Lucy R.: a fumaça de charuto e o que ela não queria saber

No fim de 1892, um colega que tratava uma rinite crônica encaminha a Freud uma governanta inglesa de trinta anos. Ela perdeu quase todo o olfato e, ao mesmo tempo, sente o tempo todo um cheiro que não está ali: cheiro de pudim queimado. Anda deprimida, cansada, com a cabeça pesada. Freud a chamou de Miss Lucy R. O caso está nos Estudos sobre a histeria, de 1895.

É um caso curto, cerca de nove semanas, e contém uma das frases mais citadas de toda a obra de Freud.

O lugar do caso na obra de Freud

Lucy é tratada no mesmo período que Elisabeth von R., e os dois casos marcam a passagem de Freud da hipnose para um método próprio. Freud também se interessa por ela por outro motivo: a histeria de Lucy parece ter sido adquirida, e não herdada, numa época em que a psiquiatria explicava as neuroses sobretudo pela degeneração e pela predisposição. Lucy era uma moça saudável, sem antecedentes, que adoeceu por causa de algo que lhe aconteceu. O caso serve para mostrar que um conflito psíquico basta para produzir uma histeria.

Um método sem hipnose

Lucy não se deixa hipnotizar. Freud, em vez de desistir, lembra de algo que tinha visto Bernheim fazer em Nancy: pessoas que, ao acordar de um estado hipnótico, diziam não se lembrar de nada, acabavam lembrando quando o médico insistia e garantia que elas sabiam. Freud conclui que o paciente sabe tudo o que importa. A tarefa é fazê-lo dizer.

Ele passa então a trabalhar com Lucy acordada. Pede que se deite, feche os olhos, se concentre, pressiona levemente sua testa e garante que algo lhe ocorrerá. Ocorre. É mais um passo no caminho que levaria Freud da hipnose à associação livre, e o início da ideia de que o saber está do lado de quem fala, não do lado de quem escuta.

A cena do pudim

Lucy trabalha na casa de um diretor de fábrica, viúvo, cuidando das duas filhas dele. Tinha prometido à mãe das meninas, uma parente distante, que cuidaria delas como uma mãe.

O cheiro vem de uma cena precisa. Dois dias antes do seu aniversário, Lucy brincava de cozinhar com as crianças quando chegou uma carta da mãe dela, que morava na Escócia. As meninas tomaram a carta, dizendo que era para ser aberta só no dia do aniversário, e no meio da brincadeira o pudim queimou. Desde então, o cheiro de pudim queimado a acompanhava, e ficava mais forte quando ela se emocionava.

Naquele momento Lucy pensava em deixar a casa e voltar para a mãe. Outros empregados faziam intrigas contra ela, e ela não se sentia apoiada pelo patrão. Ao ver o carinho das meninas, se emocionou, e se perguntou como poderia abandoná-las. O cheiro ficou no lugar desse conflito.

“Eu não sabia, ou melhor, não queria saber”

Freud não se dá por satisfeito. Um conflito entre ficar e partir não explicava sozinho a força do sintoma. Ele percebe que a ligação de Lucy com a casa era mais forte do que o dever com as crianças. Então arrisca.

Diz a Lucy que acha que ela está apaixonada pelo patrão, talvez sem saber, e que alimenta a esperança de ocupar o lugar da mãe das meninas. Ela responde com simplicidade que sim, acha que sim. Freud pergunta por que ela não tinha dito antes, se sabia. E ela dá a resposta que atravessaria a história da psicanálise: não sabia, ou melhor, não queria saber. Queria tirar aquilo da cabeça e não pensar mais nisso.

Freud comenta numa nota que nunca conseguiu descrever melhor do que com essas palavras o estranho estado em que alguém sabe e não sabe uma coisa ao mesmo tempo. E compara esse estado a uma cegueira de quem vê: o olho enxerga, mas a percepção não chega a se tornar saber.

O cheiro de charuto

Depois dessa conversa, o cheiro de pudim some, e aparece outro, de fumaça de charuto. Freud segue o novo cheiro. Ele leva a uma cena anterior: num almoço, um convidado, o velho contador da fábrica, tentou beijar as meninas na boca. O patrão explodiu de raiva contra ele. Os homens fumavam charuto na mesa.

E essa cena desperta outra, ainda mais antiga. Uma visita, uma senhora, tinha beijado as meninas na boca ao se despedir. Depois que ela saiu, o patrão repreendeu duramente Lucy, como se a culpa fosse dela, e ameaçou demiti-la se aquilo se repetisse. Naquele dia, a esperança de ser amada por ele desabou. A cena do contador apenas reavivou essa humilhação.

No fim do tratamento, Lucy está bem. O olfato volta, o humor melhora. Diz a Freud que continua gostando do patrão, mas que isso é assunto dela, e que pensamentos e sentimentos são livres.

O recalque e o momento traumático

O caso Lucy R. deixa claro o que Freud chamará de recalque. Uma ideia incompatível com o resto da vida psíquica, aqui o amor por um homem que não a escolheria, é afastada da consciência. Mas não desaparece. O afeto ligado a ela se desloca e se fixa num símbolo, um cheiro que estava presente na cena.

Freud faz uma distinção fina sobre o momento em que isso acontece. O trauma propriamente dito não é a cena em si. É o momento em que a contradição se impõe ao eu, e o eu decide expulsar a ideia que o incomoda. Os sintomas que vêm depois são consequências desse ato de defesa. Por isso o “não querer saber” de Lucy mostra que o recalque não é ignorância simples. É um saber que não se quer ter, e que ao mesmo tempo não deixa de agir.

O cheiro como símbolo mnêmico

Freud dá um nome ao papel que o cheiro desempenha no caso: símbolo mnêmico. O sintoma de Lucy é como um monumento que marca o lugar de uma lembrança. Assim como uma estátua numa praça recorda um acontecimento que os passantes talvez já tenham esquecido, o cheiro de pudim queimado recorda a cena em que o conflito se impôs, sem que Lucy saiba o que ele recorda.

Por que um cheiro, e não outra coisa? Freud nota que a escolha não é arbitrária. Lucy sofria de uma rinite, e o nariz já era uma região sensível, o ponto de apoio de que o sintoma precisava. E o cheiro era, de fato, a percepção mais marcante da cena: no momento em que a emoção a tomou, o pudim queimava. O sintoma se apropria de um elemento real da situação e o transforma em portador de um sentido que ultrapassa a situação.

Freud observa também que os símbolos se encadeiam. Quando o primeiro cheiro é esclarecido, um segundo aparece, o da fumaça de charuto, ligado a uma cena mais antiga. O tratamento avança assim, de um símbolo a outro, como quem descasca camadas, até chegar ao núcleo do conflito. Cada sintoma resolvido abre caminho para o que estava por trás dele.

Há aí uma ideia que Freud vai desenvolver depois: a de que o sintoma é uma formação de compromisso. Ele mantém a lembrança fora da consciência e, ao mesmo tempo, a conserva. Esconde e mostra.

A releitura de Lacan: a paixão da ignorância

Lacan retoma esse ponto ao falar das três paixões do ser: o amor, o ódio e a ignorância. Ele as menciona no Seminário 1 e em Variantes do tratamento-padrão (1955). A ignorância, para Lacan, não é falta de informação. É uma paixão, algo ativo, um investimento em não saber.

Daí uma consequência clínica. O paciente chega a uma análise pedindo um saber sobre o seu sofrimento e, ao mesmo tempo, não quer saber nada do que o causa. Não há contradição nisso. É a própria estrutura da neurose. Lucy sabia, sem querer saber, e o sintoma ficava no lugar desse saber.

Por isso a interpretação não funciona como uma explicação. Ela só tem efeito quando o sujeito já pode querer saber do que se trata.

O que o caso diz a quem está se tornando analista

Lucy R. mostra que o sintoma pode ser algo tão pequeno quanto um cheiro e, ainda assim, carregar uma história inteira. Escutar é levar a sério esses detalhes.

E mostra também que o fim de uma análise não é a solução de todos os problemas. Lucy não conquistou o patrão. Saiu do tratamento sabendo o que desejava e podendo dizer que isso era assunto seu.

Na Formação em Psicanálise do Instituto La Lettre, os casos de Freud são lidos com a releitura de Lacan, ao longo de 30 meses, online e ao vivo. Conheça a formação.

Referências

  • BREUER, J.; FREUD, S. (1895). Estudos sobre a histeria.
  • LACAN, J. (1953-1954). O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud.
  • LACAN, J. (1955). Variantes do tratamento-padrão. In: Escritos.

Compartilhe nas mídias: