Por que um analista precisa ser analisado?

Entre todas as exigências da formação psicanalítica, a análise pessoal é a que mais provoca estranhamento em quem chega de fora. Por que o terapeuta precisa ser terapeutizado? Por que quem vai escutar precisa, antes, ser escutado? Para quem vem de outras formações — em que o profissional aprende uma técnica e a aplica sobre um objeto externo a ele — essa exigência soa quase redundante, ou até desnecessária.

A resposta não é simples — e não se reduz a uma questão de saúde mental.

A cegueira que o analista não escolhe ter

Freud foi o primeiro a perceber que o analista, no trabalho clínico, não é uma tela em branco. Ele reage, sente, projeta. Tem zonas de cegueira — pontos onde sua própria história interfere na escuta do outro sem que ele saiba. Chamou esse fenômeno de contratransferência: o conjunto de respostas emocionais e inconscientes que o analista desenvolve em relação ao paciente.

Essa cegueira não é um defeito de caráter nem uma falha de treinamento técnico. É estrutural: todo sujeito, por ser sujeito do inconsciente, tem pontos que não vê em si mesmo — o analista incluído. A diferença entre um analista formado e alguém que apenas estudou teoria não é a ausência de contratransferência. É a capacidade de reconhecê-la em ato, na própria sessão, antes que ela conduza a escuta sem ser percebida.

A análise pessoal não elimina a contratransferência. Isso seria impossível — e indesejável, porque parte dela é justamente material clínico valioso, um termômetro do que se passa na relação transferencial. O que a análise pessoal faz é tornar o analista capaz de reconhecê-la, de não confundi-la com a realidade do paciente, de usá-la como informação clínica em vez de deixá-la operar às cegas, determinando intervenções que dizem mais sobre a história do analista do que sobre o sujeito que ele escuta.

Um limite estrutural, não moral

Mas há algo mais profundo em jogo, que vai além do manejo técnico da contratransferência.

A psicanálise parte de uma convicção fundamental: o inconsciente existe, e ele interfere. Interfere no que dizemos, no que evitamos dizer, no que escutamos e no que não conseguimos ouvir. Um analista que nunca se deparou com o próprio inconsciente — que nunca experimentou, na posição de analisante, o que é falar sem saber o que vai dizer, e escutar o que não se esperava ouvir — pode conhecer toda a teoria psicanalítica e ainda assim não saber o que é a escuta de que ela fala. Ele teria o mapa, mas nunca teria pisado no território.

É por isso que Lacan afirmava que o analista só pode escutar o outro até onde consegue escutar a si mesmo. Não como limite moral — como se faltasse virtude a quem não fez análise — mas como limite estrutural: simplesmente não é possível reconhecer no outro um movimento do inconsciente que nunca se reconheceu em si. A análise pessoal não é uma exigência burocrática imposta por institutos: é o que autoriza a escuta. Sem ela, o que resta é aplicação de teoria — não clínica.

O pedido que o analista faz — e o que ele precisa ter feito primeiro

Há ainda uma dimensão ética nessa exigência, talvez a mais decisiva de todas. O analista que pede ao paciente que se debruce sobre seu inconsciente, que suporte a angústia do não saber, que renuncie às certezas que o protegem — esse analista precisa saber o que está pedindo. Precisa ter feito, em alguma medida, esse percurso. Não para dar o exemplo, como um modelo a ser copiado, mas para não pedir ao outro o que recusa para si mesmo.

Pedir a um paciente que tolere a incerteza sem tê-la tolerado é uma posição insustentável — mais cedo ou mais tarde, ela aparece na sessão como impaciência diante do tempo do outro, como pressa em fechar um sentido, como desconforto diante de uma angústia que o próprio analista nunca atravessou.

O que a análise pessoal produz

A análise pessoal não produz um analista acabado. Produz alguém que aprendeu, na própria experiência, que o inconsciente existe — e que isso muda tudo: muda a relação com a própria fala, com as próprias certezas, com o próprio desejo de saber antes de escutar. É esse aprendizado, vivido em carne própria, que nenhum livro sozinho transmite.

Referências

FREUD, Sigmund. Recomendações aos Médicos que Exercem a Psicanálise. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XII.

FREUD, Sigmund. Análise Terminável e Interminável. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XXIII.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

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