
Natália Rosário
Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre no ano de 2025, Graduada em Business Administration pela Bemidji State University, Pedagoda pela UFSCar e Pós-Graduada em Gestão Educacional pela Universidade Federal de Itajubá.
Resumo
O Complexo de Édipo, um dos pilares conceituais da psicanálise, foi inicialmente formulado por Sigmund Freud e posteriormente revisitado por Jacques Lacan. O artigo “De Freud a Lacan: Marcas do Édipo na experiência do sujeito” explora as dimensões freudianas e lacanianas desse conceito, destacando sua permanência e transformação na teoria e na clínica psicanalítica.
Palavras-chave: Freud; Lacan; Complexo de Édipo; Nome do-Pai.
1. O Édipo segundo Freud
Freud, em “A Interpretação dos Sonhos”, explica que o mito de Édipo-Rei continua a comover o homem moderno porque a situação que o mito apresenta ainda fala de maneira intensa e universal. Ele diz:
Se o Édipo rei consegue abalar o ser humano moderno tanto quanto os gregos contemporâneos, isso só pode se dever ao fato de que o efeito da tragédia grega resulta não do contraste entre destino e vontade humana, mas da peculiaridade do material que serve para demonstrar esse contraste (FREUD, 2010).
Ele afirma que cada ouvinte foi um dia, em fantasia, um Édipo:
Seu destino nos comove apenas porque poderia ter também o nosso, porque o oráculo pronunciou a mesma maldição contra nós antes mesmo de nascermos. Todos éramos talvez predestinados a voltar nosso primeiro impulso sexual para a nossa mãe e nosso primeiro ódio e desejo violento contra o pai; nossos sonhos nos convencem disso (FREUD, 2010).
Com isso, o autor já deixa claro que todos passarão por esta fase do desenvolvimento infantil e terão essa fantasia. Segundo Moreira (2004), “Será a partir do Édipo que o sujeito irá estruturar e organizar o seu vir-a-ser, sobretudo em torno da diferenciação entre os sexos e de seu posicionamento frente à angústia de castração”.
Na teoria freudiana, o Complexo de Édipo representa um momento central do desenvolvimento psicossexual da criança, situado principalmente na fase fálica, entre os três e os cinco anos de idade. Nesse período, o sujeito em constituição vivencia intensamente sentimentos ambivalentes: desejo amoroso pelo genitor do sexo oposto e rivalidade hostil com o genitor do mesmo sexo. Freud (2016) diz:
O complexo de Édipo é o complexo nuclear da neurose, que constitui a parte essencial do seu conteúdo. Nele culmina a sexualidade infantil, que, por seus efeitos ulteriores, influi decisivamente na sexualidade do adulto. Cada novo ser humano enfrenta a tarefa de lidar com o complexo de Édipo.
A resolução do complexo se dá através da renúncia ao desejo incestuoso e da aceitação da autoridade paterna. Essa renúncia, contudo, não é simples. Nasio (2005), em seu livro “Édipo – O complexo do qual nenhuma criança escapa”, mostra que o menino passa por um processo com algumas fases ligadas à sexualização dos pais. Por ter o Falo, ele acredita em sua fantasia que é um ser onipotente. Assim, a criança do sexo masculino pode ter três desejos: possuir o corpo de sua mãe, ser possuído pelo corpo de seu pai, ou suprimir o corpo de seu pai. Ao deparar-se com o fato de que a mulher é desprovida de pênis, nascem as fantasias de angústia. Diante destas angústias (de ser castrado pelo pai repressor, sedutor ou rival), o menino recalca suas fantasias e aceita que a mãe não pode ser seu objeto de desejo, tendo os genitores como objetos de identificação.
Na menina, o processo tem mais uma etapa, pois, segundo Freud, existe uma fase pré-edipiana. Assim como o menino, ela se sente onipotente devido às sensações clitorianas. No entanto, ao deparar-se com a falta do pênis, sua fantasia de poder não é mais a mesma. Ela sente a privação e a dor de perder o falo. A menina busca refúgio em seu pai, pois ele é o detentor do “grande falo”. Perante a recusa do pai, que não lhe entrega seu falo, ela busca ser o falo para ele. Neste sentido, a mãe passa a ser o exemplo com a qual a menina se identifica. Ela então dessexualiza o pai e se torna aberta para, no futuro, poder amar um homem.
Quando o menino e a menina renunciam a seus desejos incestuosos e se identificam com um de seus genitores, nasce o Superego. Em seu artigo “Édipo em Freud: o movimento de uma teoria” Moreira (2004) afirma que:
A introdução do conceito de identificação não é apenas um mecanismo psicológico, mas uma operação pela qual o indivíduo humano se constitui; sendo um processo central na constituição e transformação do sujeito, trará, como consequência, a produção do conceito de superego.
Em Eu e o Id (2011), Freud afirma que o Superego é “sem dúvidas herdeiro do Complexo de Édipo”. É esta instância que vai fazer com que o sujeito observe as leis, as siga, cumpra com seus deveres, culpando-se e punindo-se em alguns casos. Em seu artigo, Moreira (2004) ainda comenta: “O superego resulta de um processo identificatório com a lei, da qual o pai é o representante”.
2. O Édipo para Lacan
Jacques Lacan, que sempre baseou seus estudos nos escritos de Freud, não ignora o Complexo de Édipo, mas traz uma visão diferente para este conflito. Sua visão se concentra no lugar ocupado no campo simbólico, trazendo à luz o “Nome-do-Pai”. Para ele, o Édipo não é apenas algo vivido em um ambiente familiar, mas sim uma estrutura simbólica que organiza a subjetividade humana.
Deste modo, o Édipo é uma experiência de entrada em um sistema de significados que regem o mundo. Segundo Lacan (1995) “percebeu-se então que um Édipo podia constituir-se muito bem, mesmo quando o pai não estava presente”, por isso ele se refere a uma função simbólica.
Lacan observa que, no início da vida, o bebê tem uma relação muito íntima com a mãe. O bebê deseja sua mãe e acredita que o mundo dela gira em torno dele. No entanto, o desejo da mãe vai além do novo integrante da família. É neste momento que a figura paterna entra para barrar a mãe de desejar somente o bebê.
O pai […]interdita a mãe. Esse é o fundamento, o princípio do complexo de Édipo, é aí que o pai se liga à lei primordial da proibição do incesto. É o pai, recordam- nos, que fica encarregado de representar essa proibição (LACAN, 1995).
Segundo Lacan, o desejo da mãe encontra seu limite na função paterna. É importante ressaltar que não é necessário um pai biológico, mas sim que alguém, um terceiro, assuma essa função paterna de barrar a fusão do bebê com o Grande Outro, que é sua mãe. Lacan chama essa função simbólica de “Nome-do-Pai”.
Segundo Lacan, a função fundamental do Édipo aparece como coextensiva à função paterna, mas a função deve ser entendida como algo radicalmente distinto da presença ou da ausência do pai na família. Lacan faz uma distinção entre o papel social do pai, que estava em declínio – já apontado por ele desde 1938 em “Os complexos familiares na formação do indivíduo -, e a função lógica do pai para a psicanálise.” Os fundamentos sobre a função do pai são relacionados à fala, à linguagem, como constitutivos da subjetividade (COSTA, 2010).
O “Nome-do-Pai” barra a fusão do bebê e da mãe, impondo um limite nesta relação, assim como a cultura, a linguagem e a sociedade. Com essa negação de ter a mãe para si, a criança vê que seu desejo não será totalmente satisfeito. Isso a leva a desejar outras coisas, passando a enxergar algo além da relação materna.
Lacan coloca a linguagem como um elemento central para a constituição do sujeito. Segundo ele, o sujeito só se torna sujeito quando entra no campo simbólico da linguagem, ou seja, quando começa a compreender o mundo através de signos, palavras e regras que são transmitidas socialmente. É nesse contexto que o Édipo ganha um novo significado: ele é a passagem do sujeito para o mundo simbólico, onde a criança deve aprender a aceitar a proibição e se conformar com a ideia de que seu desejo não pode ser completamente satisfeito. Segundo Lacan (1995), o Édipo é compreendido como metáfora paterna, que introduz a lei no desejo.
3. Os três tempos do Édipo em Lacan
Lacan divide o Édipo em três momentos principais:
Primeiro tempo: O bebê sente que a mãe o enxerga como seu falo. Na visão do recém-nascido, o mundo de sua mãe gira somente ao seu redor e ele fantasia que é a única coisa que ela deseja.
Segundo tempo: O pai, ou uma figura que exerça a função paterna, entra em cena. Segundo Lacan (1995), em seu Seminário 4 ressalta que:
O pai simbólico é o nome do pai. Este é o elemento mediador essencial do mundo simbólico e de sua estruturação. Ele é necessário a este desmame, mais essencial que o desmame primitivo, pelo qual a criança sai de seu puro e simples acoplamento com a onipotência materna. O nome do pai é essencial a toda articulação de linguagem humana.
A função do pai é essencialmente simbólica, e por meio do Nome-do-Pai, ele impõe a Lei. Ao perceber a presença de um outro na relação, o bebê percebe que a mãe pode desejar algo ou alguém que não seja ele. Neste momento, o pai barra a fusão bebê-mãe, impondo um limite e iniciando a castração simbólica.
Aqui surge o Nome-do-Pai com sua função simbólica de regular o desejo da criança, inserindo-a em uma sociedade com suas regras e limites. Segundo Lacan (1995), a função do Nome-do-Pai é introduzir o sujeito no campo do significante, delimitando o desejo do bebê e inscrevendo-o no campo simbólico.
Terceiro tempo: O Nome-do-Pai passa a ser um significante fundamental e organiza a subjetividade do sujeito. Ele insere o sujeito no mundo da linguagem, mostrando-lhe a ordem que rege a sociedade, impondo-lhe limites e castrando-o de seu desejo incestuoso. Se não lhe é permitido desejar sua mãe, só resta ao sujeito passar a desejar outras coisas, utilizando a linguagem como meio de se relacionar com o outro. A partir deste “corte”, o sujeito pode se constituir, criando novas possibilidades para si.
4. O Édipo nos dias de hoje
Ao acompanhar e refletir sobre as ideias de Freud e Lacan, fica claro que o Complexo de Édipo continua sendo uma das bases da psicanálise, mesmo com as diferentes abordagens que cada autor propõe. Para Freud, o Édipo é o momento em que a criança organiza sua sexualidade, suas relações afetivas e seu próprio psiquismo (FREUD, 2011). Já Lacan, sem desconsiderar a contribuição freudiana, desloca o Édipo de um drama familiar para uma estrutura simbólica, sublinhando que é pelo Nome-do-Pai e pela entrada na linguagem que o sujeito se constitui (LACAN, 1995).
O que atravessa ambos os autores é a percepção de que o Édipo não é apenas algo do passado infantil, mas continua moldando a vida psíquica e as relações do sujeito com o mundo. Nasio (2005) lembra que nenhuma criança escapa ao Édipo e, por consequência, nenhum adulto está completamente fora de sua influência.
Nos dias de hoje, o Édipo pode aparecer de formas diferentes, mas sua função permanece: mostrar limites, mediar desejos e organizar a subjetividade. Na clínica, perceber esses efeitos ajuda a entender como o sujeito se relaciona com a cultura, com a lei e com os outros, e como lida com a renúncia e a identificação.
Revisitar Freud e Lacan é perceber que o estudo do Édipo é o aprofundamento do próprio processo de constituição do sujeito. Mais do que abordar uma teoria, esta reflexão é convidativa a continuar pensando, escutando e aplicando esses conceitos na prática clínica, reconhecendo que o Édipo, mesmo hoje, ainda está presente em cada experiência de desejo, de limite e de encontro com o outro.
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Referências bibliográficas
COSTA, Teresinha. Édipo. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. FREUD, S. O Eu e o Isso. In:
FREUD, S. Obras completas. v. 16. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FREUD, S. A Interpretação dos Sonhos: II (1900-1901). In: FREUD, S. Obras completas. v. 5. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade; Análise fragmentária de uma histeria (“O caso Dora”) e outros textos (1901-1905). Tradução de Paulo César de Souza. Obras completas, v. 6. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
LACAN, J. O Seminário, Livro 3: As Psicoses. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 4: a relação de objeto (1956-1957). Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 5: as formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
MOREIRA, Jacqueline de Oliveira. Édipo em Freud: o movimento de uma teoria. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 9, n. 2, p. 219-227, ago. 2004. DOI: 10.1590/S1413-73722004000200008.
NASIO, J-D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa. Tradução de André Telles. São Paulo: Escuta, 2005.





Respostas de 3
Oração na ponta do lápis. É a impressão que tenho ao ler o seu trabalho, Natália. Você foi na raiz e entregou tudo! Aprecio muito a forma elegante e acessível de Násio expor os conteúdos da psicanálise, e confesso que foi bem simples entender os três tempos do Édipo, agora. Texto muito claro!
Se há algo que cresce e aparece na clínica, é o Édipo, vira e mexe ele está lá, não dá descanso, por isso precisa ser bem mastigado.
Belo trabalho Natália!
Parabéns menina!
Ops!
“Oração” não, “coração”.
Parabéns pelo texto claro. Além da síntese tão bem construída, denota-se os aspectos da teoria e clínica contemporânea que contemplam o tema de importância fundamental.