Katharina: a histeria numa conversa na montanha

No verão de 1893, Freud está de férias nos Alpes austríacos. Depois de uma subida, descansa num refúgio a mais de dois mil metros, contemplando a paisagem e decidido a esquecer por alguns dias as neuroses, quando a moça que serve as refeições, de uns dezoito anos, se aproxima e pergunta se ele é médico. Tinha visto o nome dele no livro de hóspedes. Freud a chamou de Katharina. O caso, publicado nos Estudos sobre a histeria em 1895, é o mais curto do livro e cabe numa única conversa.

Não houve consultório, hipnose nem sessões. Houve uma pergunta, e Freud aceitou escutar.

O lugar do caso na obra de Freud

Em 1893, Freud está montando a sua teoria das neuroses de defesa. Começa a pensar que, na origem da histeria, há sempre uma experiência sexual vivida cedo demais, sem que o sujeito tivesse meios de compreendê-la. Katharina aparece como uma confirmação viva dessa hipótese, e com um interesse adicional: ela é jovem o bastante para que a distância entre o acontecimento e o sintoma seja curta, e as lembranças estejam ainda acessíveis.

Freud também observa, com certa ironia, que a técnica ali se reduziu ao mínimo. Sem hipnose, sem pressão na testa, apenas uma conversa franca, em que ele usa o que já sabe sobre as angústias das moças daquela idade para formular uma pergunta certeira.

O que Katharina sente

Ela conta que tem crises em que lhe falta o ar. Os olhos pesam, a cabeça lateja e zune, ela fica tonta, sente um peso no peito como se fosse sufocar, e tem a impressão de que vai morrer. Durante as crises, vê um rosto horrível que a olha com raiva. Não sabe de quem é o rosto.

Freud reconhece nessa descrição um ataque de angústia, e arrisca uma hipótese: os primeiros ataques talvez tenham começado depois de ela ter visto ou ouvido algo que a constrangeu muito, algo que preferia não ter visto.

As duas cenas

Katharina se lembra. Dois anos antes, procurando a prima Franziska, olhou pela janela de um quarto e viu o tio deitado com ela. Ficou sem ar, com a cabeça latejando, e dias depois vomitou sem parar. Contou à tia, e o casamento dos tios se desfez. A tia foi embora com os filhos e assumiu o refúgio onde Katharina agora trabalha. O tio passou a odiá-la, dizendo que a culpa de tudo era dela. O rosto das crises era o dele, furioso.

Mas Freud nota que a reação de Katharina àquela cena foi intensa demais para o que ela tinha visto. Pergunta mais, e ela conta cenas anteriores. Aos catorze anos, numa viagem, acordou à noite com o corpo do tio junto ao seu na cama. Afastou-o e passou o resto da noite acordada. Em outras ocasiões, ele tinha se aproximado dela bêbado. Na época, ela não entendeu o que se passava. Sentiu apenas um mal-estar que não sabia nomear.

Ao terminar de contar, Katharina parece outra. O rosto fechado se abre. Freud escreve que esperava que a conversa lhe tivesse feito bem, e nunca mais a viu.

O trauma em dois tempos

O caso Katharina mostra algo que Freud desenvolveria nos anos seguintes. A primeira cena, vivida sem compreensão, não produziu sintoma. Katharina era, nas palavras de Freud, uma menina ainda sem saber sexual. A segunda cena, a da janela, em si menos grave, deu sentido sexual à primeira. Foi ao ver o tio com a prima que Katharina entendeu o que ele quisera com ela. E foi só então que a primeira cena se tornou traumática.

O trauma, portanto, não está num acontecimento isolado. Está na relação entre dois momentos, e o segundo age sobre o primeiro. Entre eles há um tempo de incubação, um intervalo em que nada parece acontecer. Freud dirá que a lembrança produz um efeito que a vivência não produziu. É o que ele chama de Nachträglichkeit, o “só depois”.

Emma: o mesmo mecanismo no Projeto

Dois anos depois, em 1895, Freud volta a essa lógica num texto que só seria publicado após a sua morte, o Projeto para uma psicologia científica. Ali ele analisa o caso de uma paciente, Emma, que não conseguia entrar sozinha em lojas.

