Elisabeth von R.: a dor nas pernas e o desejo que não se diz

No outono de 1892, um colega encaminha a Freud uma jovem de 24 anos que sente dores fortes nas pernas e mal consegue andar. Os médicos não encontram causa. Ela anda com o tronco inclinado para a frente, sem apoio, e se cansa depressa. Freud a chamou de Elisabeth von R. Seu nome era Ilona Weiss, e o caso está nos Estudos sobre a histeria, de 1895.

Freud o considerou a primeira análise completa de uma histeria. E foi a propósito dele que escreveu uma frase que diz muito sobre a psicanálise: suas histórias clínicas se liam como novelas, como se lhes faltasse o selo sério da ciência. A explicação, diz ele, está na natureza do objeto, e não numa preferência sua. Uma descrição detalhada dos processos psíquicos, como a que os escritores fazem, é o que permite compreender a histeria.

O lugar do caso na obra de Freud

O caso marca uma mudança de técnica. Elisabeth não se deixa hipnotizar profundamente, e Freud decide trabalhar com ela acordada. Pede que ela se deite, feche os olhos, e diga tudo o que lhe vier quando ele pressionar a sua testa com a mão. Garante que alguma lembrança vai surgir. É a chamada técnica da pressão, um passo intermediário entre a hipnose e a associação livre.

Freud compara o trabalho a uma escavação. As lembranças estão dispostas em camadas, como numa cidade soterrada, e o tratamento as atravessa da superfície ao fundo, das mais acessíveis às mais resistentes. A imagem do analista como arqueólogo, que Freud usará a vida inteira, aparece aqui.

Uma história de perdas

Elisabeth é a caçula de três irmãs, a preferida do pai, que a tratava quase como um filho e uma companheira de conversa. Durante um ano e meio cuidou dele, doente do coração, até a morte. Pouco depois, a mãe adoece dos olhos e precisa de cuidados. A irmã mais velha se casa com um homem de quem Elisabeth não gosta, ambicioso e pouco atento à família. A do meio se casa com um homem gentil, que Elisabeth admira.

Num verão numa estação de águas, ela faz longos passeios com esse cunhado, enquanto a irmã, grávida, descansa. Pensa que gostaria de ter um marido como ele. Pouco depois, a irmã do meio morre de uma doença do coração agravada pela gravidez. Elisabeth chega tarde, e junto ao leito da irmã lhe ocorre um pensamento que ela imediatamente afasta: agora ele está livre e pode se casar comigo.

A resistência

É neste caso que Freud encontra, de forma clara, aquilo que vai chamar de resistência. Às vezes, quando ele pressiona a testa de Elisabeth, ela diz que nada lhe ocorreu. Freud insiste, garante que algo veio. E ela acaba admitindo que tinha pensado algo, mas que achou que não era importante, ou que era desagradável demais para dizer.

Freud conclui que o “nada me ocorre” não é ausência de lembranças. É uma força que trabalha contra a lembrança, a mesma força que, no passado, afastou a ideia da consciência. O tratamento não encontra apenas esquecimento. Encontra uma recusa ativa de saber. Esse achado muda tudo, porque desloca o trabalho clínico: não basta procurar a cena, é preciso atravessar o que impede de chegar até ela.

A dor que fala

A zona da dor, na coxa direita, era o lugar onde o pai apoiava a perna enquanto ela trocava os curativos. As dores pioravam ao se lembrar dos passeios com o cunhado. E havia algo curioso: quando Freud apertava a pele da região dolorida, o rosto de Elisabeth não mostrava propriamente dor, mas uma expressão que ele descreve como de prazer. Freud chama essas regiões de zonas histerógenas.

A própria queixa de Elisabeth tinha a forma de uma frase. Ela dizia que não conseguia dar um passo adiante, que se sentia sozinha, que não conseguia ficar de pé. Freud reconhece aí um mecanismo que chama de simbolização: uma expressão verbal comum, tomada ao pé da letra, se realiza no corpo. A dor de não ter apoio vira a impossibilidade de se sustentar sobre as pernas.

Freud lê no sintoma a conversão de um conflito em corpo, conceito que ele tinha formulado pouco antes. Uma ideia incompatível com o resto da vida psíquica, o amor pelo marido da irmã, é afastada da consciência. O afeto ligado a ela não desaparece: é desviado para o corpo e se fixa num ponto já marcado por outra história, a do cuidado com o pai. O que não podia ser pensado foi dito pelas pernas.

O desfecho

Quando Freud lhe aponta o amor pelo cunhado, Elisabeth reage com um grito e com uma dor intensa. Diz que não é verdade, que nunca pensaria isso. Não quer saber. Aos poucos, consegue falar disso. Freud conversa com a mãe, que confirma que não há esperança de casamento: a família do cunhado e a de Elisabeth estavam brigadas por questões de herança. Elisabeth sofre com a indiscrição de Freud e se afasta dele por um tempo.

A dor diminui. Na primavera de 1894, Freud consegue um convite para um baile em que sabe que ela estará, e a vê passar dançando. Mais tarde ela se casou com outro homem.

Defesa e conversão: a teoria por trás do caso

Em 1894, em As neuropsicoses de defesa, Freud tinha proposto uma explicação geral para a histeria, as obsessões e certas fobias. Em todos esses quadros, o sujeito se depara com uma representação incompatível, uma ideia, uma lembrança ou um desejo que entra em choque com o que ele pensa de si mesmo. O eu decide esquecê-la. Mas uma ideia não se apaga por decisão.

O que o eu consegue fazer é separar a ideia do afeto que a acompanha. A representação, enfraquecida, sai da consciência. A quantidade de afeto que estava ligada a ela fica livre e precisa ir para algum lugar. O destino dessa quantidade define a forma da neurose. Na histeria, ela é convertida em inervação corporal, e surge o sintoma no corpo. Na neurose obsessiva, ela se liga a outra ideia, inofensiva, que passa a ser vivida com uma intensidade absurda. Nas fobias, ela se fixa num objeto do mundo.

Elisabeth von R. é a ilustração perfeita do primeiro caminho. A ideia incompatível é o amor pelo cunhado, que contraria tudo o que ela sabe sobre si: a irmã leal, a filha dedicada. Essa ideia é afastada, e o afeto que a acompanhava desce para as pernas, para um ponto que já carregava outra história. Freud acrescenta que a conversão não acontece de uma vez. Cada nova ocasião em que a ideia volta reforça o sintoma, como se a dor fosse sendo depositada em camadas.

O tratamento, nessa lógica, faz o caminho inverso: devolve a ideia à consciência e permite que o afeto encontre outra via, a da palavra.

A releitura de Lacan: o desejo que passa pela outra

Lacan, sobretudo no Seminário 5, As formações do inconsciente (1957-1958), mostra que o desejo histérico tem uma estrutura particular: ele se sustenta como desejo insatisfeito e passa pelo desejo de outra pessoa.

O caso de Elisabeth tem essa forma. O homem que ela deseja é o marido da irmã. O que a atrai nele não é apenas ele, mas aquilo que a irmã tem: o lugar de mulher desejada por um homem gentil. O desejo de Elisabeth se apoia no desejo da irmã, e por isso só pode existir enquanto impossível. Quando a irmã morre e o caminho parece se abrir, o desejo vira culpa e sintoma.

Há também o lugar do pai. Durante a doença dele, Elisabeth foi a filha que cuidava e se sacrificava, que ocupava ao seu lado um lugar quase de companheira. O sintoma guarda essa fidelidade: a perna doente é o lugar onde o pai se apoiava.

O que o caso diz a quem está se tornando analista

Elisabeth von R. mostra que o corpo histérico não mente. Ele diz, à sua maneira, aquilo que o sujeito não pode pronunciar, e muitas vezes com as mesmas palavras que a pessoa usa para se queixar.

Mostra também que a resistência não é um defeito do paciente, mas parte do próprio material da análise. E que a interpretação não é um esclarecimento que se entrega. Quando Freud nomeia o desejo, Elisabeth sofre. O tempo de ouvir o que já se sabe é o tempo de cada um, e a análise precisa respeitá-lo.

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Referências

  • BREUER, J.; FREUD, S. (1895). Estudos sobre a histeria.
  • FREUD, S. (1894). As neuropsicoses de defesa.
  • LACAN, J. (1957-1958). O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente.

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