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	<title>Arquivo de Psicanálise com Crianças | Instituto La Lettre | Psicanálise</title>
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	<description>Espaço multidisciplinar dedicado à transmissão de conhecimento, atendimento, pesquisa e interlocução nos campos da psicanálise, cultura e linguagem</description>
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	<title>Arquivo de Psicanálise com Crianças | Instituto La Lettre | Psicanálise</title>
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		<title>O lugar dos pais na análise da criança</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Psicanalista Patricia Alcantara]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jun 2026 01:56:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise com Crianças]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando uma criança entra em análise, os pais entram junto. Não na sessão — mas na clínica. Estão presentes no que a criança traz, no que evita, no modo como brinca, no que não consegue dizer. A análise de uma criança é sempre, de alguma forma, uma análise que atravessa o laço familiar. Isso coloca [&#8230;]</p>
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<p>Quando uma criança entra em análise, os pais entram junto. Não na sessão — mas na clínica. Estão presentes no que a criança traz, no que evita, no modo como brinca, no que não consegue dizer. A análise de uma criança é sempre, de alguma forma, uma análise que atravessa o laço familiar.</p>



<p>Isso coloca uma questão clínica delicada: qual é o lugar dos pais no tratamento?</p>



<p>Não há resposta única. Há uma posição ética que orienta.</p>



<p>Os pais precisam ser escutados — mas não analisados. Precisam ser acolhidos no sofrimento que os trouxe até ali, sem que esse acolhimento os transforme em objeto de interpretação. O analista que começa a tratar os pais como pacientes perde de vista a criança. E a criança, que já ocupa um lugar na fantasia familiar, precisa de alguém que a veja além desse lugar.</p>



<p>Na prática, isso significa que as entrevistas com os pais têm uma função específica: permitir que o analista compreenda o contexto sem se tornar refém dele. Escutar o que os pais dizem sobre a criança — e o que não conseguem dizer. Perceber o que carregam sem saber que carregam. Criar uma aliança de trabalho sem prometer que vão ser atendidos.</p>



<p>É um equilíbrio difícil. Os pais chegam com angústia, com culpa, com expectativas sobre o que a análise vai fazer pela criança — e, muitas vezes, por eles próprios. Querem respostas, orientações, um retorno sobre o que está acontecendo nas sessões. O analista precisa responder a essa demanda sem violar o espaço da criança e sem se transformar num orientador de parentalidade.</p>



<p>Françoise Dolto foi uma das analistas que mais desenvolveu esse trabalho com os pais. Para ela, a criança é sempre um sujeito pleno — com direito à sua própria história, ao seu próprio sofrimento, à sua própria análise. Os pais fazem parte dessa história, mas não são seus autores exclusivos. O analista está ali, entre outras coisas, para lembrar isso — a eles e à criança.</p>



<p>Trabalhar com os pais sem torná-los objeto da análise. Escutar a criança sem ignorar o contexto que a produziu. Sustentar dois endereços ao mesmo tempo, sem confundi-los.</p>



<p>Essa é uma das especificidades mais exigentes da clínica com crianças — e uma das mais formativas para qualquer analista.</p>



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<p></p>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>DOLTO, Françoise. <em>No Jogo do Desejo</em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.</p>



<p>FREUD, Sigmund. <em>Análise de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos (Pequeno Hans)</em>. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. X.</p>



<p>LACAN, Jacques. <em>Nota sobre a criança</em>. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.</p>



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<p></p>



<p><em>O Instituto La Lettre abre em setembro de 2026 uma especialização em Psicanálise com Crianças e Adolescentes — quatro módulos online ao vivo com analistas praticantes. Mais informações em <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise-com-criancas">lalettre.com.br/psicanalise-com-criancas</a></em></p>



<p></p>
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		<title>Gênero, infância e psicanálise: o que a escuta pode fazer onde o protocolo não chega</title>
		<link>https://lalettre.com.br/genero-infancia-e-psicanalise-o-que-a-escuta-pode-fazer-onde-o-protocolo-nao-chega/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Psicanalista Patricia Alcantara]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jun 2026 01:45:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise com Crianças]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Crianças e adolescentes chegam cada vez mais ao consultório com questões de gênero. Algumas já chegam com um nome novo, uma identidade declarada, uma família que apoia ou que resiste. Outras chegam sem saber nomear o que sentem — apenas com o incômodo de não caber no lugar que lhes foi atribuído. O que a [&#8230;]</p>
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<p>Crianças e adolescentes chegam cada vez mais ao consultório com questões de gênero. Algumas já chegam com um nome novo, uma identidade declarada, uma família que apoia ou que resiste. Outras chegam sem saber nomear o que sentem — apenas com o incômodo de não caber no lugar que lhes foi atribuído.</p>



