Anna O.: o caso que deu nome à cura pela fala

A psicanálise começa com uma paciente que não era de Freud. Entre 1880 e 1882, o médico vienense Josef Breuer tratou uma jovem de 21 anos que ele chamou de Anna O. Seu nome era Bertha Pappenheim. O caso abre os Estudos sobre a histeria, que Breuer e Freud publicaram juntos em 1895.

Foi ela quem deu nome ao método. Em inglês, língua que passou a falar durante a doença, chamou o tratamento de talking cure, a cura pela fala. Chamava também, rindo, de limpeza de chaminé.

O lugar do caso na obra de Freud

Breuer era catorze anos mais velho que Freud, um clínico respeitado em Viena, e foi durante anos seu amigo e protetor. Contou a Freud o caso de Bertha ainda em 1882, logo depois de encerrá-lo. Freud ficou impressionado, e quando passou a tratar suas próprias pacientes histéricas, no fim da década, tomou o método de Breuer como ponto de partida.

Em 1893, os dois publicam a Comunicação preliminar, em que formulam a tese central dessa primeira fase: os histéricos sofrem sobretudo de reminiscências. Um acontecimento carregado de afeto, que não pôde ser descarregado no momento em que ocorreu, permanece ativo como um corpo estranho e se expressa como sintoma. O tratamento consiste em fazer o paciente lembrar a cena e expressar o afeto que ficou retido. Breuer e Freud chamam isso de método catártico, e chamam de ab-reação a descarga do afeto pela palavra.

Dois anos depois, nos Estudos sobre a histeria, Anna O. aparece como o caso inaugural. Mas o livro já mostra as diferenças entre os autores. Breuer explica a histeria por estados hipnoides, estados de consciência alterados em que as lembranças ficam isoladas. Freud começa a falar em defesa: as lembranças ficam isoladas porque o sujeito não quer saber delas. Essa diferença vai separar os dois.

Os sintomas

A doença começa no verão de 1880, enquanto Bertha cuida do pai, que estava morrendo. Ela passa as noites ao lado dele e vai se esgotando, até que a família a afasta da cabeceira. Aparecem uma tosse persistente, paralisias e contraturas nos braços e nas pernas, um estrabismo, perturbações da visão, alucinações. Em certos períodos perde a capacidade de falar alemão, sua língua materna, e só se expressa em inglês, às vezes em francês ou italiano.

Alterna dois estados: um em que está relativamente presente, triste e ansiosa, e outro, que Breuer chama de “ausências”, em que fica alheia, agitada, joga almofadas, arranca botões, e dos quais não guarda lembrança. Ela mesma diz que tem dois eus, um verdadeiro e um mau.

Uma cena explica várias dessas perturbações. Numa noite, sentada ao lado do pai, com o braço direito apoiado no encosto da cadeira, Bertha viu uma cobra preta se aproximar da cama para morder o doente. Quis afastá-la, mas o braço estava dormente. Os dedos se transformaram em pequenas cobras com caveiras nas pontas. Quis rezar, e não encontrou palavras em língua nenhuma, até que lhe veio um verso infantil em inglês. A paralisia do braço, a perda do alemão e o medo de cobras têm ali o seu ponto de origem.

A descoberta: o sintoma cede quando é falado

Breuer percebe que, à tarde, Bertha entra num estado parecido com a hipnose e conta histórias, devaneios tristes que ela chamava de seu teatro particular. Depois de falar, fica aliviada. A descoberta decisiva vem com um sintoma curioso: durante semanas, num verão muito quente, ela não consegue beber água, mesmo com muita sede. Leva o copo à boca e o afasta com repulsa.

Num desses estados, ela conta com nojo uma cena: tinha visto o cachorro da dama de companhia, uma inglesa de quem não gostava, beber água num copo. Na hora, por educação, não disse nada. Depois de contar a cena e expressar a raiva que tinha engolido, pede água, bebe muito e acorda com o copo nos lábios. O sintoma desaparece.

Breuer passa a trabalhar assim, sintoma por sintoma, buscando a cena em que cada um surgiu, e percorrendo-as em ordem inversa, da mais recente à mais antiga. Há um período em que Bertha revive, dia após dia, exatamente o que tinha vivido um ano antes, e Breuer confere as datas no diário da mãe. O que não havia sido dito se transformava em sintoma. Falar devolvia ao afeto um caminho.

O fim do tratamento

No relato publicado, o caso termina em junho de 1882, com uma última sessão em que Bertha revive a cena das cobras e se despede dos sintomas. Breuer escreve que ela saiu de Viena e recuperou a saúde. Sabe-se hoje que, logo depois, ela passou alguns meses internada num sanatório na Suíça e só se restabeleceu completamente anos mais tarde.

