Autismo ou Inibição? O que se perde quando o diagnóstico chega antes da escuta

Ela tem 34 anos. Trabalha em home office, evita reuniões presenciais, tem poucos amigos e prefere assim. Não suporta mudanças de planos de última hora. Tem interesses muito específicos que a absorvem por horas. Depois de ler sobre autismo numa rede social, chegou ao consultório com uma certeza: “Acho que sou autista.”

Talvez seja. Mas talvez não seja.

E a diferença entre essas duas respostas não é apenas diagnóstica. É clínica, ética e fundamental para a direção do tratamento.

O momento em que vivemos

Nas últimas décadas, o diagnóstico de autismo passou por uma transformação silenciosa e radical. O que antes era reservado a quadros específicos e graves — com comprometimentos severos de linguagem e funcionamento — foi progressivamente ampliado até tornar-se uma categoria que abriga uma heterogeneidade enorme de modos de ser e de estar no mundo.

Essa expansão tem razões legítimas: reconhecer que o espectro é amplo, que há formas de autismo que passaram décadas sem nome, que muitos adultos chegaram à vida adulta sem nunca ter recebido suporte adequado. Tudo isso é real e importante.

Mas tem também um efeito colateral que a clínica começa a sentir: a proliferação de diagnósticos dados sem a investigação que eles exigem. Diagnósticos feitos por questionários online, por identificação com descrições em redes sociais, por profissionais que não têm formação clínica suficiente para distinguir o que é estrutural do que é reativo, do que é autismo do que é outra coisa.

Autismo e inibição: o que os distingue

A inibição é um conceito freudiano preciso. Ela descreve uma restrição que o sujeito impõe a si mesmo — uma limitação do funcionamento que tem função defensiva. O sujeito inibido se retrai do contato, evita situações que produzem angústia, restringe sua presença no mundo para não se confrontar com algo que teme.

A inibição tem história. Tem lógica. Pode ser investigada, escutada, elaborada.

O autismo, por sua vez, descreve uma organização psíquica com estrutura própria — uma relação singular com a linguagem, com o outro e com o corpo que não é uma defesa contra a angústia, mas um modo de ser que tem sua própria consistência e lógica interna.

Superficialmente, alguns traços se sobrepõem: o recolhimento social, a preferência por rotinas, a dificuldade com o imprevisível, a intensidade nos interesses. Mas sua origem, sua estrutura e o que a clínica pode fazer com cada um são fundamentalmente diferentes.

Confundir os dois não é apenas um erro diagnóstico. É um erro clínico com consequências reais para o sujeito.

O que o diagnóstico faz ao sujeito

Há algo que o diagnóstico produz que vai além da nomeação. Ele reorganiza a forma como o sujeito se vê — e a forma como os outros o veem. Quando o diagnóstico é preciso, esse efeito pode ser libertador: finalmente um nome para algo que sempre existiu sem palavra. Finalmente permissão para não se exigir o que nunca foi possível.

Mas quando o diagnóstico é impreciso — dado com pressa, sem investigação clínica adequada, por identificação com uma descrição genérica — ele pode produzir o efeito contrário. O sujeito passa a interpretar toda sua experiência pela lente do transtorno. Cada dificuldade vira sintoma do espectro. Cada preferência vira característica autista. A singularidade vira déficit. A história vira biologia.

E o que se perde nesse movimento é exatamente o que a psicanálise protege: a pergunta sobre quem é esse sujeito — para além de qualquer categoria.

O sujeito inibido que acredita ser autista

Na clínica contemporânea, é cada vez mais frequente receber adultos que chegam com o diagnóstico de autismo já consolidado — e cuja história, quando escutada com cuidado, revela algo diferente.

Não uma fraude. Não uma invenção. Mas um sujeito que, diante de uma angústia social que nunca encontrou nome, encontrou no diagnóstico de autismo uma explicação que alivia — e que ao mesmo tempo fecha a possibilidade de investigar o que está em jogo.

O sujeito inibido que se identifica como autista não está mentindo. Está encontrando, no diagnóstico, um modo de dar sentido a algo que sempre o fez sofrer. Mas se o tratamento parte dessa premissa sem questioná-la, ele pode passar anos recebendo intervenções que não correspondem ao que precisa — e sem nunca ter a oportunidade de escutar o que a inibição está dizendo.

A posição da psicanálise

A psicanálise não é contra o diagnóstico. É contra o diagnóstico que fecha o sujeito antes de ouvi-lo.

O que ela propõe não é substituir uma categoria por outra — é suspender a certeza diagnóstica o tempo suficiente para que o sujeito possa falar. Para que a história apareça. Para que a lógica do sofrimento se revele — seja ela autista, neurótica, ou algo que não caiba perfeitamente em nenhuma categoria.

Essa posição exige do clínico uma tolerância à incerteza que o mercado diagnóstico atual não favorece. Mas é exatamente essa tolerância que protege o sujeito de ser reduzido ao seu laudo.

O que muda quando a escuta vem antes

O sujeito autista que é tratado como apenas inibido é submetido a demandas de contato e de desempenho que não respeitam sua lógica própria de funcionamento. O sujeito inibido que é tratado como autista recebe intervenções que não tocam o que realmente está em jogo — e que podem, inclusive, reforçar o recolhimento ao invés de abri-lo.

Em ambos os casos, o que faltou foi escuta. Não de comportamentos — mas de sujeito.

A psicanálise não tem pressa de nomear. Tem pressa de criar condições para que o sujeito amplie o seu mundo. E essa diferença, na clínica, faz toda a diferença.

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