<p>O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?</p>



<p>Antes de qualquer resposta, uma posição: a psicanálise escuta. Não classifica, não prescreve, não decide pelo sujeito o que ele deve ser. E é exatamente essa posição de escuta que se torna mais necessária num campo onde as pressões — para afirmar, para negar, para apressar ou para frear — vêm de todos os lados.</p>



<p>Freud já havia demonstrado que a sexualidade infantil não se reduz ao biológico. A criança não nasce sabendo o que é ser menino ou menina — ela se constitui como sujeito sexuado a partir de um percurso complexo, atravessado pela linguagem, pelas relações que estabelece, pelas identificações que vai construindo ao longo do tempo. O corpo anatômico é um ponto de partida, não um destino.</p>



<p>O que isso significa clinicamente?</p>



<p>Significa que o analista não chega ao consultório com uma resposta pronta sobre o que a criança ou o adolescente deve fazer com suas questões de gênero. Não é função do analista validar nem invalidar uma identidade. É função do analista criar as condições para que o sujeito possa falar — e escutar o que ele diz, inclusive o que diz sem saber.</p>



<p>Às vezes o que chega como questão de gênero é exatamente isso — uma questão de gênero, que merece ser acolhida e trabalhada com respeito à singularidade de cada um. Às vezes é outra coisa — um sofrimento que encontrou nesse campo uma forma de se expressar, e que precisa de espaço para se desdobrar sem ser apressado numa direção ou outra.</p>



<p>A diferença entre as duas situações não se decide por protocolo. Se decide pela escuta — paciente, rigorosa, ética.</p>



<p>Num tempo em que o debate sobre gênero tende à polarização, a psicanálise oferece algo raro: um lugar onde o sujeito pode falar sem ser imediatamente classificado. Onde a pergunta pode permanecer aberta o tempo que for necessário. Onde o incômodo não precisa ser resolvido antes de ser compreendido.</p>



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<p><strong>Referências</strong></p>



<p>FREUD, Sigmund. <em>Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade</em>. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. VII.</p>



<p>LACAN, Jacques. <em>O Seminário, Livro 20: Mais, ainda</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.</p>



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<p><em>O Instituto La Lettre abre em setembro de 2026 uma especialização em Psicanálise com Crianças e Adolescentes — quatro módulos online ao vivo com analistas praticantes. Mais informações em <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise-com-criancas">lalettre.com.br/psicanalise-com-criancas</a></em></p>



<p></p>
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		<title>O autismo não é um déficit</title>
		<link>https://lalettre.com.br/o-autismo-nao-e-um-deficit/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Psicanalista Patricia Alcantara]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jun 2026 01:32:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise com Crianças]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando uma criança autista chega ao consultório, ela já carrega uma história de intervenções. Terapias comportamentais, protocolos de treinamento, metas de desenvolvimento a cumprir dentro de um prazo que não é o dela. O objetivo, explícito ou não, costuma ser o mesmo: aproximá-la do que se considera normal. A psicanálise parte de outro lugar. O [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando uma criança autista chega ao consultório, ela já carrega uma história de intervenções. Terapias comportamentais, protocolos de treinamento, metas de desenvolvimento a cumprir dentro de um prazo que não é o dela. O objetivo, explícito ou não, costuma ser o mesmo: aproximá-la do que se considera normal.</p>



<p>A psicanálise parte de outro lugar.</p>



<p>O autismo, na perspectiva psicanalítica, não é um déficit a corrigir. É uma lógica própria de funcionamento psíquico e de linguagem. A criança autista não está falhando em ser o que deveria ser — ela está sendo o que é, a partir de uma organização subjetiva singular, com seus próprios modos de se relacionar com o mundo, com os objetos, com o outro.</p>



