“Quem se deixa açoitar merece os açoites.”
Leopold von Sacher-Masoch em A Vênus das Peles

Daia Florios
Psicanalista formada pelo Instituto La Lettre em 2025, estudante de Ciências e Técnicas Psicológicas na Sapienza Università di Roma.
Resumo: O conceito de gozo, na psicanálise, tem a ver com masoquismo porque, em poucas palavras, refere-se a uma espécie de prazer no desprazer. Sendo assim, “gozo masoquista” poderia se configurar um pleonasmo, pois ambas as palavras sugerem prazeres que vão além do princípio do prazer, e têm relação com a pulsão de morte. Neste trabalho seremos específicos, analisaremos qual prazer desprazeroso se esconde atrás da autodepreciação que um masoquista procura ter, tomando como caso dois personagens de duas obras literárias: Justine do Marquês de Sade e Severin do Sacher-Masoch.
Palavras-chave: Sacher-Masoch; Marquês de Sade; Freud; Lacan; Deleuze; Masoquismo; Sadismo
1. A perversão como estilo de vida
Masoquismo e sadismo são termos criados pelo psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, Viena – 1886, em seu Psychopathia Sexualis: um tratado de psiquiatria onde o célebre médico listou uma série de práticas sexuais que não se encaixavam em uma suposta “normalidade” comportamental humana.
Para cunhar tais termos, Krafft-Ebing se inspirou em dois grandes autores: o francês Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade (1740-1814), e o austríaco Leopold Von Sacher-Masoch (1836-1895), os quais iremos tratar nesse estudo.
A literatura sadiana é toda pautada no libertarianismo, na ideologia do libertino, ou seja, no vale tudo próprio da perversão, uma espécie de naturalismo, um pensamento muito bem exposto e sustentando na obra “A Filosofia na Alcova”, fundamental para entender o pensamento sádico; enquanto Masoch sustenta um ideal que ele mesmo chamou de ultra-sensualismo.
Popularmente, considera-se que o masoquista é aquele que gosta de sofrer e de ser dominado; enquanto o sádico gosta de dominar e causar sofrimento. Mas essas definições, como veremos, não têm a ver com perversão no sentido original do termo, pois ultrapassam as práticas sexuais de onde esses nomes vieram, uma vez que tanto o sadismo quanto o masoquismo podem ser lidos como condições que desbordam para a vida.
Pervĕrsus é o particípio passado de pervertĕre, verbo formado pelo prefixo per- (que indica desvio) e pelo radical vertĕre (‘voltar’, ‘girar’). Desse modo, perverso é aquele que pode seguir qualquer via ou direção.
2. A importância clínica do “sadomasoquismo”
Se visto como estilo de vida, e não como perversão, o “sadomasoquismo” pode ser verificado em todas as relações sociais onde existam forças de oposição entre dominadores e dominados. Ou seja, praticamente em toda relação social. A questão fundamental que se coloca é a do prazer em ocupar essas posições desagradáveis.
Pode parecer óbvio que todos gostem de ocupar a posição de dominação. Mas o óbvio não existe, sobretudo para a psicanálise, que trabalha a subjetividade, o inconsciente, o desconhecido, e onde obviedades não existem.
Assim, tem-se o gozo da vítima em sofrer nas relações ditas “tóxicas”, nas posições de submissão, nas de injustiça provocadas pelo racismo, pela pobreza e pelas faltas de todo tipo. São temas muito difíceis de serem tratados porque a posição masoquista não é simples nem fácil de ser assumida. A vítima, ao racionalizar e recalcar seu gozo, acaba indo para um lugar onde sente que nada tem a ver com o seu sofrimento, ou seja, entra numa espécie de “neurose de destino” e dá a culpa ao outro, grande (A) ou pequeno (a) outro que seja, livrando-se de qualquer culpa e ao mesmo tempo, reforçando sua moral ilibada e boa conduta.
Como veremos, Justine é um personagem masoquista de Sade. A novela (Justine e as Desgraças da Virtude) conta a história de uma mulher vítima das piores atrocidades sádicas, mas que o tempo todo da narrativa parece buscar deliberadamente por situações de sofrimento.
É muito importante ler Justine para entender relações tóxicas, inclusive relações tóxicas consigo mesmo. O prazer no desprazer (o gozo) é algo típico masoquista que merece ser analisado, inclusive para ser “curado”. E a palavra “cura” não vem à toa, vem de Severin, o personagem de Sacher-Masoch em “A Vênus das Peles”. Depois de tanto apanhar, Severin se diz “curado”. Em suas palavras: “ou tu és o martelo ou a bigorna”, como se as opções fossem apenas estas: dar ou receber porrada e, depois de tanto receber, inverter e passar a dar, ou seja, curar-se.
