Ele chegou ao consultório encaminhado pela família. Não queria estar ali. Dizia que não tinha problema — que usava porque queria, que controlava, que poderia parar quando decidisse.
Essa frase — “eu paro quando quiser” — é uma das mais frequentes na clínica com usuários de drogas. E é uma das mais reveladoras. Porque o sujeito que precisa afirmar que pode parar é, muitas vezes, exatamente aquele que não consegue.
O que os dados mostram
Um em cada cinco brasileiros já usou drogas ilícitas, segundo o Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas. O consumo entre adultos triplicou entre mulheres na última década — de 3% para 10,6% — e o uso recente de drogas atinge 8,1% da população, o equivalente a mais de 13 milhões de pessoas.
Na faixa etária entre 18 e 24 anos, 27,4% já experimentaram drogas ilícitas e 16,3% fizeram uso no último ano. São jovens que ainda estão construindo sua relação com o trabalho, com os vínculos, com o desejo — e que encontram na substância uma resposta que parece simples para perguntas que ainda não sabem formular.
Em 50,1% das vítimas de morte violenta analisadas em pesquisa da Faculdade de Medicina da USP — incluindo homicídios, suicídios e acidentes de trânsito — foi encontrada ao menos uma substância psicoativa. O uso de drogas não é, portanto, apenas uma questão de saúde individual. É um fenômeno que atravessa o laço social, a violência, a morte.
O que a medicina trata — e o que ela não pergunta
A abordagem médica ao uso de drogas tende a enquadrá-lo como doença — transtorno por uso de substâncias, dependência química, síndrome de abstinência. Esse enquadramento tem utilidade clínica real: orienta tratamentos, justifica internações, organiza protocolos.
Mas ele deixa de lado uma pergunta fundamental: por que esse sujeito, nesse momento da sua vida, encontrou nessa substância uma resposta?
Não há usuário de droga sem história. Há sempre algo que antecede o primeiro uso — uma dor sem nome, uma pergunta sem resposta, uma situação da qual a substância ofereceu saída. Tratar a dependência sem escutar essa história é como tratar a febre sem perguntar o que a provocou.
O gozo que dispensa o outro
A droga tem uma característica que a torna particularmente sedutora — e particularmente difícil de abandonar: ela oferece satisfação sem sujeito do outro lado. Não exige negociação, não tolera rejeição, não decepciona. Está sempre disponível, sempre produz o efeito esperado, nunca pede nada em troca.
Essa disponibilidade absoluta é, paradoxalmente, o que a torna tão perigosa. Porque o desejo humano é, por estrutura, desejo do outro — precisa de um sujeito do outro lado para existir. A droga curto-circuita esse percurso: oferece satisfação direta, sem o desvio pelo outro, sem a espera, sem a incerteza.
Com o tempo, o laço social enfraquece. As relações se tornam obstáculos — interrompem o uso, exigem presença, produzem conflito. O sujeito vai se isolando, não porque escolhe a solidão, mas porque a substância foi progressivamente ocupando o lugar que as pessoas ocupavam.
Por que parar é difícil — e não é fraqueza
A pergunta que os familiares mais fazem ao clínico é sempre a mesma: por que ele não para, se está destruindo a própria vida?
A resposta que a psicanálise oferece não é simples — mas é honesta. O sujeito não para porque a droga está respondendo a algo. Está calando uma angústia, preenchendo um vazio, sustentando uma ilusão de controle num mundo que parece incontrolável. Parar significa abrir mão dessa resposta antes de ter construído outra.
E essa é a parte que os programas de abstinência muitas vezes não contemplam: o sujeito que para de usar sem elaborar o que o uso estava fazendo por ele fica vulnerável ao retorno — porque o que havia antes da droga continua lá, sem tratamento.
O que muda quando há escuta
A psicanálise não trata a dependência de drogas com protocolo. Não tem doze passos, não promete recuperação em noventa dias, não define abstinência como meta prévia.
O que ela oferece é a possibilidade de o sujeito construir uma relação diferente com o próprio sofrimento — de escutar o que a droga estava respondendo e encontrar outras formas de responder. Isso é lento. É trabalhoso. E é, muitas vezes, a única mudança que dura.
Porque o sujeito que para de usar porque foi forçado a parar é diferente do sujeito que para porque encontrou, na análise, razões próprias para querer algo diferente para si.
O que a clínica com esse sujeito exige
Trabalhar clinicamente com usuários de drogas exige do analista uma posição específica: não moralizar, não aderir ao discurso familiar de resgate, não tratar a substância como inimigo a combater. Exige sustentar a escuta de um sujeito que muitas vezes chega sem querer estar ali — e que precisa, antes de qualquer outra coisa, encontrar um lugar onde sua palavra seja levada a sério.
Esse é o lugar que a psicanálise pode ocupar. Não o único — mas um que nenhuma outra abordagem substitui.
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