<p>Isso não é romantismo. É uma posição clínica com consequências práticas.</p>



<p>Quando o analista recusa o lugar de quem sabe o que a criança deve ser, ele abre espaço para escutar o que ela já é. O que essa criança construiu para se situar no mundo? Quais são seus interesses, seus rituais, seus modos de habitar o espaço? O que acontece quando alguém entra nesse território sem tentar remodelá-lo?</p>



<p>Lacan, ao desenvolver o conceito de sinthoma, ofereceu ferramentas para pensar as soluções que o sujeito inventa diante do que não se simboliza facilmente. A criança autista frequentemente inventa — com objetos, com sons, com movimentos repetitivos — formas de estabilização que têm uma lógica interna própria. O analista que aprende a ler essa lógica não a interrompe: trabalha com ela.</p>



<p>A intervenção a tempo também importa. Quanto mais cedo uma criança encontra uma escuta que respeita sua singularidade, maiores as possibilidades de que ela amplie sua relação com o mundo — não apesar de quem ela é, mas a partir disso. A escuta precoce não apaga a diferença: cria condições para que ela se desenvolva sem se cristalizar em isolamento.</p>



<p>O que muda quando tratamos a criança autista como sujeito — e não como objeto de protocolos? Muda a direção do tratamento. Muda a posição do analista. Muda o que se considera um avanço clínico.</p>



<p>Não é a criança que precisa se adaptar à clínica. É a clínica que precisa aprender a escutar essa criança.</p>



<p><em>O Instituto La Lettre abre em setembro de 2026 uma especialização em Psicanálise com Crianças e Adolescentes — quatro módulos online ao vivo com analistas praticantes. Mais informações em <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise-com-criancas">lalettre.com.br/psicanalise-com-criancas</a></em></p>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>LACAN, Jacques. <em>O Seminário, Livro 23: O Sinthoma</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.</p>



<p>FREUD, Sigmund. <em>Além do Princípio do Prazer</em>. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XVIII.</p>



<p></p>
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		<item>
		<title>O brincar como escrita do inconsciente</title>
		<link>https://lalettre.com.br/o-brincar-como-escrita-do-inconsciente/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Psicanalista Patricia Alcantara]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jun 2026 01:20:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise com Crianças]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há uma cena comum no início de uma análise com crianças: a criança entra no consultório, olha para os brinquedos disponíveis e começa a jogar. O analista observa. Para quem não conhece a clínica psicanalítica, pode parecer que a sessão ainda não começou. Ela já começou. O brincar não é o que a criança faz [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há uma cena comum no início de uma análise com crianças: a criança entra no consultório, olha para os brinquedos disponíveis e começa a jogar. O analista observa. Para quem não conhece a clínica psicanalítica, pode parecer que a sessão ainda não começou.</p>



<p>Ela já começou.</p>



<p>O brincar não é o que a criança faz enquanto espera a análise começar. É a análise. É o dispositivo pelo qual a criança acessa e elabora aquilo que ainda não tem palavras — e talvez nunca venha a ter, pelo menos não naquele momento. Assim como o adulto associa livremente com palavras, deixando o pensamento correr sem censura, a criança associa com o corpo, com os objetos, com a cena que monta e desmonta sem saber que está dizendo algo.</p>



<p>Freud já havia percebido isso ao observar seu neto brincar com um carretel — lançando-o para longe e puxando-o de volta, repetidamente, enquanto produzia sons que pareciam evocar presença e ausência. O jogo não era entretenimento. Era elaboração. A criança estava lidando, à sua maneira, com algo que excedia sua capacidade de nomear: o desaparecimento e o retorno da mãe.</p>



<p>Winnicott foi na mesma direção ao afirmar que é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo pode ser criativo. O brincar cria um espaço intermediário — entre o dentro e o fora, entre o real e o imaginário — onde o sujeito pode experimentar sem o peso da realidade. É nesse espaço que a análise acontece.</p>



<p>O que o analista faz diante do brincar não é interpretar cada movimento como símbolo de algo oculto. Não é transformar a cena lúdica em código a decifrar. É sustentar o espaço para que a cena se desenrole — sem apressar conclusões, sem interromper o jogo com perguntas que pertencem ao registro do adulto.</p>



<p>Quando uma criança enterra e desenterra um boneco repetidamente, não está sendo morbida. Está elaborando algo — uma perda, uma ausência, um medo que ainda não tem nome. Quando monta e desmonta a mesma estrutura várias vezes, pode estar ensaiando um domínio que não tem no mundo real. Quando para de brincar de repente, algo aconteceu — e o analista precisa notar.</p>



<p>Escutar o brincar exige uma formação específica. Não basta gostar de crianças, embora isso ajude. É preciso saber o que se está vendo quando a criança joga, o que se está ouvindo quando ela fala pela voz de um boneco, o que significa quando ela convida o analista a entrar na cena — ou quando o exclui deliberadamente.</p>



<p>A clínica com crianças tem linguagem própria. Aprender a escutá-la não é simplificar a psicanálise — é aprofundá-la.</p>



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<p><em>O Instituto La Lettre abre em setembro de 2026 uma especialização em Psicanálise com Crianças e Adolescentes — quatro módulos online ao vivo com analistas praticantes. Mais informações em <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise-com-criancas">lalettre.com.br/psicanalise-com-criancas</a></em></p>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>FREUD, Sigmund. <em>Além do Princípio do Prazer</em>. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XVIII.</p>



<p>WINNICOTT, Donald W. <em>O Brincar e a Realidade</em>. Rio de Janeiro: Imago, 1975.</p>
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		<title>A criança não é um problema a resolver</title>
		<link>https://lalettre.com.br/a-crianca-nao-e-um-problema-a-resolver/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Psicanalista Patricia Alcantara]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jun 2026 01:08:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise com Crianças]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando uma família chega ao consultório com uma criança, raramente é a criança quem pede análise. São os pais que chegam — com uma queixa, um diagnóstico, uma esperança de que algo mude. A criança vem junto, muitas vezes sem saber bem por quê. Essa distinção parece simples. Na prática clínica, ela muda tudo. A [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando uma família chega ao consultório com uma criança, raramente é a criança quem pede análise. São os pais que chegam — com uma queixa, um diagnóstico, uma esperança de que algo mude. A criança vem junto, muitas vezes sem saber bem por quê.</p>



<p>Essa distinção parece simples. Na prática clínica, ela muda tudo.</p>



<p>A queixa dos pais diz respeito a eles — ao lugar que a criança ocupa na economia psíquica familiar, às expectativas que ela frustra ou realiza, ao sofrimento que ela causa ou encarna. Não porque os pais sejam culpados de algo, mas porque, antes de nascer, a criança já habitava um espaço imaginário: filho desejado, filho reparador, filho que vai realizar o que os pais não conseguiram. Esse lugar precede o sujeito. E o sujeito, ao chegar, vai ter que se haver com ele — sem saber que ele existe.</p>



<p>Lacan foi preciso ao dizer que a criança é o sintoma da família. Não como acusação — como leitura. O sintoma fala de algo que não pode ser dito de outra forma. A criança que não para quieta, que não aprende, que chora sem motivo aparente, pode estar dizendo — com o corpo, com o comportamento, com o fracasso escolar — aquilo que o laço familiar não consegue nomear. O sintoma é uma mensagem endereçada ao Outro, mesmo quando ninguém sabe a quem.</p>



<p>Isso não significa que toda dificuldade da criança seja expressão do conflito familiar. Significa que o analista precisa escutar antes de concluir. Precisa perguntar, antes de responder: de quem é esse sofrimento? O que ele está tentando dizer — e para quem?</p>



<p>A entrevista preliminar com os pais não é um protocolo de coleta de informações. É um espaço clínico em si. O que os pais contam sobre a criança diz tanto quanto o que omitem. O modo como descrevem o problema, as palavras que escolhem, o que não conseguem nomear — tudo isso compõe o quadro que o analista vai precisar sustentar sem apressar interpretações.</p>



<p>O analista que recebe essa criança precisa sustentar dois endereços ao mesmo tempo: escutar o sofrimento dos pais sem apagá-lo, e preservar a singularidade da criança sem reduzi-la à queixa que a trouxe até ali. Trabalhar com os pais sem torná-los objeto da análise. Escutar a criança sem ignorar o contexto que a produziu. Isso não é técnica — é posição ética.</p>



<p>A criança não é um problema a resolver. É um sujeito em constituição — que responde, à sua maneira, ao que o mundo lhe oferece e ao que lhe falta. Que inventa soluções para impasses que não criou. Que carrega, no sintoma, uma pergunta que ainda não tem palavras.</p>



