O brincar como escrita do inconsciente

Há uma cena comum no início de uma análise com crianças: a criança entra no consultório, olha para os brinquedos disponíveis e começa a jogar. O analista observa. Para quem não conhece a clínica psicanalítica, pode parecer que a sessão ainda não começou.

Ela já começou.

O brincar não é o que a criança faz enquanto espera a análise começar. É a análise. É o dispositivo pelo qual a criança acessa e elabora aquilo que ainda não tem palavras — e talvez nunca venha a ter, pelo menos não naquele momento. Assim como o adulto associa livremente com palavras, deixando o pensamento correr sem censura, a criança associa com o corpo, com os objetos, com a cena que monta e desmonta sem saber que está dizendo algo.

Freud já havia percebido isso ao observar seu neto brincar com um carretel — lançando-o para longe e puxando-o de volta, repetidamente, enquanto produzia sons que pareciam evocar presença e ausência. O jogo não era entretenimento. Era elaboração. A criança estava lidando, à sua maneira, com algo que excedia sua capacidade de nomear: o desaparecimento e o retorno da mãe.

Winnicott foi na mesma direção ao afirmar que é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo pode ser criativo. O brincar cria um espaço intermediário — entre o dentro e o fora, entre o real e o imaginário — onde o sujeito pode experimentar sem o peso da realidade. É nesse espaço que a análise acontece.

O que o analista faz diante do brincar não é interpretar cada movimento como símbolo de algo oculto. Não é transformar a cena lúdica em código a decifrar. É sustentar o espaço para que a cena se desenrole — sem apressar conclusões, sem interromper o jogo com perguntas que pertencem ao registro do adulto.

Quando uma criança enterra e desenterra um boneco repetidamente, não está sendo morbida. Está elaborando algo — uma perda, uma ausência, um medo que ainda não tem nome. Quando monta e desmonta a mesma estrutura várias vezes, pode estar ensaiando um domínio que não tem no mundo real. Quando para de brincar de repente, algo aconteceu — e o analista precisa notar.

Escutar o brincar exige uma formação específica. Não basta gostar de crianças, embora isso ajude. É preciso saber o que se está vendo quando a criança joga, o que se está ouvindo quando ela fala pela voz de um boneco, o que significa quando ela convida o analista a entrar na cena — ou quando o exclui deliberadamente.

A clínica com crianças tem linguagem própria. Aprender a escutá-la não é simplificar a psicanálise — é aprofundá-la.


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Referências

FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XVIII.

WINNICOTT, Donald W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

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