Emmy von N.: quando a paciente pede que Freud a escute

Em maio de 1889, Freud começa a tratar uma viúva rica de cerca de quarenta anos, mãe de duas filhas, que ele chamou de Emmy von N. Seu nome era Fanny Moser. O caso foi publicado nos Estudos sobre a histeria, em 1895, e é o primeiro em que Freud usa o método de Breuer com uma paciente própria.

É também o caso em que uma paciente pede a Freud que se cale.

O lugar do caso na obra de Freud

Em 1889, Freud ainda é um neurologista que trata doenças nervosas com os recursos da época: banhos, massagens, eletroterapia, repouso. Já tinha passado alguns meses em Paris com Charcot, onde viu que os sintomas histéricos podiam ser produzidos e suprimidos por sugestão hipnótica, e tinha traduzido Bernheim, que fazia da sugestão o centro do tratamento. No verão daquele mesmo ano, foi visitar Bernheim em Nancy.

Emmy é tratada nesse cruzamento. Freud a hipnotiza, dá ordens para que os sintomas desapareçam, mas também faz algo que vinha de Breuer: pergunta, sob hipnose, de onde vem cada sintoma, e procura a cena em que ele nasceu. O caso mostra as duas técnicas convivendo, e mostra o momento em que uma começa a ceder lugar à outra.

Os sintomas

Emmy fala com interrupções e gaguejos e faz com a língua um estalo que não controla, uma espécie de ruído seco que corta as frases. Tem contrações no rosto e no pescoço. De tempos em tempos, no meio de uma conversa, estende as mãos para a frente com o rosto tomado de pavor e exclama: fique quieto, não diga nada, não me toque.

Tem medo de animais e alucinações com eles: ratos, sapos, vermes, cobras. Lembranças assustadoras voltam como se estivessem acontecendo naquele momento. Ela conta que, na infância, os irmãos jogavam animais mortos nela, que viu a mãe ser levada para um hospício, que encontrou uma irmã morta. O marido, muito mais velho, morreu de repente ao seu lado, e a família dele chegou a acusá-la de tê-lo envenenado.

A fórmula de proteção

Sob hipnose, Freud descobre o sentido da exclamação. “Fique quieto, não diga nada, não me toque” é uma fórmula de proteção. Emmy a dirige às imagens assustadoras que voltam: que fiquem paradas, que não falem, que não a toquem. A frase que parece absurda no meio de uma conversa é a resposta a algo que só ela está vendo.

O estalo da língua tem outra origem. Emmy conta que, certa vez, velava a filha doente e precisava fazer silêncio absoluto para não acordá-la. Justamente nesse momento, o estalo escapou. Em outra ocasião, os cavalos da carruagem se assustaram e ela quis ficar quieta para não piorar a situação, e o ruído saiu de novo.

Freud desenvolve a partir daí uma ideia que tinha esboçado num artigo pouco anterior: a contravontade histérica. Quando o sujeito se propõe com muita força a fazer ou a não fazer algo, a intenção contrária, que ele afastou, pode se impor justamente ali. O sintoma nasce no lugar exato em que a vontade consciente queria o oposto. É uma das primeiras formulações de Freud sobre o conflito psíquico.

“Deixe-me contar o que tenho a dizer”

O momento pelo qual o caso é lembrado acontece no meio de uma dessas buscas. Freud insiste em perguntar de onde vinha uma dor no estômago. Emmy, irritada, diz que ele não deve ficar perguntando de onde vem isso ou aquilo, mas deixá-la contar o que tem a dizer.

Freud aceita. E registra que, deixada livre, a fala dela chegava sozinha onde as perguntas dele não chegavam. O que ela trazia parecia desordenado, uma conversa que passava de uma lembrança a outra sem plano. Mas tinha uma lógica própria: uma lembrança puxava outra, e o sintoma aparecia no fim do caminho. Freud nota que, mesmo fora da hipnose, as conversas de Emmy não eram tão sem propósito quanto pareciam. Funcionavam como um complemento da hipnose, uma forma de descarregar o que a perturbava.

Esse é um dos momentos de origem da associação livre, a regra fundamental da psicanálise. A pessoa fala o que lhe vem, sem escolher, sem ordenar. O analista não conduz. Acompanha. Levaria ainda alguns anos até que Freud abandonasse de vez a hipnose, mas a direção estava dada.