<p>A clínica começa quando o analista consegue escutar essa pergunta antes de tentar respondê-la.</p>



<p><em>O Instituto La Lettre abre em setembro de 2026 uma especialização em Psicanálise com Crianças e Adolescentes — quatro módulos online ao vivo com analistas praticantes. Mais informações em <a href="https://lalettre.com.br/psicanalise-com-criancas">lalettre.com.br/psicanalise-com-criancas</a></em></p>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>FREUD, Sigmund. <em>Estudos sobre a Histeria</em>. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. II.</p>



<p>LACAN, Jacques. <em>Nota sobre a criança</em>. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.</p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Compulsão dos Dias. Um Caso Quase Clínico</title>
		<link>https://lalettre.com.br/a-compulsao-dos-dias-um-caso-quase-clinico/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Daia Florios]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jan 2025 13:11:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise com Crianças]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise e Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde Mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu era estudante de psicanálise e trabalhava em uma xexelenta loja de artigos infantis, imaginando que dias melhores viriam. A loja não era de todo ruim, mas a dona do negócio era uma acumuladora compulsiva. Até os sacos plásticos que embalavam as roupas e as caixas de sapatos que ninguém queria, ela pedia para eu [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Eu era estudante de psicanálise e trabalhava em uma xexelenta loja de artigos infantis, imaginando que dias melhores viriam. A loja não era de todo ruim, mas a dona do negócio era uma acumuladora compulsiva. Até os sacos plásticos que embalavam as roupas e as caixas de sapatos que ninguém queria, ela pedia para eu guardar e acumular em um pequeno espaço onde as traças faziam festa.</p>



<p>Clientes entravam clientes saíam, alguns trocavam ideias sobre banalidades, mas a maioria se abria para um papo mais profundo: &#8220;eu me separei quando meus filhos tinham 7 e 10 anos&#8221;; &#8220;meu marido morreu depois de muito sofrer com afasia&#8221; e por aí ia. Claro que, sendo uma loja de artigos infantis, a maioria das clientes era mulher.</p>



<p>Como psicanalista em formação (eterna, diga-se), eu me sentia a última bolacha do pacote com tantos corações aflitos em busca de um ouvido. Mas minha amiga varejista de décadas logo puxou meu tapete quando lhe contei sobre o dia a dia na loja: &#8220;amiga, as pessoas são carentes e o blá blá blá é típico do comércio.&#8221; Ok! Um banho de água fria nos meus devaneios, mas os dias iam me mostrando que a vida é uma clínica aberta.</p>



<p>Crianças rabujentas, imperadoras de mães e pais submissos era o que mais tinha, além de notícias do tipo: &#8220;vim comprar um presente para uma criança especial&#8230; que tem autismo&#8230;&#8221;</p>



<p>Mas um dia, um&nbsp;<em>causo</em>&nbsp;(causo mesmo, pois parece de mentira) surgiu à minha frente. Um menino de uns 8, 9 ou 10 anos de idade apareceu com sua mãe e seu pai. Procuravam sapatos para o moleque. De cara, o menino disse que queria uma galocha. A mãe: mas galocha você já tem. Eu quero uma galocha, eu quero uma galocha, bradava o pequeno príncipe. Ok! Te compro uma galocha, mas temos que ver um tênis para você ir à escola. Tenho sede, quero beber água, quero beber água, tenho sede, quero beber água. O menino deve ter vindo do Saara. O pai corre comprar água. Tem um supermercado aqui ao lado, recomendei.</p>



<p>Papo vai papo vem, ainda bem que nenhum outro chato apareceu no meio-tempo, e comecei a mostrar as opções de calçados à pequena majestade, o menino grande.</p>



<p>Quero beber quero beber. Enquanto eu não beber, eu não vou experimentar nenhum sapato. A essa altura, compreendi que o buraco era mais embaixo. E dá-lhe paciência. Bebi um gole d&#8217;água: você me causou sede, disse eu ao menino em uma intimidade não permitida se eu trabalhasse em uma loja uau!, mas como eu trabalhava em uma xexelenta, eu podia.</p>



<p>O pai chega com uma garrafinha d&#8217;água e qual a minha surpresa ao ver que a sede do menino não era de boca, era de mãos. Ele queria lavar as mãos. Ofereci o banheiro e nada. Ofereci esses lencinhos umedecidos e nada. Eu estava ali para vender o sapato e liguei o F. Oda-se. Mas o <em>causo</em> começou a ficar sério. O menino não apenas queria lavar as mãos, ele queria ver a água escorrer entra elas.</p>



