A criança não é um problema a resolver

Quando uma família chega ao consultório com uma criança, raramente é a criança quem pede análise. São os pais que chegam — com uma queixa, um diagnóstico, uma esperança de que algo mude. A criança vem junto, muitas vezes sem saber bem por quê.

Essa distinção parece simples. Na prática clínica, ela muda tudo.

A queixa dos pais diz respeito a eles — ao lugar que a criança ocupa na economia psíquica familiar, às expectativas que ela frustra ou realiza, ao sofrimento que ela causa ou encarna. Não porque os pais sejam culpados de algo, mas porque, antes de nascer, a criança já habitava um espaço imaginário: filho desejado, filho reparador, filho que vai realizar o que os pais não conseguiram. Esse lugar precede o sujeito. E o sujeito, ao chegar, vai ter que se haver com ele — sem saber que ele existe.

Lacan foi preciso ao dizer que a criança é o sintoma da família. Não como acusação — como leitura. O sintoma fala de algo que não pode ser dito de outra forma. A criança que não para quieta, que não aprende, que chora sem motivo aparente, pode estar dizendo — com o corpo, com o comportamento, com o fracasso escolar — aquilo que o laço familiar não consegue nomear. O sintoma é uma mensagem endereçada ao Outro, mesmo quando ninguém sabe a quem.

Isso não significa que toda dificuldade da criança seja expressão do conflito familiar. Significa que o analista precisa escutar antes de concluir. Precisa perguntar, antes de responder: de quem é esse sofrimento? O que ele está tentando dizer — e para quem?

A entrevista preliminar com os pais não é um protocolo de coleta de informações. É um espaço clínico em si. O que os pais contam sobre a criança diz tanto quanto o que omitem. O modo como descrevem o problema, as palavras que escolhem, o que não conseguem nomear — tudo isso compõe o quadro que o analista vai precisar sustentar sem apressar interpretações.

O analista que recebe essa criança precisa sustentar dois endereços ao mesmo tempo: escutar o sofrimento dos pais sem apagá-lo, e preservar a singularidade da criança sem reduzi-la à queixa que a trouxe até ali. Trabalhar com os pais sem torná-los objeto da análise. Escutar a criança sem ignorar o contexto que a produziu. Isso não é técnica — é posição ética.

A criança não é um problema a resolver. É um sujeito em constituição — que responde, à sua maneira, ao que o mundo lhe oferece e ao que lhe falta. Que inventa soluções para impasses que não criou. Que carrega, no sintoma, uma pergunta que ainda não tem palavras.

A clínica começa quando o analista consegue escutar essa pergunta antes de tentar respondê-la.

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Referências

FREUD, Sigmund. Estudos sobre a Histeria. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. II.

LACAN, Jacques. Nota sobre a criança. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

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