Da mesma maneira, Juliette, a irmã perversa de Justine, ao final da novela entra para um convento de freiras na tentativa senão de curar-se da perversão, de limpar-se dos pecados cometidos.
Neste trabalho iremos falar sobre Justine de Sade e Severin de Masoch, junto com Freud, Lacan e Deleuze na tentativa de entender de onde vem o gozo masoquista, pelo menos nesses personagens, e como podemos trazê-los para a clínica, lembrando que a arte sempre imita a vida. No caso do “A Vênus das Peles”, o romance é praticamente autobiográfico, assim como as obras de Sade trazem histórias de sua vida real, do libertino que ele foi, ou melhor, do masoquista que ele também foi, tendo passado a maior parte da sua vida no sofrimento de um cárcere.
3. Sadomasoquista: junto ou separado?
Em “O Frio e o Cruel”, o filósofo francês Gilles Deleuze argumenta que não existe uma dinâmica sadomasoquista, ou seja, um comportamento que deslize de uma posição para a outra. Sado e maso são, segundo Deleuze, perversões completamente distintas e separadas.
Analisando as obras de Sade e Masoch, inclusive as que trazemos aqui, Deleuze opta por uma distinção radical de um e de outro comportamento. Sua argumentação é baseada na estética literária dos autores, bem como na própria composição dos personagens.
Uma piada usada no livro conta sobre o encontro entre um sádico e um masoquista: o masoquista diz: “Me machuque” e o sádico responde: “Não.” (Deleuze, 1991, pp 40). O que a anedota quer dizer é que, para um sádico, não há a menor graça bater em quem quer apanhar, por isso, sadismo e masoquismo não existem como comportamentos complementares nem ambivalentes.
Além disso, analisa Deleuze, Sade é explícito nas cenas de sexo e horror, enquanto Masoch trabalha mais com a fantasia. O sadismo é institucional, enquanto o masoquismo é contratual. O sadismo opera por meio de repetição quantitativa; o masoquismo por meio de suspensão qualitativa. Entre essas e outras análises da narrativa, Deleuze resume argumentando que há um masoquismo específico no sádico, assim como um sadismo típico do masoquista e enfim, somando todas essas diferenças, ele acentua as discrepâncias entre a apatia sadista e a frieza masoquista (Deleuze, 1991, pp 134).
Agora vejamos como Sigmund Freud vê o conceito sadomasoquista, e se este deve ser escrito junto ou separado.
4. As vicissitudes e o problema econômico
O tema do masoquismo esteve presente praticamente em toda a obra freudiana, desde 1905 nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, onde o masoquismo é considerado secundário em relação ao sadismo. Depois, em Aqueles que fracassam no sucesso (1916) o tema é retomado e seguido de Uma criança é espancada (1919) até chegar em duas obras mais específicas, como veremos.
Freud, que tem toda a sua teoria baseada na ambivalência – que é a coexistência de forças contrárias regidas por certos princípios do psiquismo (o do prazer: buscar prazer e evitar o desprazer); o da realidade (em que o ego adia a gratificação imediata dos desejos para atender às exigências do mundo externo); o da constância, de Fechner (o aparelho psíquico tende a reduzir as tensões em uma “tendência à estabilidade”) – irá dizer que sadismo e masoquismo não são opostos porque esses “princípios” não são excludentes, ao contrário, podem coexistir entre eles.
No texto curto e denso O instinto e suas vicissitudes, famoso pela questão da tradução de “triebe und triebschicksale”, instinto e seus destinos ou pulsão e seus destinos, Freud diferencia a pulsão do instinto, sugerindo que há algo entre o somático (corpo) e o mental (psiquismo) que é constante e interno, que independe de estímulos externos, ou seja, que não é instintual e que sofre uma pressão (drang) por satisfação, com uma finalidade (ziel), através de um objekt (objeto).
Nesse sentido, a pulsão é um conceito fronteiriço entre o corpo e a mente. Muito resumidamente, é uma força constante que nasce no corpo e pressiona a mente a buscar por uma satisfação, independentemente de estímulos externos.
