pela crueldade descreve um castigo praticado no Oriente: um vaso com ratos é preso às nádegas do condenado, e os ratos abrem caminho para dentro do corpo. Lanzer conta a cena a Freud com enorme dificuldade, levanta-se do divã, pede para ser poupado dos detalhes. Freud registra no seu rosto um horror diante de um prazer que ele mesmo desconhecia.

No mesmo instante, Lanzer pensa que o castigo poderia ser aplicado à mulher que ama e ao pai. O detalhe decisivo: o pai havia morrido nove anos antes.

No dia seguinte, o mesmo capitão lhe entrega um pacote com um pincenê encomendado pelo correio e diz que ele deve pagar a quantia a um tenente. Lanzer sabe que a informação está errada: quem pagou foi a moça da agência dos correios. Mesmo assim faz um voto: pagará ao tenente, senão o castigo cairá sobre os seus. Passa os dias seguintes montando planos de viagem impossíveis para cumprir uma ordem que ele sabe absurda.

Os mecanismos da neurose obsessiva

O caso permite a Freud descrever a neurose obsessiva por dentro. A primeira coisa que ele nota é que a ideia obsessiva é uma autocensura transformada. Algo que o sujeito desejou e recalcou retorna como pensamento estranho, que ele vive como alheio e ameaçador.

A segunda é o conflito entre amor e ódio dirigidos à mesma pessoa. Freud adota aqui a palavra ambivalência. O pai era amado, e era também o obstáculo. Ainda criança, Lanzer pensava que, se o pai morresse, uma menina teria pena dele e o amaria. O amor não consegue extinguir o ódio. Só consegue empurrá-lo para o inconsciente, onde ele se conserva intacto e de onde continua a agir.

Desse conflito nascem a dúvida, que paralisa qualquer decisão, e a crença na onipotência do pensamento, expressão que Freud cunha a partir desse paciente: pensar algo ruim já é fazê-lo acontecer. Os rituais servem para desfazer o que o pensamento fez. Um dia, Lanzer tirou uma pedra da estrada por onde passaria a carruagem da mulher amada, para que ela não se machucasse. Minutos depois, achou o gesto absurdo e voltou para pôr a pedra no lugar. As duas ações, a de proteger e a de expor, convivem lado a lado.

Freud observa ainda que na neurose obsessiva o ato regride ao pensamento. Em vez de agir, o sujeito pensa, calcula, conta, verifica. E o próprio pensamento se torna o lugar da satisfação e do conflito.

Palavras que deslizam

Um dos achados mais finos do caso é o papel das palavras. Para emagrecer, Lanzer se forçou certa vez a correr no calor até quase desmaiar. Freud descobre que o primo da mulher amada, por quem Lanzer sentia ciúme, se chamava Richard e era conhecido como Dick, palavra que em alemão significa gordo. Emagrecer era livrar-se de Dick.

A palavra “rato” segue o mesmo caminho. Ratten, ratos, ressoa em Raten, prestações, e em heiraten, casar. O pai, quando jovem militar, tinha perdido no jogo um dinheiro que não era dele, e um amigo pagou a dívida. O pai nunca devolveu. Ratos também ligam o caso ao dinheiro, à sujeira, ao erotismo anal que Freud associa ao caráter obsessivo, à ordem, à avareza, à teimosia.

Há mais uma repetição. O pai amou uma moça pobre e se casou com uma mulher rica, a mãe de Lanzer. Quando a doença se agrava, a família planeja casar o filho com uma prima rica, e ele ama uma moça sem dinheiro. Adoecer foi um modo de não decidir.

Uma lembrança da infância condensa a ambivalência. Pequeno, Lanzer mordeu alguém e o pai o castigou. Furioso, sem conhecer ainda palavrões, o menino xingou o pai com os nomes dos objetos que via: lâmpada, toalha, prato. O pai teria dito que aquele menino seria um grande homem ou um grande criminoso.

