Nos últimos anos, o conceito de relacionamento abusivo ganhou visibilidade significativa. Isso tem valor — nomear o que acontece numa relação é o primeiro passo para que alguém consiga se situar diante disso. Mas a nomeação, sozinha, raramente é suficiente.
Porque a pergunta que fica — e que a clínica escuta com frequência — não é apenas “isso é abuso?”. É: por que continuo? Por que volto? Por que, mesmo sabendo o que sei, algo em mim não consegue sair?
Essa pergunta não tem resposta moral. Tem resposta clínica.
O que a nomeação não alcança
A psicanálise não julga quem permanece numa relação que faz sofrer. Pergunta o que essa relação está repetindo — e o que o sujeito está buscando, sem saber, quando escolhe ficar. Porque sempre há uma lógica, mesmo quando ela é invisível para quem está dentro.
Essa diferença de pergunta muda o que se pode oferecer clinicamente. Quem nomeia oferece um diagnóstico da relação — útil, muitas vezes libertador num primeiro momento. Quem escuta busca algo mais difícil de alcançar: a razão estrutural pela qual aquele sujeito específico, com aquela história específica, encontra nessa configuração algo que reconhece, mesmo à custa do próprio sofrimento.
A compulsão à repetição
Freud nomeou esse fenômeno de compulsão à repetição — a tendência do sujeito a reproduzir situações dolorosas sem que isso seja consciente ou intencional. O sujeito não repete porque gosta de sofrer. Repete porque algo naquela configuração relacional é familiar — no sentido mais literal da palavra. Remete a algo constitutivo, a um modo de se relacionar que foi aprendido antes de haver palavras para descrevê-lo.
É importante insistir nesse ponto porque ele costuma ser mal-entendido fora da clínica: dizer que há uma repetição em curso não é dizer que o sujeito “escolhe” sofrer, no sentido deliberado do termo. A escolha, se existe, acontece num nível que precede a consciência — o sujeito reconhece algo ali antes mesmo de conseguir nomear o quê.
O que é aprendido antes das palavras
A criança que cresceu num ambiente onde o amor vinha acompanhado de humilhação, de imprevisibilidade, de exigência impossível de cumprir, aprendeu que é assim que o amor funciona. Não como crença consciente — como inscrição. E o adulto que essa criança se tornou vai, sem saber, procurar relações que confirmem o que aprendeu. Não porque queira sofrer, mas porque o familiar, mesmo quando dói, é reconhecível. E o desconhecido — a relação estável, o amor que não oscila, o parceiro que não precisa ser conquistado repetidamente — pode parecer, estranhamente, vazio.
Esse último ponto é um dos mais difíceis de comunicar fora da clínica, e também um dos mais clinicamente relevantes: para quem aprendeu que amor e instabilidade andam juntos, a estabilidade pode não registrar como segurança, mas como ausência — como se algo estivesse faltando exatamente onde, em tese, deveria haver alívio.
O que a nomeação diz — e o que ela não diz
A nomeação “relacionamento abusivo” é importante. Mas ela diz o que é — não o que mantém o sujeito ali. E é essa segunda pergunta que a análise tenta responder.
Isso não significa responsabilizar a vítima pelo que sofre. Significa algo diferente: reconhecer que o sujeito tem uma história que o precede, que essa história organiza seu desejo de formas que ele não escolheu, e que compreender essa organização é o que abre possibilidade de mudança real — não apenas de saída da relação, mas de saída do padrão.
Por que sair não basta
Porque o sujeito que sai de uma relação abusiva sem compreender o que o mantinha ali frequentemente reproduz a mesma dinâmica na relação seguinte. Com outro rosto, mas com a mesma estrutura.
Esse é, talvez, o dado clínico mais importante deste artigo: a saída física de uma relação resolve a situação presente, mas não necessariamente a estrutura que a produziu. Sem esse trabalho de compreensão, o sujeito carrega para a próxima relação a mesma lógica inconsciente — apenas à espera de um novo parceiro que, sem saber, venha ocupar o lugar já conhecido.
Um percurso, não um atalho
A análise não oferece uma saída rápida. Oferece um percurso — às vezes longo, sempre exigente — pelo qual o sujeito pode começar a entender o que repete e, a partir dessa compreensão, construir a possibilidade de algo diferente.
Nomear é o começo. Escutar é o que permite que algo mude de verdade.
Referências
FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XVIII.
FREUD, Sigmund. O Ego e o Id. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XIX.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
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