Ele perdeu o emprego em março. Em abril, vendeu o carro. Em maio, estava pedindo dinheiro emprestado para a família com uma história que ninguém mais acreditava. Mas em junho, voltou a apostar.
Não porque é fraco. Não porque é irresponsável. Mas porque algo nessa repetição faz sentido para ele — mesmo que esse sentido seja indizível, mesmo que ele próprio não saiba nomear.
É exatamente aí que a psicanálise entra.
Os números que o senso comum não explica
Os dados sobre as apostas esportivas online no Brasil são suficientemente alarmantes para justificar qualquer campanha de conscientização. Mais de 22 milhões de brasileiros apostaram em bets nos últimos 30 dias, segundo pesquisa do DataSenado. Cerca de 4 milhões já apresentam comportamentos de risco relacionados às apostas online — quase metade está endividada e 52% continuam apostando na tentativa de recuperar perdas.
O impacto vai além das finanças. 34% dos jovens apostadores entrevistados precisarão interromper seus gastos em apostas para entrar em um curso superior em 2026. 11% dos jovens brasileiros entre 10 e 17 anos apostaram em bets durante 2025 — crianças que ainda não têm CPF próprio, mas encontram formas de acessar plataformas proibidas para sua faixa etária.
Mas os números, por mais eloquentes que sejam, não respondem à pergunta que importa: por que, mesmo sabendo de tudo isso, o sujeito volta a apostar?
O que é o gozo — sem o jargão
Existe uma diferença entre prazer e aquilo que move o apostador compulsivo. O prazer tem limite — quando satisfeito, ele para. Mas há outro circuito no psiquismo humano que não para. Que se repete mesmo quando dói. Que busca algo que nunca encontra completamente — e é exatamente por não encontrar que continua buscando.
A psicanálise chama isso de gozo. Não é sinônimo de alegria. É mais parecido com aquela sensação que o próprio apostador descreve: a adrenalina não está em ganhar — está no momento anterior ao resultado. É o instante em que tudo ainda é possível. Quando o resultado chega — ganho ou perda — o ciclo recomeça imediatamente.
As plataformas de apostas foram engenheiradas para alimentar exatamente esse circuito. Resultados rápidos, recompensas variáveis, notificações que interrompem o cotidiano para lembrar que há uma aposta disponível. Não é acidente — é design.
A ilusão do controle e a estrutura da aposta
Para a maioria dos apostadores problemáticos, a prática está conectada à percepção de diversão e à emoção de apostar — e o percentual daqueles que sentem emoção ao apostar subiu de 25% em 2023 para 27% em 2025.
Mas o que sustenta essa emoção? A crença — sempre renovada, sempre desmentida pelos fatos — de que desta vez vai ser diferente. De que o sistema pode ser decifrado. De que existe uma lógica que, dominada, garante o ganho.
Essa crença não é ingenuidade. É uma defesa. Enquanto o sujeito acredita que pode controlar o resultado, ele não precisa se confrontar com algo muito mais angustiante: que há dimensões da vida que não dependem de nenhum esforço, nenhuma competência, nenhuma estratégia. Que o acaso existe. Que a perda é real.
A aposta compulsiva é, paradoxalmente, uma tentativa de negar o acaso apostando nele.
Por que os jovens são os mais vulneráveis
82% dos apostadores problemáticos pertencem à geração Z ou são millennials, com predominância de homens da classe C. Esse dado não é aleatório.
A adolescência e o início da vida adulta são o período em que o sujeito precisa construir respostas para perguntas que ninguém responde por ele: quem sou eu? O que quero? Para onde vou? É um momento de profunda instabilidade — e as BETs oferecem uma promessa sedutora: a possibilidade de resolução rápida, de salto financeiro, de saída do lugar em que se está sem o esforço lento que a realidade exige.
O impacto é ainda mais severo nas regiões Nordeste e Sudeste, e entre jovens das classes D e E — onde 43% afirmam que precisarão abandonar os gastos com apostas para iniciar um curso superior. Para quem não vê outro caminho de mobilidade social disponível, a aposta não é irracionalidade — é esperança mal endereçada.
O que a compulsão protege
O sujeito que aposta compulsivamente raramente está apenas buscando dinheiro. Está, muitas vezes, tentando não pensar. Não sentir. Não se confrontar com algo que dói e que não tem nome fácil — uma relação que não vai bem, um projeto de vida que travou, uma sensação difusa de que a vida deveria ser diferente do que é.
A aposta preenche o tempo, ocupa a atenção, oferece uma narrativa — “estou tentando mudar de vida” — que substitui o confronto com perguntas mais difíceis.
Quando o sujeito para de apostar sem elaborar o que a aposta estava fazendo por ele, esse lugar vazio é rapidamente preenchido por outro comportamento compulsivo. A compulsão migra — para a comida, para o álcool, para a tela, para o trabalho excessivo. O objeto muda. O circuito permanece.
O que a escuta pode fazer
A psicanálise não trata o vício em BETs com protocolo. Não oferece doze passos nem metas de abstinência. O que oferece é algo mais lento e mais radical: a possibilidade de o sujeito escutar o que a compulsão está dizendo.
Toda compulsão é uma mensagem cifrada. Ela diz alguma coisa sobre o desejo, sobre a história, sobre o modo como aquele sujeito específico encontrou uma saída para uma dor que não sabia nomear. Decifrar essa mensagem não é tarefa rápida — mas é a única que produz mudança que dura.
Números explicam o fenômeno. A escuta acompanha o sujeito.
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