O desprazer aumenta esse estímulo interno, e o prazer o diminui. A finalidade então é eliminar o estado de estimulação na fonte, podendo haver caminhos intermediários constituindo satisfações parciais ou inibições. As mudanças pelas quais as pulsões passam ao longo da vida seriam as vicissitudes, e explicariam um masoquismo principal do qual derivaria o sadismo, onde a finalidade, a intenção da pulsão, era a de dominar (sadismo), mas que não podendo ser direcionada ao externo se internaliza e se transforma em dominação e dor autoinfligida.
Pode parecer complicado, mas estamos falando de um texto de 1915 que, de qualquer forma, busca ser científico do primeiro ao último parágrafo para entender, substancialmente, os porquês do gozo masoquista, ou melhor, por que há prazer no desprazer? E conclui de maneira labiríntica que as pulsões podem se modificar e interagir entre elas de maneira complexa. Nesse sentido, sadismo e masoquismo seriam um do outro, o reverso da mesma moeda.
Mais adiante, em O Problema Econômico do Masoquismo (1924), Freud empresta de Barbara Low a ideia do “Princípio de Nirvana”, segundo o qual todo desprazer deveria coincidir com um aumento, e todo prazer com uma diminuição da tensão mental devida a um estímulo. No texto referido, para entender o masoquismo, Freud está considerando o princípio do prazer como um vigia da nossa vida, pois o aparelho psíquico tende a reduzir a zero, ou ao mínimo possível, sua tensão interna. Sob essa ótica, a mente operaria em busca de uma economia psíquica voltada à estabilização absoluta de estímulos. O masoquismo surge, então, como um enigma, pois não haveria lógica na busca pela dor para a manutenção da vida. Percebe-se aqui o seu problema econômico: a existência de tensões que, em vez de evitadas, são buscadas por se tornarem fontes de prazer. Por qual razão o sujeito extrairia satisfação do infortúnio? Por que existem tensões prazerosas (como a excitação sexual) e, inversamente, sensações de alívio que só se alcançam através de estados profundamente desprazerosos (como a autoflagelação)?
Para resolver esse problema econômico, Freud então divide e analisa o masoquismo em três tipos: erógeno, feminino e moral.
O primeiro, o masoquismo erógeno (prazer na dor) está na base das outras duas formas, sendo de origem biológica e constitucional.
O segundo, o masoquismo feminino (que alguns traduziram como femíneo porque não tem relação com o gênero), tem a ver com a castração e a posição de passividade em relação ao outro.
O terceiro, o masoquismo moral, é inconsciente (ou seja, desconhecido) e tem a ver com o sentimento de culpa, com o supereu.
O que Freud conclui nesse texto é que existe um masoquismo primário (erógeno) onde a libido captura uma tendência autodestrutiva e erotiza a dor, o que permitiria que uma tendência autodestrutiva não fosse mortífera e se tornasse parte do funcionamento erótico.
Embora Freud não tenha sido explícito, ou melhor, tenha sido muito sucinto nesse outro texto curto e denso, ele traz a noção do princípio do Nirvana (ou da pulsão de morte) para a origem do problema da dor como guardiã da vida. Podemos ler hoje, que experiências de violência precoce ou desamparo podem se inscrever nesse terreno estrutural do masoquismo primário. Mas não precisamos ir longe, sobretudo se não tivermos experiência clínica onde recorrentemente aparece, infelizmente, o abuso na mais tenra idade. Basta pensar que uma displicência ordinária, uma resposta não dada subitamente ao choro de um bebê, poderia ser percebida como violência ou desamparo. E então, transformar a dor em prazer tornar-se-ia um mecanismo de defesa e, mais que isso, de sobrevivência.
Em outras palavras, tem-se que o masoquismo sugere uma agressividade inicial que, não podendo ser expressa para fora, retornaria contra o próprio sujeito, dando a este a ideia de estar sob o controle da situação. É como dizer: “enquanto eu dependo do outro e o outro não vem ao meu socorro quando eu preciso, é melhor eu transformar essa dor, esse desamparo, em prazer.”
O ego, inconscientemente, precisa desse subterfúgio para sobreviver se as condições dadas colocarem em risco a própria vida. É a pulsão de morte como guardiã da vida.
Ao final deste texto freudiano, o masoquismo fica evidenciado como uma ambivalência de instintos que se origina na pulsão de morte e que, possuindo um significado erótico, até mesmo de destruição por si mesmo, aparece com vestes de satisfação libidinal.