Os limites do caso

O caso Emmy von N. ainda pertence ao momento em que Freud acreditava na hipnose e na sugestão. Ele dá ordens para que certas lembranças se apaguem, tenta convencer a paciente de que seus medos não têm fundamento, chega a dizer a ela, sob hipnose, que não terá mais medo de animais. Os resultados são parciais. Emmy melhora, recai, briga com os médicos, volta a melhorar. Um ano depois, Freud a trata de novo.

O próprio Freud, revendo o caso anos depois, reconheceu os seus limites. Numa nota de 1924, admite que tinha subestimado o que estava em jogo na vida de Emmy e superestimado o alcance da sugestão. E nota que nenhum analista leria aquelas páginas sem perceber o quanto ele ainda ignorava. O caso guarda o valor de um começo: é a cena de um método que ainda não sabe que vai mudar.

A sexualidade que não aparece

Freud observa, já em 1895, que Emmy evitava cuidadosamente qualquer referência à vida sexual. Viúva jovem, rica, cercada de pretendentes, ela recusava todos, em nome das filhas, e vivia uma abstinência rigorosa. Freud se pergunta se isso não teria um papel nos sintomas, mas não avança. Os Estudos sobre a histeria ainda não dão à sexualidade o lugar que ela terá poucos anos depois. Lido hoje, o caso mostra o ponto exato em que Freud chega perto de algo e ainda não pode nomeá-lo.

Por que Freud deixou a hipnose

O caso Emmy permite entender por que Freud abandonou, nos anos seguintes, o método com que tinha começado. Em sua Autobiografia, de 1925, ele dá três razões.

A primeira é prática: nem todos os pacientes se deixavam hipnotizar, e Freud nunca conseguiu dominar a técnica a ponto de hipnotizar quem quisesse. Lucy e Elisabeth, tratadas logo depois, foram casos em que a hipnose simplesmente não funcionou.

A segunda é mais importante. Freud percebeu que os resultados da sugestão dependiam da relação do paciente com o médico. Quando essa relação se perturbava, os sintomas voltavam, mesmo que o trabalho tivesse sido bem-feito. A cura parecia depender menos do que se descobria e mais do vínculo com quem sugeria. Com Emmy isso era evidente: ela melhorava quando confiava nele e recaía quando brigava com os médicos.

A terceira é teórica. A hipnose encobria justamente aquilo que mais interessava: a resistência. Sob hipnose, o paciente lembrava sem esforço, e o médico não via a força que mantinha as lembranças afastadas. Sem hipnose, essa força aparece, e com ela o conflito que produz o sintoma.

O que Freud tinha tomado como um obstáculo, o vínculo com o médico, se revelaria depois como o próprio motor da análise. É a transferência, que a hipnose usava sem saber e que a psicanálise passou a interpretar.

A releitura de Lacan: o discurso da histérica

No Seminário 17, O avesso da psicanálise (1969-1970), Lacan formaliza quatro discursos, quatro modos de laço social. Um deles é o discurso da histérica. Nele, o sujeito dividido, atravessado por uma pergunta que não sabe responder, se dirige a um mestre e o põe para trabalhar. Pede que ele produza um saber, e mostra os limites desse saber.

Emmy faz exatamente isso. Exige de Freud, contesta Freud, corrige o método de Freud. E, ao fazê-lo, o leva a produzir algo novo. Para Lacan, a psicanálise nasceu desse encontro: Freud escutou o que as histéricas diziam em vez de lhes impor o saber médico, e desse lugar de escuta surgiu o discurso do analista.

A queixa de Emmy, “deixe-me falar”, é o avesso da posição do médico que sabe. E é nesse avesso que a psicanálise se instala.

O que o caso diz a quem está se tornando analista

Emmy von N. lembra que a urgência de entender pode atrapalhar a escuta. Perguntar demais, conduzir demais, querer chegar logo à causa são modos de o analista ocupar o espaço que deveria ficar para quem fala.

A psicanálise começou quando Freud aceitou ser corrigido por uma paciente. Talvez por isso a escuta nunca seja algo que se domina de uma vez. Ela se refaz a cada análise.

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Referências

  • BREUER, J.; FREUD, S. (1895). Estudos sobre a histeria.
  • FREUD, S. (1892-1893). Um caso de cura pelo hipnotismo.
  • LACAN, J. (1969-1970). O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise.

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