Ela não estava com fome. Sabia disso. Havia jantado duas horas antes. Mas abriu a geladeira assim mesmo — e só parou quando o desconforto físico foi maior do que o que estava tentando calar.
No dia seguinte, vergonha. Promessa. E a geladeira de novo.
Esse circuito não é fraqueza. É uma linguagem — cifrada, repetitiva, insistente — que o corpo usa quando as palavras não chegam.
O que os números revelam
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 4,7% dos brasileiros sofrem de compulsão alimentar — quase o dobro da média global, que é de 2,6%. No total, cerca de 11 milhões de pessoas no Brasil apresentam algum tipo de transtorno alimentar — e o país conta com apenas 15 centros públicos especializados para atendimento, com imensa fila de espera.
Esses números descrevem um sofrimento que está longe de ser raro. E que raramente chega ao consultório com o nome certo.
A fome que não é de comida
A compulsão alimentar não é sobre apetite. Quem a vive sabe disso — e é exatamente esse saber que alimenta a vergonha. “Eu sei que não estou com fome. Por que continuo comendo?”
Essa pergunta, quando pode ser feita numa análise, nunca tem resposta simples. Ela aponta para algo que a psicanálise reconhece há muito tempo: o ser humano come por razões que vão muito além da necessidade biológica. Come para se acalmar. Para se punir. Para preencher um vazio que não tem nome. Para adiar um pensamento que dói. Para sentir algo quando está anestesiado. Para parar de sentir quando está transbordando.
A comida, nesse circuito, não é o problema. É a solução — precária, repetitiva, sempre insuficiente — para algo que ainda não encontrou palavras.
O corpo como endereço do sofrimento
Há uma particularidade na compulsão alimentar que a distingue de outros modos de sofrimento: ela se inscreve no corpo de forma visível. E é exatamente essa visibilidade que produz uma camada adicional de sofrimento — a vergonha do corpo, o olhar do outro, a tentação de tratar o sintoma sem escutar o que ele diz.
Dietas, reeducação alimentar, aplicativos de contagem de calorias — todas essas intervenções podem ter utilidade, mas nenhuma delas pergunta o que a compulsão está respondendo. E quando o sujeito para de comer compulsivamente sem elaborar o que estava em jogo, esse lugar é rapidamente preenchido por outro comportamento — o álcool, as compras, o trabalho excessivo, as redes sociais. O objeto muda. O circuito permanece.
O que a psicanálise escuta
Quando alguém chega à análise com queixa de compulsão alimentar, o que aparece nas primeiras sessões raramente é a comida. Aparecem relações. Histórias de como o afeto circulou — ou não circulou — na família. Memórias de refeições que eram o único lugar de encontro. Ou de refeições que eram o único lugar de controle.
Freud observou cedo que a boca é a primeira zona erógena — o lugar onde a pulsão oral se organiza, onde o sujeito aprende, antes de ter qualquer palavra, que existe prazer e que existe falta. A relação com a comida carrega, para todos nós, algo desse tempo anterior à linguagem. Para alguns sujeitos, essa relação se torna o principal endereço de um sofrimento que não encontrou outro lugar para morar.
O trabalho analítico não é ensinar o sujeito a comer melhor. É criar as condições para que ele possa perguntar o que está com fome — de verdade.
A questão do controle
Há um traço comum entre quem vive a compulsão alimentar: a tentativa de controle que precede e segue cada episódio. A dieta rígida antes. A promessa depois. O planejamento detalhado que desmorona no momento em que algo inesperado acontece — um conflito, uma solidão, um vazio de fim de tarde.
Esse ciclo — restrição, compulsão, culpa, restrição — não é falha de caráter. É a marca de um sujeito que aprendeu que controlar o corpo é mais acessível do que controlar o que sente. Que a geladeira está disponível quando as pessoas não estão.
Tratar a compulsão alimentar sem escutar esse sujeito é tentar tampar uma torneira com a mão. A pressão encontra outra saída.
O que muda quando há escuta
O que a psicanálise pode oferecer não é a eliminação do sintoma — pelo menos não como objetivo direto. É a possibilidade de o sujeito construir uma relação diferente com o próprio sofrimento. De nomear o que estava sem nome. De encontrar outras formas de responder ao que a compulsão respondia.
Quando isso acontece, o sintoma muitas vezes se transforma. Não porque foi combatido — mas porque perdeu sua função. Porque o sujeito encontrou outras palavras para o que estava com fome.
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