<p>Que <em>causo</em> estranho, pensei. Deve ser o destino me perguntando se eu dou conta&#8230;</p>



<p>Sapato vai sapato vem e o menino, de uma lavada de mão passou a duas, três, quatro, uma a cada minuto. Mais, mais! Deixa escorrer! O menino queria ver a água pingada por sua mãe escorrer por suas mãos, e ela que enxugasse o chão com um lencinho de papel.</p>



<p>Eu não sabia como agir e muito menos o que dizer. Eu só queria vender logo e que esse povo saísse do meu horizonte antes que chegassem outros clientes que enrolassem menos e comprassem mais.</p>



<p>324 mais 451 quanto é? Oi? Nem me lembro da primeira cifra disse eu à mãe do menino: Nem eu, ela respondeu. O pai já tinha pulado fora sem que eu tivesse sacado sua ausência mais que esperada. A culpa dos problemas, em geral, é sempre da mãe. E ela que se vire nos 30, 40, 50&#8230;</p>



<p>775! Uau, você é mesmo muito bom em matemática (na verdade a conta era bem fácil, mas vamos fingir, pois tenho que vender). E aí foi, número vai número vem e o menino entre o fazer uma conta e outra, pergunta: mãe quanto dinheiro você já ganhou na vida? Tanto. Tannnnnto! E eu ali, tendo que aturar esse papo para ganhar um reles troco.</p>



<p>A obsessão do menino em lavar as mãos só aumentava, e no meio, ele colocava números, somas, cifras&#8230;. As coisas aqui são empoeiradas, disse eu sem mentir, pois falei desde o início que a loja era xexelenta e as traças faziam festa, mas eu tinha entendido o grau da situação e só quis aliviar para a rica-pobre mãe.</p>



<p>Você conhece o Cascão? Não? É um personagem das histórias em quadrinhos que, ao contrário de você, odeia água e a evita a todo custo. Bem que vocês dois fariam uma bela duplinha, e quem sabe equilibrariam as coisas&#8230; o aquecimento global, as enchentes contra as secas&#8230;.</p>



<p>Ninguém me ouviu (ainda bem, pois a ironia não é, de fato, um artifício que todos entendem).</p>



<p>Água vai água vem, o menino abraça a mãe e os dois olham para mim, tipo, faz uma foto! E eu fiz! A mãe com um olhar confidencial me disse: você vê por que eu não resisto?</p>



<p>Puta que te pariu e você que pariu essa majestade. Eu entendi muito, mas também entendi nada. Teria tanto a dizer e queria o mesmo tanto ajudar, mas não posso. Só posso levantar teorias:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>essa mãe roubou, foi processada enquanto estava grávida? Molhar as mãos é pagar propina no Brasil, e até onde eu sei, em outros países também é costume usar o mesmo ditado&#8230;</li>



<li>&#8220;Mãe, quanto dinheiro você ganhou? &#8220;Tanto!,&#8221; esse diálogo confirmava a minha teoria-mãe&#8230;</li>
</ul>



<p>Mas o fato é que eu tinha apenas suposições. Eu era pura psicanálise selvagem. Selvagem no sentido forte do termo, selvagem no desejo de investigar, de analisar a compulsão neurótica obsessiva no dia a dia naquele dia. Eu também obsessiva. Mas até lá eu era vendedora que no final, segurando a boca cheia de perguntas, consegui vender.</p>



<p>Mas as perguntas ficaram compulsando em mim: o que você tanto quer lavar? O que você tanto quer fazer escorrer nesse gotejar de água pura, que nem sede mata, mas te coloca na posição de dominar números na compulsão dos dias que escorrem feito matemática, como quem busca soluções para um problema difícil, digno de uma medalha Fields: contar as gotículas das gotículas da gota, até que as águas se rompam feito um parto de emergência&#8230;</p>



<p>A verdade é que os dias seguem na compulsão natural de seguirem. E outras compulsões virão. Como o dois vem depois do um. Como pessoas de corações aflitos&#8230; buscam orelhas de ouvidos abertos. A vida é clínica.</p>



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</blockquote>
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