A transferência

O ódio ao pai não demorou a aparecer na relação com Freud. Lanzer passou a insultá-lo nas sessões, a ter fantasias ofensivas com a família de Freud, e a se levantar do divã com medo de ser espancado. Freud não recua. Escuta nessas cenas a repetição do conflito com o pai, agora vivido em ato. É pela transferência que a convicção do paciente se forma: aquilo que ele não podia lembrar, ele revive diante do analista.

A neurose obsessiva e a religião

Pouco antes de começar o tratamento de Lanzer, em 1907, Freud tinha publicado um ensaio curto, Atos obsessivos e práticas religiosas. Ali ele nota a semelhança entre os cerimoniais dos neuróticos obsessivos e os ritos religiosos. Nos dois casos há gestos repetidos com precisão, uma ansiedade que surge quando algo é omitido, uma sensação de que um pequeno erro pode ter consequências terríveis, e um sentimento de culpa que nunca se esgota.

A diferença, para Freud, é que o cerimonial religioso é compartilhado e tem um sentido conhecido pelo grupo, enquanto o cerimonial obsessivo é privado e o seu sentido escapa ao próprio sujeito. Mas ambos nascem da renúncia a impulsos, e ambos funcionam como proteção contra uma tentação e contra o castigo que viria se ela fosse satisfeita. Freud chega a chamar a neurose obsessiva de uma religiosidade particular, e a religião de uma neurose obsessiva universal.

O Homem dos Ratos mostra isso em detalhe. Ele reza, mas as preces se tornam intermináveis porque fórmulas contrárias se infiltram nelas e precisam ser anuladas com novas fórmulas. Faz juramentos que o obrigam. Teme punições que ele mesmo inventa. A culpa vem antes do ato, e às vezes no lugar dele.

Anos depois, em 1913, Freud situaria a predisposição à neurose obsessiva num momento preciso do desenvolvimento libidinal, uma organização anterior à genital em que dominam o erotismo anal e as tendências sádicas. É por isso que os ratos, o dinheiro, a sujeira e a crueldade aparecem tão próximos no caso: pertencem ao mesmo tempo da vida pulsional.

A releitura de Lacan: o mito individual do neurótico

Em 1953, na conferência O mito individual do neurótico, Lacan retoma o caso para mostrar que o sintoma do filho reproduz uma estrutura que o antecede. Antes de Lanzer nascer, a história do pai já tinha deixado duas pendências: a dívida não paga ao amigo e a troca da mulher amada pela mulher rica.

O cenário absurdo do pincenê (óculos sem hastes) é, para Lacan, uma tentativa de pagar a dívida do pai, repetindo seus personagens: o credor, o amigo que salda a conta, a mulher pobre que socorre. A dívida é simbólica. Não se resolve com dinheiro, e por isso o voto nunca pode ser cumprido.

Lacan chama atenção também para um desdobramento. Assim como o pai, o filho divide o objeto de amor em dois, a mulher rica e a mulher pobre, e divide a si mesmo entre o lugar que ocupa e o lugar onde gostaria de estar. O neurótico obsessivo vive sempre um pouco ao lado de onde está.

O que o caso diz a quem está se tornando analista

O Homem dos Ratos mostra que o sintoma obsessivo, por mais estranho que pareça, tem uma lógica de linguagem: uma palavra que desliza, uma dívida que atravessa gerações, um voto que repete uma história não contada.

As anotações de Freud guardam ainda um detalhe que não entrou no texto publicado: num dia em que Lanzer chegou com fome, Freud lhe serviu uma refeição. A clínica também se fez desses gestos, que nenhuma técnica prevê. O tratamento durou cerca de onze meses e Freud o considerou bem-sucedido. Lanzer morreu em 1914, na Primeira Guerra.

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Referências

  • FREUD, S. (1909). Observações sobre um caso de neurose obsessiva.
  • LACAN, J. (1953). O mito individual do neurótico.

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