O lugar dos pais na análise da criança

Quando uma criança entra em análise, os pais entram junto. Não na sessão — mas na clínica. Estão presentes no que a criança traz, no que evita, no modo como brinca, no que não consegue dizer. A análise de uma criança é sempre, de alguma forma, uma análise que atravessa o laço familiar.

Isso coloca uma questão clínica delicada: qual é o lugar dos pais no tratamento?

Não há resposta única. Há uma posição ética que orienta.

Os pais precisam ser escutados — mas não analisados. Precisam ser acolhidos no sofrimento que os trouxe até ali, sem que esse acolhimento os transforme em objeto de interpretação. O analista que começa a tratar os pais como pacientes perde de vista a criança. E a criança, que já ocupa um lugar na fantasia familiar, precisa de alguém que a veja além desse lugar.

Na prática, isso significa que as entrevistas com os pais têm uma função específica: permitir que o analista compreenda o contexto sem se tornar refém dele. Escutar o que os pais dizem sobre a criança — e o que não conseguem dizer. Perceber o que carregam sem saber que carregam. Criar uma aliança de trabalho sem prometer que vão ser atendidos.

É um equilíbrio difícil. Os pais chegam com angústia, com culpa, com expectativas sobre o que a análise vai fazer pela criança — e, muitas vezes, por eles próprios. Querem respostas, orientações, um retorno sobre o que está acontecendo nas sessões. O analista precisa responder a essa demanda sem violar o espaço da criança e sem se transformar num orientador de parentalidade.

Françoise Dolto foi uma das analistas que mais desenvolveu esse trabalho com os pais. Para ela, a criança é sempre um sujeito pleno — com direito à sua própria história, ao seu próprio sofrimento, à sua própria análise. Os pais fazem parte dessa história, mas não são seus autores exclusivos. O analista está ali, entre outras coisas, para lembrar isso — a eles e à criança.

Trabalhar com os pais sem torná-los objeto da análise. Escutar a criança sem ignorar o contexto que a produziu. Sustentar dois endereços ao mesmo tempo, sem confundi-los.

Essa é uma das especificidades mais exigentes da clínica com crianças — e uma das mais formativas para qualquer analista.


Referências

DOLTO, Françoise. No Jogo do Desejo. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.

FREUD, Sigmund. Análise de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos (Pequeno Hans). In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. X.

LACAN, Jacques. Nota sobre a criança. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.


O Instituto La Lettre abre em setembro de 2026 uma especialização em Psicanálise com Crianças e Adolescentes — quatro módulos online ao vivo com analistas praticantes. Mais informações em lalettre.com.br/psicanalise-com-criancas

Compartilhe nas mídias:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *