Em 1920, Freud publica Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade numa mulher. A paciente é uma jovem de dezoito anos, bonita, inteligente, de uma família abastada de Viena, que ficou conhecida como a jovem homossexual. Anos depois, sua história foi contada numa biografia, sob o nome de Sidonie Csillag.
O caso começa de um modo pouco comum. Não foi ela quem pediu a análise. Foi o pai.
O lugar do caso na obra de Freud
O texto sai no mesmo ano de Além do princípio do prazer, num momento em que Freud está revendo os fundamentos da sua teoria. É o único caso de homossexualidade feminina que ele publicou, e um dos raros em que o tratamento foi interrompido por iniciativa dele.
Freud abre o texto com uma advertência que vale ainda hoje: a psicanálise não é chamada a resolver o problema da homossexualidade. Ela pode esclarecer os caminhos pelos quais uma escolha de objeto se formou, mas não decide o que alguém deve desejar. E ele distingue três coisas que costumam ser confundidas: os caractísticas sexuais do corpo, os traços psíquicos considerados masculinos ou femininos e a escolha de objeto. Para Freud, as três variam com relativa independência umas das outras.
A dama e a queda
A jovem se apaixonou por uma mulher cerca de dez anos mais velha, de reputação duvidosa na sociedade vienense, que vivia com uma amiga e tinha relações com vários homens. Os pais desaprovavam. Ela, longe de esconder, passeava com a dama pelas ruas mais movimentadas, inclusive as próximas ao escritório do pai.
Num desses passeios, o pai passa e lança às duas um olhar furioso. A dama pergunta quem era aquele homem e, ao saber, diz que não quer mais vê-la, que tudo acabou. A jovem se atira de um muro sobre os trilhos de uma linha de trem urbano. Sobrevive, depois de semanas acamada.
Freud observa que, em alemão, o verbo que designa cair, niederkommen, também significa dar à luz. A tentativa de suicídio, para ele, realizava ao mesmo tempo um castigo e um desejo: cair e ter um filho do pai.
A leitura de Freud
Freud reconstrói uma virada aos dezesseis anos. Naquela época, a jovem se interessava pela maternidade e se ocupava com carinho de um menino pequeno. Então a mãe engravida e dá à luz um terceiro filho. Para Freud, a jovem viveu isso como uma decepção: não era ela, mas a mãe, quem recebia do pai um filho. Ofendida, afasta-se dos homens e do desejo de ter um filho, e volta o seu amor para mulheres mais velhas.
Freud nota que a mãe, ainda jovem e vaidosa, preferia os filhos homens e tratava a filha com dureza. Ceder as mulheres à mãe e os homens ao pai era também, para a jovem, uma forma de sair do caminho da mãe. E o amor exibido pela dama tinha um endereço: ele se mostrava ao pai, como desafio e como vingança.
O modo como ela ama a dama chama atenção de Freud: um amor devotado, idealizado, que não pede nada em troca, que se contenta com um beijo na mão, como o de um cavaleiro por sua dama na poesia medieval. Freud vê nessa posição uma maneira masculina de amar, no sentido de que ela ocupa ali o lugar de quem corteja e não o de quem é cortejada.
Freud é claro sobre um ponto que, para a época, não era evidente. A jovem não estava doente, não sofria pela sua orientação, não tinha sintomas neuróticos e não pedia para mudar. Ele escreve que, em geral, a tentativa de transformar uma homossexualidade plenamente constituída numa heterossexualidade não tem muito mais chance de sucesso do que o caminho inverso.
Os sonhos que mentem
Durante a análise, a jovem colabora de modo intelectual e frio. Compreende as interpretações, mas nada se move. Até que traz uma série de sonhos que anunciam a cura, o casamento com um homem, filhos. Freud desconfia. Lê esses sonhos como feitos para enganá-lo, para dar ao pai, através dele, o que o pai queria.