Em ambos os textos analisados, temos que, no sentido freudiano, a expressão sadomasoquismo revela uma relação dialética em que uma perversão pode se transmutar na outra (vicissitude).
Freud observa que tendências sádicas e masoquistas podem coexistir no mesmo sujeito, com o sádico sendo também capaz de experimentar prazer na dor que inflige a si mesmo, e o masoquista podendo sentir prazer ao causar dor ao outro.
Em suma, Freud, em um texto e no outro nos dá a entender que causar e sofrer dor (assim como olhar e ser olhado no voyeurismo) são posições intercambiáveis, ao contrário de Deleuze que as vê completamente separadas por questões de lógica e de estética.
5. Kant con Sade, Masoch e Lacan
Se fosse uma ópera: “Cante com Sade, Masoch e Lacan”, bem que poderíamos cantar os personagens, onde Kant diria:
– Faça com que seu desejo coincida com a moral da lei e dos bons costumes.
Sade, o libertino:
– Pelo contrário, ilustre Kant, faça de modos que o seu desejo possa romper com todas as leis.
Lacan, o analista, diria:
– Os senhores estão falando do mesmo, mas em sentido contrário: nem o eu, libertino, egoísta e sem lei; nem a lei, fria e impessoal. Tomem consciência de que o desejo vos atravessa e vos coloca frente ao risco e à finitude. É nele, nesse atravessamento, que reside a vossa liberdade.
É a ética psicanalítica, a ética do desejo, nem kantiana nem sadiana, mas a das pulsões, sejam estas de vida ou de morte que, juntando tudo, agora no resumo da ópera, significa a ética de fazer o que de melhor possível perante o real: a mortalidade da vida.
Talvez tenhamos complicado, mas o possível é o singular: cada caso é um caso. Então, vamos aos casos: Justine e Severin.
6. Justine, a virtude em pessoa
Justine, ou As Desgraças da Virtude, de Marquês de Sade, é um romance de 1791 que conta a história de duas irmãs, Justine e Juliette, que, uma vez órfãs, seguem caminhos diferentes na vida. Justine, a virtuosa, mantém Deus no coração, enquanto Juliette entrega-se às mundanidades da vida.
O romance narra as provações de Justine, jovem inocente e piedosa que, mesmo na pior das situações que a vida lhe coloca, decide permanecer fiel aos princípios da virtude e da religião. Ao longo da história, porém, cada ato de bondade ou pureza a leva a novas tragédias: é explorada, enganada, abusada e injustiçada repetidamente. E o pior: seus algozes se dão muito bem, ficam cada vez mais ricos e sempre são premiados pela vida, em dinheiro e honrarias.
Em contraste, sua irmã Juliette, que escolhe uma vida de vícios, prazeres e corrupção, enriquece, conquista poder e alcança uma existência confortável.
Sade utiliza a oposição entre as duas irmãs para expor uma visão crítica, irônica e provocadora sobre a moralidade, a religião e a sociedade de sua época: no mundo real, o vício é recompensado e a virtude é castigada. Como quem diz: se o mundo é corrupto, o melhor a fazer é corromper-se.
Enquanto Juliette goza da bella vita, Justine goza das desgraças da virtude. No decorrer da trama, cada desgraça vivida sugere uma outra ainda pior, num jogo infantil que só a vítima não quer enxergar. Por que? Porque há um gozo masoquista aí.
O leitor antevê todos os males que Justine sofrerá, mas a jovem virtuosa segue seu gozo martírico, uma espécie de fé na humanidade. E quanto mais ela sofre, mais sua fé se fortalece. “Ou se é o martelo, ou se é a bigorna”, diz Severin de Masoch, e Justine decidiu ser a bigorna até as últimas consequências e diante de todas as evidências de suas escolhas erradas.
Justine encarnou a ética kantiana de cumprir um dever universal além dos interesses pessoais, e levou esse imperativo às últimas consequências, morrendo de maneira inesperada. Sade é extremamente irônico ao final da novela colocando a irmã, Juliette, em uma posição semelhante à de Severin de Masoch, que transitando de um lugar a outro, decide bater em vez de apanhar, enquanto Juliette, ao contrário mas igualmente, decide apanhar em vez de bater. Além dessa ambivalente vicissitude de sado a maso e de maso a sado, Justine e Severin têm algo muito em comum: a ideia do martírio, do gozo masoquista, do prazer no desprazer, do parecer passivo, mas ser ativo.
7. Severin, macho nada alpha
Severin é um ultra-sensual (palavras dele em suas “confissões” – Sacher-Masoch, 1870, pp. 12), alguém que sonha as matriarcas de uma época, as deusas e líderes como Madame de Pompadour, Catarina II, Lucrécia Bórgia, Rainha Margot, Dalila e tantas outras citadas como musas inspiradoras, mulheres que “botavam o falo na mesa”. Severin, aparentemente, é o macho submisso, que se coloca voluntariamente aos desmandos da deusa matriarca.
A Vênus das Peles foi escrito em 1870, época já patriarcal onde muitos homens, e desde aquela época até hoje, tiveram que tomar as rédeas da situação quando “bom mesmo” era obedecer. Parece estranho dizer isso, principalmente porque muito se critica o patriarcado hoje, mas existem homens (como Severin) que prefeririam o lugar da submissão. É compreensível se fizermos uma rápida análise de Totem e Tabu, (Freud, 1913). Segundo Freud, nossa sociedade é fundada na angustiante ambivalência entre matar o pai (ganhar liberdade e tomar o poder) mas perder a sua proteção. É como dizer: se quiser causar mal ao homem dê-lhe a liberdade. Nada mais angustiante que a liberdade. O homem não sabe o que fazer dela.
Muito resumidamente, o enredo de A Vênus das Peles (1870) gira em torno de Severin von Kusiemski, um homem que sente prazer em ser subjugado. Ele conhece Wanda von Dunajew, por quem se apaixona e com quem firma um contrato de servidão: aceita ser tratado como escravo, desde que ela use peles ao exercer o poder. As peles remetem às deusas e guerreiras que ele idolatra, e à surra que um dia levou de uma sua tia. Com o tempo, Wanda assume de fato esse papel dominador e capricha nos castigos ao ponto de exceder, permitindo que um de seus amantes açoite Severin. No final, Wanda se retira com esse amante e Severin chega ao seu limite. Anos depois, recebe uma carta de Wanda onde ela diz ter aceitado participar do “jogo” na intenção de curá-lo cruel e radicalmente do seu gozo masoquista (Sacher-Masoch, 1870 pp 79-80).
Ser curado do seu gozo masoquista são palavras nossas, não de Wanda, mas o essencial é isso, pois Severin se diz curado e resume sua história assim:
“A moral é que eu fui um burro (…) Se ao menos eu a tivesse açoitado! (…) Daí a moral da história: Quem se deixa açoitar merece os açoites.”
Justine e Severin têm algum muito em comum. Ambos são…
8. Mártires (e levam tudo às últimas consequências)
Justine, provavelmente, morre acreditando que vai para o céu (e de fato vai: deus a leva consigo num raio de luz), afinal, o mundo cruel não é para ela, tão casta, tão virtuosa. E Severin foi, em suas palavras, um mártir do amor. (Sacher-Masoch, 1870, pp 26).
O martírio está em polvorosa em ambas as obras porque a arte imita a vida. Vejamos bem: Hércules cumpre 12 trabalhos (castigos) para atingir um estado de redenção pelos males que cometeu (matou a família), para restaurar sua honra e sua moral. Muitos terapeutas usam no trabalho com tóxico-dependentes a jornada do herói, composta de 12 passos. O sacrifício está na ideia de redenção humana. Jesus se sacrificou por nós. A cultura masoquista está entranhada em nossas veias desde os primórdios, desde os gregos e romanos antigos, a história é sempre civilizatória no sentido kantiano: abdicar do desejo para um bem maior. Sade inverte, a priori, essa ordem, mas Lacan enxerga um fantasma em sua ópera Kant com Sade, ou ironizando: “Cante com Sade o Fantasma da Ópera”.
Quem é o fantasma da ópera? É a fantasia da imortalidade. Quando lemos a ética da psicanálise, lemos a ética do desejo, a ética de Eros, ou seja, a ética da pulsão de vida.
O masoquismo está muito ligado à pulsão de morte. Se em Freud, como mecanismo de defesa, como guardião da vida, uma espécie de narcisismo inclusive; em Lacan o masoquismo ocupa a posição de verdadeiro dominador, lobo em pele de cordeiro, que se faz se objeto de rejeito para ser comprado.
O masoquista é uma pessoa que sabe usar o poder do outro em seu próprio favor, para gozar da imagem martírica de si mesmo. Se o culpado é sempre o outro, o mundo cruel, o masoquista, mais do que limpo, sai mártir na história, sendo ainda capaz de encontrar um sádico que assume deliberadamente o papel de mau, de perverso, de fora da lei.
Para Lacan, a verdade sádica se revela somente no masoquista porque é na dor, e não no prazer, que as práticas sadomasoquistas permitem o êxtase para além do princípio do prazer.
Conclusão
O martírio é o gozo masoquista. É o fantasma da redenção, do sacrifício, da imortalidade da alma que esconde a mortalidade do corpo que, provavelmente, faz com que exista prazer no desprazer.
A mulher que apanha até morrer (enquanto não morre, resiste);
O dependente químico (só mais uma dose antes da derradeira);
O desgraçado, injustiçado, escravizado, a vítima mais vítima de todas que, como Justine, é incapaz de ver que está deliberadamente procurando por seus algozes, tampando o sol com a peneira, armando-se de todos os mecanismos de defesa do ego para manter sua imagem imaculada de mártir;
Os mártires da religião, aqueles que se sacrificam em nome de deus, buda, alá, que pulam fogueiras, que dormem em camas de espinhos…
É provável que todos esses masoquistas acreditem na redenção de suas almas. Gozam do olhar angustiado do outro, da pena do outro que lhes revela uma maldade genuína e comum em todos nós.
Esses jogos de poderes, que sobretudo nas relações de amor podem ser muito excitantes, são perigosos e, de fato, matam.
Há salvação. Há cura, pelo menos nas histórias que aqui analisamos. Justine morre porque levou seu gozo às últimas consequências, mas Severin se “cura”.
Ao final de ambas as histórias o que permanece é a ironia e a honestidade sádica: o mundo é sim injusto e perverso, mas ser masoquista não faz de ninguém um santo.
Freud explica que enquanto o masoquista se esforça para esconder os aspectos inquietantes e cruéis de sua personalidade, o sádico torturador esconde de si uma terrível falta, uma desmesurada fraqueza.
Referências
DELEUZE, Gilles. O frio e o cruel. Disponível em: [http://pdf-objects.com/files/gilles-deleuze-masochism-coldness-and-cruelty-venus-in-furs.pdf](http://pdf objects.com/files/gilles-deleuze-masochism-coldness-and-cruelty-venus-in-
furs.pdf). Acesso em: 26 set. 2025.
ESSE Psicologia. Perversione: i crociati dell’Altro \[vídeo]. Disponível em: [https://www.youtube.com/watch?v=-5HZfTnYHuY](https://www.youtube.com/watch?v=-5HZfTnYHuY). Acesso em: 26 set. 2025.
FREUD, Sigmund. Al di là del principio di piacere. Torino: Bollati Boringhieri,
2023.
FREUD, Sigmund. Totem e tabù. Torino: Bollati Boringhieri, 2023.
FREUD, Sigmund. Os instintos e suas vicissitudes. Disponível em: https://
dravni.co.il/wp-content/uploads/2014/05/Freud-S.-1915.-Instincts-and-their-
Vicissitudes.pdf. Acesso em: 26 set. 2025.
FREUD, Sigmund. O problema econômico do masoquismo. Disponível em:
https://iepp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Freud-S-Problema-Economico-
do-Masoquismo-7.pdf. Acesso em: 26 set. 2025.
LACAN, Jacques. Kant com Sade. Disponível em: https://londonsociety-
nls.org.uk/wp-content/uploads/kant-with-sade2.pdf. Acesso em: 26 set. 2025
MASOCH, Leopold von. A Vênus das Peles. Disponível em: [https:// www.supremaciafeminina.com.br/VENUSDASPELES.pdf](https://www.supremaciafeminina.com.br/VENUSDASPELES.pdf). Acesso em: 26 set.
2025.
SADE, Donatien Alphonse François de. Justine, ou os infortúnios da virtude. Disponível em:https:www.academia.edu/5565148/12Marques\_de\_Sade\_Justine](https://www.academia.edu/5565148/Marques_de_Sade_Justine). Acesso em: 26 set. 2025.





Respostas de 2
Excelente!
Amei a forma como você usa a historicidade e a etimologia da palavra, isso dá um requinte e alimenta a curiosidade, de forma rica.
Fascinante o esmiuçamento cirúrgico, que você faz acerca do tema, na visão freudiana. Muito top! Você conseguiu ampliar a fala dele, de forma tridimensional e desenvolveu um tema tão delicado, de forma leve e convidativa.
Garota, você é incrível!
Belíssimo trabalho Daia!
Obrigada, de coração, por ter lido e comentado. <3 <3 <3