Quando uma criança autista chega ao consultório, ela já carrega uma história de intervenções. Terapias comportamentais, protocolos de treinamento, metas de desenvolvimento a cumprir dentro de um prazo que não é o dela. O objetivo, explícito ou não, costuma ser o mesmo: aproximá-la do que se considera normal.

A psicanálise parte de outro lugar.

O autismo, na perspectiva psicanalítica, não é um déficit a corrigir. É uma lógica própria de funcionamento psíquico e de linguagem. A criança autista não está falhando em ser o que deveria ser — ela está sendo o que é, a partir de uma organização subjetiva singular, com seus próprios modos de se relacionar com o mundo, com os objetos, com o outro.

Isso não é romantismo. É uma posição clínica com consequências práticas.

Quando o analista recusa o lugar de quem sabe o que a criança deve ser, ele abre espaço para escutar o que ela já é. O que essa criança construiu para se situar no mundo? Quais são seus interesses, seus rituais, seus modos de habitar o espaço? O que acontece quando alguém entra nesse território sem tentar remodelá-lo?

Lacan, ao desenvolver o conceito de sinthoma, ofereceu ferramentas para pensar as soluções que o sujeito inventa diante do que não se simboliza facilmente. A criança autista frequentemente inventa — com objetos, com sons, com movimentos repetitivos — formas de estabilização que têm uma lógica interna própria. O analista que aprende a ler essa lógica não a interrompe: trabalha com ela.

A intervenção a tempo também importa. Quanto mais cedo uma criança encontra uma escuta que respeita sua singularidade, maiores as possibilidades de que ela amplie sua relação com o mundo — não apesar de quem ela é, mas a partir disso. A escuta precoce não apaga a diferença: cria condições para que ela se desenvolva sem se cristalizar em isolamento.

O que muda quando tratamos a criança autista como sujeito — e não como objeto de protocolos? Muda a direção do tratamento. Muda a posição do analista. Muda o que se considera um avanço clínico.

Não é a criança que precisa se adaptar à clínica. É a clínica que precisa aprender a escutar essa criança.

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Referências

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 23: O Sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XVIII.

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