Gênero, infância e psicanálise: o que a escuta pode fazer onde o protocolo não chega

Crianças e adolescentes chegam cada vez mais ao consultório com questões de gênero. Algumas já chegam com um nome novo, uma identidade declarada, uma família que apoia ou que resiste. Outras chegam sem saber nomear o que sentem — apenas com o incômodo de não caber no lugar que lhes foi atribuído.

O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Antes de qualquer resposta, uma posição: a psicanálise escuta. Não classifica, não prescreve, não decide pelo sujeito o que ele deve ser. E é exatamente essa posição de escuta que se torna mais necessária num campo onde as pressões — para afirmar, para negar, para apressar ou para frear — vêm de todos os lados.

Freud já havia demonstrado que a sexualidade infantil não se reduz ao biológico. A criança não nasce sabendo o que é ser menino ou menina — ela se constitui como sujeito sexuado a partir de um percurso complexo, atravessado pela linguagem, pelas relações que estabelece, pelas identificações que vai construindo ao longo do tempo. O corpo anatômico é um ponto de partida, não um destino.

O que isso significa clinicamente?

Significa que o analista não chega ao consultório com uma resposta pronta sobre o que a criança ou o adolescente deve fazer com suas questões de gênero. Não é função do analista validar nem invalidar uma identidade. É função do analista criar as condições para que o sujeito possa falar — e escutar o que ele diz, inclusive o que diz sem saber.

Às vezes o que chega como questão de gênero é exatamente isso — uma questão de gênero, que merece ser acolhida e trabalhada com respeito à singularidade de cada um. Às vezes é outra coisa — um sofrimento que encontrou nesse campo uma forma de se expressar, e que precisa de espaço para se desdobrar sem ser apressado numa direção ou outra.

A diferença entre as duas situações não se decide por protocolo. Se decide pela escuta — paciente, rigorosa, ética.

Num tempo em que o debate sobre gênero tende à polarização, a psicanálise oferece algo raro: um lugar onde o sujeito pode falar sem ser imediatamente classificado. Onde a pergunta pode permanecer aberta o tempo que for necessário. Onde o incômodo não precisa ser resolvido antes de ser compreendido.


Referências

FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. VII.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.


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