Freud contou outra versão do fim. Segundo ele, quando Breuer anunciou que encerraria o tratamento, foi chamado às pressas e encontrou Bertha em trabalho de parto imaginário, dizendo que estava chegando o filho do Dr. Breuer. Breuer, assustado, teria se afastado do caso e, por um tempo, da própria investigação.

Historiadores discutem a exatidão desse relato. Mas foi assim que Freud o transmitiu, em textos sobre a história do movimento psicanalítico, e o episódio marca o primeiro encontro da psicanálise com aquilo que ela depois chamaria de transferência. Para Freud, Breuer tinha recuado diante do caráter sexual do que estava em jogo. Ele próprio decidiu não recuar.

Bertha Pappenheim teve uma vida notável. Tornou-se pioneira do serviço social, fundou uma organização de mulheres judias na Alemanha, dirigiu um orfanato, lutou contra o tráfico de mulheres, traduziu Mary Wollstonecraft e escreveu contos. Nunca falou publicamente do tratamento.

Da catarse à psicanálise

O método catártico não era ainda a psicanálise. Ele supunha que bastava encontrar a cena e descarregar o afeto. Nos anos seguintes, Freud percebe que as lembranças não vêm sozinhas, que há uma força que as mantém afastadas, e que essa força reaparece na relação com o médico. Abandona a hipnose, passa à associação livre, descobre a resistência e a transferência.

Mas tudo isso está em germe no caso de Bertha. A ideia de que o sintoma tem um sentido, de que esse sentido se liga a uma história, de que falar transforma, e de que a relação com quem escuta faz parte do tratamento. Anna O. não foi uma paciente de Freud, mas foi a primeira a mostrar o caminho que ele seguiria.

O teatro particular: o devaneio na origem do sintoma

Breuer conta que, muito antes de adoecer, Bertha tinha o hábito de sonhar acordada. Vivia numa família de costumes rígidos, sem ocupação à altura da sua inteligência, e passava horas criando histórias, que ela chamava de seu teatro particular. Para Breuer, esse hábito preparou o terreno da doença: os estados de ausência seriam a continuação desses devaneios, só que agora fora do controle dela.

Freud retoma a questão de outro modo anos depois, em Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade, de 1908. Ali ele propõe que os devaneios conscientes, as pequenas histórias que todos contamos a nós mesmos, têm parentes inconscientes, e que são essas fantasias inconscientes que se expressam nos sintomas histéricos. Um ataque histérico pode ser a encenação, no corpo, de uma fantasia que o sujeito não sabe ter.

Lido assim, o caso de Bertha ganha outra luz. As cenas que ela revivia diante de Breuer não eram apenas lembranças de acontecimentos. Eram cenas já trabalhadas pela fantasia, organizadas como histórias, com personagens e enredo. A cobra que se aproxima da cama do pai, o braço que não obedece, a língua que se perde: o sintoma é feito da matéria dos sonhos diurnos.

Essa passagem, do acontecimento à fantasia, é uma das viradas decisivas da psicanálise, e começa a se desenhar a partir das histórias que Bertha contava ao entardecer.

A releitura de Lacan: o desejo de Breuer

No Seminário 11 (1964), Lacan retoma o caso por um ângulo inesperado. A pergunta habitual é o que Anna O. queria. Lacan pergunta o que queria Breuer.

Freud havia lido a gravidez imaginária como amor de transferência da paciente. Lacan sugere que ali estava em jogo também o desejo de Breuer, um médico que passava horas diárias ao lado de uma jovem fascinante e cuja mulher, segundo se conta, se ressentia disso. A transferência não se produz sozinha. Responde ao lugar que o outro ocupa.

É desse ponto que Lacan extrai uma noção central da sua clínica: o desejo do analista. Não se trata de o analista não desejar, mas de um desejo que não se confunde com o de ser amado, curar ou ter um filho do paciente. Um desejo que sustenta a análise em vez de ocupar o lugar dela. Breuer recuou diante do que a cura pela fala produziu. Freud ficou.

O que o caso diz a quem está se tornando analista

Anna O. mostra que a psicanálise começou escutando uma paciente e seguindo o caminho que ela indicava. O método não foi inventado por um médico diante de um caso, foi descoberto com ele.

E mostra que quem escuta também está em jogo. O que se passa numa análise não diz respeito só a quem fala. Diz respeito também ao lugar de quem escuta, e é por isso que a análise pessoal é um dos pilares da formação de qualquer analista.

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Referências

  • BREUER, J.; FREUD, S. (1893). Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: comunicação preliminar.
  • BREUER, J.; FREUD, S. (1895). Estudos sobre a histeria.
  • FREUD, S. (1914). A história do movimento psicanalítico.
  • LACAN, J. (1964). O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.

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