O que é a transferência — e por que ela importa na clínica

Há um fenômeno que Freud descobriu quase por acidente — e que se tornou um dos conceitos mais fundamentais da psicanálise. Ele percebeu que seus pacientes não reagiam a ele apenas como médico. Reagiam como se ele fosse outra pessoa. Alguém do passado. Alguém que amavam, temiam ou odiavam sem saber exatamente por quê.

Chamou esse fenômeno de transferência.

Uma estrutura, não uma distorção

A transferência não é uma distorção da realidade que precisa ser corrigida. É uma estrutura — um modo pelo qual o sujeito repete, na relação com o analista, os padrões relacionais que organizam sua vida psíquica. O paciente que sempre desconfia de quem cuida dele vai desconfiar do analista. O que sempre precisa agradar vai tentar agradar o analista. O que repete relações de dependência vai desenvolver dependência do analista.

Vale insistir no que isso não é: não é o paciente confundindo o analista com outra pessoa por falta de atenção, nem um erro de percepção a ser esclarecido com uma explicação racional. A transferência se instala mesmo quando o analista mal disse nada — muitas vezes, é a própria discrição do analista, o espaço que ele deixa em aberto, que convida o sujeito a preenchê-lo com o padrão que já carrega.

Isso não é problema. É material clínico.

A repetição viva, não apenas relatada

A transferência cria as condições para que o inconsciente se manifeste no presente da sessão — não apenas como lembrança relatada, mas como repetição viva. O sujeito não conta que tem dificuldade com figuras de autoridade: ele demonstra essa dificuldade na relação com o analista. E é exatamente aí, nesse ponto de repetição, que a análise pode intervir.

Essa diferença — entre relatar e repetir — é o que torna a análise diferente de uma conversa sobre o passado. Um paciente pode narrar sua relação com a autoridade paterna com toda a lucidez do mundo, em terceira pessoa, como quem descreve um caso alheio, sem que isso produza qualquer mudança. Mas quando essa mesma dinâmica aparece encarnada na relação com o analista — quando o paciente reage à interpretação como se fosse uma ordem, ou ao silêncio como se fosse rejeição — o inconsciente deixou de ser assunto e passou a ser acontecimento. É só nesse ponto que há algo a trabalhar.

As duas faces da transferência

Freud percebeu que a transferência tem duas faces. De um lado, é o motor da análise — é o amor transferencial, a confiança depositada no analista, que mantém o analisante no trabalho mesmo quando ele se torna difícil, quando a análise toca em pontos que o sujeito preferiria não tocar. Sem esse investimento afetivo, não há razão para o analisante continuar voltando, sessão após sessão, a um lugar que frequentemente produz desconforto antes de produzir alívio.

De outro lado, é resistência — quando o paciente prefere repetir na relação com o analista a avançar na análise. A mesma confiança que sustenta o trabalho pode, em outro momento, servir para evitá-lo: o sujeito que idealiza o analista a ponto de nunca discordar dele, por exemplo, muitas vezes está usando essa idealização para não precisar confrontar o que a análise revela sobre si mesmo.

O manejo como habilidade central da clínica

O manejo da transferência é uma das habilidades mais exigentes da clínica psicanalítica. O analista precisa sustentar o lugar que lhe é atribuído sem se identificar com ele — sem, por exemplo, passar a agir de fato como a figura de autoridade que o paciente projeta nele. Precisa usar o amor transferencial a favor do trabalho sem se tornar seu refém, sem buscar ser amado pelo paciente como fim em si mesmo. Precisa reconhecer quando a transferência está servindo ao avanço — e quando está servindo à resistência, o que muitas vezes exige do analista uma leitura fina, quase imperceptível, do momento exato da sessão.

O sujeito suposto saber

Lacan foi preciso ao definir o analista como sujeito suposto saber — aquele a quem o analisante atribui um saber sobre si mesmo que o próprio analista não tem. Essa atribuição é o que possibilita o endereçamento: o analisante fala para alguém que, supõe, pode compreendê-lo. Sem essa suposição inicial, não haveria por que falar livremente diante de outra pessoa.

O trabalho analítico consiste, em parte, em desfazer essa suposição — não para frustrar o paciente, mas para que ele descubra que o saber sobre si mesmo não está no analista. Está nele. É um movimento paradoxal: a análise só começa porque o paciente acredita que o analista sabe algo que ele não sabe, e só termina quando o paciente descobre que esse saber sempre foi seu.

A transferência é, ao mesmo tempo, o que torna a análise possível e o que precisa ser atravessado para que ela se conclua.

Referências

FREUD, Sigmund. Observações sobre o Amor de Transferência. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XII.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

O Instituto La Lettre oferece uma formação em psicanálise de orientação freudiana e lacaniana — 30 meses, online ao vivo, estruturada sobre o tripé clássico: teoria, análise pessoal e supervisão clínica. Mais informações em lalettre.com.br/formacao

Compartilhe nas mídias:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *