Um jovem de 18 anos disse ao seu analista uma frase que ficou suspensa no ar da sessão:
“Estou condenado à liberdade.”
Ele não sabia que estava citando Sartre. Não importa. O que importa é que essa frase nomeou, com precisão rara, algo que muitos adolescentes vivem sem conseguir dizer: o momento em que o Outro que organizava a vida — os pais, a escola, os horários, as cobranças — se retira. E o sujeito fica a sós com uma liberdade que não sabe o que fazer de si mesma.
O que cai na adolescência
A adolescência não começa com o corpo. Começa com uma perda.
Até certo ponto, a criança existe dentro de um enquadre que a sustenta: há horários, há regras, há um Outro que sabe o que ela deve fazer e quando deve fazê-lo. Esse enquadre pode ser opressor — e muitas vezes é — mas também organiza. Diz ao sujeito onde ele está, o que se espera dele, como medir o próprio valor.
A adolescência é o momento em que esse enquadre começa a ceder. Os pais já não têm a mesma autoridade. A escola termina ou perde o poder de cobrar. O grupo de amigos muda. E o sujeito se vê diante de perguntas que ninguém mais vai responder por ele: Quem sou eu? O que quero? Para onde vou?
É um momento de vertigem. E a vertigem, quando não tem nome, produz sintoma.
A liberdade que paralisa
Há um paradoxo na adolescência contemporânea que os clínicos conhecem bem: nunca os jovens tiveram tantas opções — de cursos, de carreiras, de identidades, de modos de viver — e raramente tantos se sentem tão paralisados diante delas.
Isso não é ingratidão nem preguiça. É a estrutura do desejo humano revelando algo que a cultura do desempenho prefere ignorar: o desejo não nasce da abundância de opções. Ele nasce da falta. É a interdição, o limite, o não que organiza o querer.
Quando tudo é possível, nada necessariamente se quer. O sujeito fica à beira de infinitas escolhas — e não consegue escolher nenhuma. Porque escolher uma é abrir mão de todas as outras. Porque escolher implica assumir responsabilidade por uma vida que, até então, era organizada por outros.
O jovem que disse estar condenado à liberdade não estava reclamando da liberdade. Estava nomeando o peso de ter que inventar a própria vida sem roteiro.
O que o sintoma responde
Quando essa vertigem não encontra palavras, ela encontra outros endereços. A procrastinação que paralisa. O quarto que vira refúgio. Os jogos que ocupam horas que deveriam ser de outra coisa. As drogas que anestesiam a pergunta. A ansiedade que não tem objeto claro mas está sempre presente.
Esses comportamentos não são falhas de caráter. São respostas — provisórias, insuficientes, às vezes destrutivas — a uma angústia que o sujeito ainda não consegue nomear.
A psicanálise reconhece nesses sintomas uma mensagem cifrada: há algo aqui que ainda não encontrou palavra. Algo que pede escuta antes de pedir solução.
O que os pais fazem — e o que o sujeito precisa
A resposta familiar mais comum diante desse adolescente parado é a pressão: escolhe logo, decide, faz alguma coisa. Às vezes funciona — o sujeito se movimenta por fora, mesmo sem ter se movimentado por dentro. Mas frequentemente o resultado é o oposto: quanto mais a pressão aumenta, mais o sujeito recua.
Não porque é irresponsável. Mas porque a pressão externa não substitui a elaboração interna. O sujeito que escolhe uma carreira para calar a família não escolheu — foi escolhido. E essa diferença aparece, cedo ou tarde, no consultório.
O que o adolescente nesse impasse precisa não é de mais cobranças. É de um espaço onde possa formular, sem julgamento, as perguntas que está evitando fazer: O que eu quero — de verdade, para mim? O que tenho medo de querer? O que acontece se eu decepcionar quem espera algo de mim?
A análise como espaço de invenção
A psicanálise não tem como responder o que o adolescente deve fazer da vida. Não é sua função. O que ela oferece é algo mais fundamental: a possibilidade de o sujeito se deparar com o próprio desejo — o que ele quer, o que teme, o que evita, o que o move quando para de se mover pelo que os outros esperam.
Isso não é rápido. Não é linear. E frequentemente passa por um período de maior desorientação antes de maior clareza — porque o processo de se perguntar de verdade é mais perturbador do que continuar respondendo às perguntas dos outros.
Mas é o único caminho que produz uma escolha que o sujeito pode sustentar. Não porque lhe foi dita. Mas porque emergiu dele.
A frase que não era de Sartre
Aquele jovem de 18 anos não precisava saber que estava citando Sartre para ter dito algo verdadeiro. A liberdade como condenação é uma experiência que antecede qualquer filosofia — é o encontro do sujeito com a própria singularidade, com o fato de que ninguém pode querer por ele.
Esse encontro assusta. Sempre assustou. E é exatamente aí — nesse susto — que a análise pode começar.
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