Emma se lembra de que, aos doze anos, entrou numa loja, viu dois vendedores rindo, e saiu correndo, assustada, com a sensação de que riam da sua roupa. A cena não explica o medo. Mas por trás dela há outra: aos oito anos, um comerciante a tocou por cima da roupa, rindo. Na época, ela não sentiu nada de especial, e voltou à loja depois. Foi aos doze, já na puberdade, que a segunda cena, com o riso dos vendedores, despertou a primeira, e só então a lembrança da primeira produziu angústia.

Freud conclui que uma lembrança pode despertar um afeto que a própria vivência não despertou, porque no intervalo a puberdade tornou possível uma compreensão que antes não existia. É o mesmo mecanismo que ele tinha encontrado no refúgio da montanha.

A nota de 1924

Numa nota acrescentada em 1924, Freud revela um detalhe que havia omitido por discrição: o homem não era tio de Katharina. Era o pai. Trinta anos depois, ele considera que já pode corrigir o relato sem expor a jovem. A correção muda a gravidade do caso e mostra, ao mesmo tempo, o cuidado com que Freud tratou aquilo que lhe foi confiado.

Da sedução à fantasia

Nos anos seguintes ao encontro com Katharina, Freud generaliza o que tinha escutado. Em 1896, em A etiologia da histeria, sustenta que na origem de toda histeria há uma experiência sexual precoce, vivida passivamente na infância, que só depois ganha efeito. É a chamada teoria da sedução.

Em setembro de 1897, numa carta ao amigo Wilhelm Fliess, Freud anuncia que não acredita mais nessa teoria como explicação universal. Entre as razões, está a constatação de que no inconsciente não há um sinal que distinga a lembrança de um fato da fantasia investida de afeto. Muitas das cenas relatadas pelos pacientes eram construções, feitas de desejos e de temores, e não registros fiéis.

É importante entender o que essa virada significa e o que ela não significa. Freud não passou a duvidar de que crianças fossem abusadas. Katharina, Dora e tantos outros relatavam acontecimentos reais, e ele continuou reconhecendo isso. O que mudou foi o lugar da fantasia: ela deixou de ser um detalhe e passou a ser a matéria com que cada sujeito elabora o que viveu, inclusive o que viveu de fato.

O caso Katharina guarda as duas coisas. Há um abuso real, que Freud nomeia com clareza, e há o trabalho psíquico, em dois tempos, que transforma esse abuso em sintoma. A psicanálise se interessa por esse segundo movimento sem apagar o primeiro.

A releitura de Lacan: o tempo do significante

Lacan faz do “só depois” um dos eixos da sua leitura de Freud. Em Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953), ele propõe que a história de um sujeito não é uma sucessão de fatos, mas algo que se reescreve a cada vez que é dita. O passado não está fixado atrás. Ele se decide a partir do que vem depois.

Numa frase, o sentido das primeiras palavras só se fecha com a última. Na vida de Katharina, o sentido da cena aos catorze anos só se fecha com a cena da janela. É esse tempo retroativo do significante que Lacan lê em Freud: o que fomos só se escreve a partir do que viremos a ser.

Por isso, numa análise, não se trata de descobrir o que realmente aconteceu, como num inquérito. Trata-se de dar lugar à fala que pode reordenar o que aconteceu e o lugar que o sujeito ocupou nisso.

O que o caso diz a quem está se tornando analista

Katharina lembra que a escuta não depende de um enquadre perfeito. Uma conversa no alto de uma montanha foi suficiente para que algo se dissesse, porque alguém perguntou e alguém quis ouvir.

E lembra a delicadeza que o tema exige. Freud omitiu o pai por trinta anos. Escutar o que uma pessoa viveu, sem transformá-la em caso e sem expor o que ela confiou, faz parte da ética de quem escuta.

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Referências

  • BREUER, J.; FREUD, S. (1895). Estudos sobre a histeria.
  • FREUD, S. (1895). Projeto para uma psicologia científica.
  • LACAN, J. (1953). Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: Escritos.

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