A partir daí Freud faz uma observação teórica importante. Alguém poderia objetar que o inconsciente não mente, e que, portanto, um sonho não pode ser enganoso. Freud responde que o sonho não é o inconsciente. É uma forma que o pensamento pré-consciente assume, e esse pensamento pode muito bem trazer a intenção de agradar ou de iludir o analista. O desejo inconsciente, por trás, era justamente o de enganá-lo, como ela enganava o pai.
Por que Freud interrompeu
Freud conclui que ela transferia para ele uma recusa radical dirigida aos homens, a mesma com que se vingava do pai. Uma transferência assim, pensa ele, inviabilizava o trabalho. Interrompe o tratamento depois de poucos meses, recomendando que, se continuasse, fosse com uma analista mulher.
Bissexualidade e escolha de objeto em Freud
Para entender o caso, é preciso lembrar uma tese que Freud defendia desde os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905: a bissexualidade constitutiva. Todo ser humano, para Freud, carrega disposições masculinas e femininas, e toda pessoa é capaz de uma escolha de objeto homossexual, que em muitos casos permanece inconsciente.
Numa nota acrescentada aos Três ensaios em 1915, Freud escreve uma frase que vira de cabeça para baixo a pergunta habitual. O interesse sexual exclusivo de um homem por mulheres, diz ele, também é um problema que precisa de explicação, e não algo evidente por si mesmo, baseado numa atração de natureza química. Não é só a homossexualidade que pede uma história. A heterossexualidade também.
É com essa perspectiva que Freud aborda a jovem. Ele não procura um defeito, mas os caminhos singulares pelos quais uma escolha se formou: o lugar da mãe, a decepção com o pai, o nascimento do irmão, o modo de amar. Ao mesmo tempo, ele é cauteloso sobre o que pode afirmar. No fim do texto, admite que a psicanálise reconstrói bem um percurso olhando para trás, mas não poderia prevê-lo olhando para a frente. Os mesmos acontecimentos, em outra pessoa, poderiam levar a outro desfecho.
Essa prudência é uma das marcas do caso, e um dos motivos pelos quais ele continua sendo lido.
A releitura de Lacan: acting out e passagem ao ato
Lacan volta a esse caso duas vezes. No Seminário 4 (1956-1957), lê o amor da jovem pela dama como uma demonstração endereçada ao pai: ela mostra a ele como se ama alguém, dando o que não tem.
No Seminário 10, A angústia (1962-1963), Lacan usa o caso para distinguir duas coisas que costumam se confundir. Os passeios diante do escritório do pai são um acting out: uma cena montada para ser vista, uma mensagem endereçada a alguém que precisa lê-la. O salto sobre os trilhos é outra coisa. É uma passagem ao ato.
Na passagem ao ato, o sujeito sai da cena. Diante do olhar do pai e da recusa da dama, não há mais a quem endereçar a mensagem, e a jovem se deixa cair, identificada ao que foi deixado cair. O niederkommen de Freud ganha em Lacan esse peso: não apenas o parto simbólico, mas a queda do sujeito como objeto.
Lacan também retoma a interrupção. Freud não suportou ocupar o lugar que a transferência lhe dava, o de um pai a quem se mostra algo, e passou ele mesmo ao ato ao encerrar a análise.
O que o caso diz a quem está se tornando analista
A jovem homossexual mostra que nem toda demanda de análise vem de quem está no consultório. Quando alguém chega trazido por outro, a primeira pergunta é se há, ali, um pedido próprio.
Mostra também a importância de distinguir o que é uma mensagem dirigida a alguém do que é uma saída de cena. A diferença entre acting out e passagem ao ato é uma das mais delicadas da clínica, porque diz respeito ao risco.
Na Formação em Psicanálise do Instituto La Lettre, os casos de Freud são lidos com a releitura de Lacan, ao longo de 30 meses, online e ao vivo. Conheça a formação.
Referências
- FREUD, S. (1920). Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade numa mulher.
- LACAN, J. (1956-1957). O Seminário, livro 4: A relação de objeto.
- LACAN, J. (1962-1963). O Seminário, livro 10: A angústia.




